. EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. OS “NOVOS” NA ARTE BRASILEIRA. O Paiz, Rio de Janeiro, 10 ago. 1924, p.1. - Egba

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. OS “NOVOS” NA ARTE BRASILEIRA. O Paiz, Rio de Janeiro, 10 ago. 1924, p.1.

De Egba

PINTURA - ESCULTURA

Todos os movimentos de renovação artística encontraram sempre embaraços à evolução das novas forças criadoras.

É fenômeno natural. O meio que se constituiu lentamente, adquire uma certa cristalização. Toda funda [sic] alteração importa [sic] em diferente aptidão visual. E a preguiça mental, os hábitos do sentimento, a estabilidade mansueta da mesma interpretação, acabou por constituir as mesmas associações de ideias que facilitam, imensamente, o juízo critico.

E como ninguém se quer enganar no julgamento da beleza, é mais fácil esboçá-lo, guiado pelo diagrama preestabelecido, do que se entregar aos [...] de sua sensibilidade.

O homem é ser imitativo por excelência: sua ação tradicionalista é a origem e causa dos infortúnios morais que o perseguem e algemam.

Por outro lado, e de modo mais especial, todos se envaidecem com o prazer de “conhecer as coisas”.

Ninguém se acomoda com a ideia de que tem mau gosto.

Esse fato, aparentemente simples, gera através da história, o vício de permanecer no erro, ainda quando ele está lucidamente demonstrado.

Indivíduos há que dotados de personalidade recalcam-na no temor de não ter bom gosto: e, em matéria estética continuam a repetir os mesmos clichês cujo continente detestam e cujo conteúdo não sentem.

Ora, a obra de arte é, por excelência, energia vital de intuição.

É verdade que em se não a trazendo nos germens do instinto, só a educação prolongada, tenaz, persevera em modificar o impreciso e ineficaz instrumento.

Se aquela a esta se reúne - instuição [sic] ingênita, educação visual disciplinada na contemplação diuturna da beleza - temos então o homem completo, no domínio da arte.

É o ser que sendo requintado, chegou a simplicidade.

Com a sucessão das experiências do passado, o “espírito moderno” se transforma no sentido de ter maior receptividade. Dota-se de qualidades sensíveis que lhe permitem, com mais brevidade e simpatia, acolher os inovadores com o necessário entusiasmo.

Não se fecha mais no circulo das manifestações estéticas que o viram adolescer. Tornar-se liberal.

Admite, em principio, a evolução artística. E procura, com generosa bondade, descobrir o que há de novo nas aspirações da mocidade.

Inquieto e ávido, o espírito de hoje lança, nos surtos iterativos dos ideais nascentes, as possibilidades de outras descobertas, de diversas e desconhecidas revelações da natureza na sua face estética.

É que a vida moderna se assinala como expoente, na […] da ação. O mundo voa na alegoria do aeroplano. As formas sucedem-se no frêmito de tudo identificar, para atingir mais depressa, e com intensidade, as grandes conquistas da Realidade.

Eis porque a França decidiu organizar, para o ano próximo, a exposição internacional de artes decorativas e industriais modernas, onde só permite se exibam as imaginações dos sentimentos individuais, no que houver de mais novo, de criação verdadeiramente contemporânea.

Nós estamos longe daquela salutar compreensão. Por isso os movimentos artísticos originais, no Brasil, nunca existiram.

Nas artes plásticas, que nos ocupam agora, eles foram, sem interrupção, o reflexo direto do que se passa na Europa, principalmente em Paris.

De trinta anos para cá, em todo o período republicano, aquela mesma repercussão como que estancou. Ou por outra, o espelho da nossa sensibilidade se marcou de tal sorte que as largas manifestações artísticas que renovaram e arejaram a pintura [...] há cinquenta anos, nos [...] conhecidas.

A geração do Segundo Império - a maior e mais orgânica que o Brasil jamais teve - continua o seu predomínio. Para sua época, como Almeida Junior, Pedro Américo, Victor Meirelles, Almeida Reis, Agostinho da Matta [sic] e Zeferino da Costa - para só citar os mortos - foi o retrato fiel da arte francesa e um pouco da italiana, da segunda metade do século XIX.

Apesar de não ser original na composição nem na escolha dos temas, por vezes a fatura se evidenciava pessoal. E, em muitos casos, na simples paginação, corria o raio efêmero de uma libertação.

A nossa natureza, os nossos tipos, a vida brasileira - tudo era visto com as lentes dos binóculos europeus.

Na maioria, as obras, aliás, eram executadas em França.

Não se pretende, por hoje, explicar certas razões imprescindíveis que, até certo ponto, justificavam aquela predileção.

O que, porém, ressalta com extremos de evidencia, é que a pintura brasileira parece haver parado, após o advento do referido grupo de artistas.

Acreditando, porém, que as [...] recentes renovações estéticas – aquela ânsia do espírito moderno - hajam pairado no ar brasileiro. O PAIZ se decide a impulsionar a propaganda de um movimento incerto e tímido que se [...]

Eis por que procuramos estimular os novos, de hoje, no ardente desejo de vê-los em uma organização melhor no rumo das ideias inovadoras.

Cada exposição geral que se inaugura poderá ser estudada com o anelo de encontrar-se nas incertezas da mocidade, os pendores estéticos que se alçam naquele rumo.

Conviria de tal sorte, vir em auxílio desses rapazes que adolescem cheios de sinceridade.

Bem sabemos que os males que viciam a cultura artística, no Brasil, têm origens remotas.

Mas nem por isso devemos deixar de trabalhar, com denodo e entusiasmo, para atingir, na esfera das artes plásticas, à afirmação mental que o Brasil necessita.

Não será obra de uma geração. Mas a vitória está na veemência ininterrupta.

O que a juventude precisa é entregar-se, amplamente, ao seu temperamento. Viver de seu sentir. Auscultar suas inclinações. E, uma vez evidenciada a vocação, trabalhá-la no sentido de ver com sinceridade, por ela mesma, a nossa realidade, e trazê-la à luz.

Há um problema de ensino que se está por fazer: é o da educação artística.

Seria necessário começar da escola primaria, no ensinamento do desenho, como fonte de conhecimento.

Mas, além desse tirocínio discipular, há outras reais manifestações de sensibilidade que vêm, pela força ingênita do destino, à flor da vida e que muitas vezes são o melhor sinal de aptidão estética.

A primeira condição para o artista é o dom providencial de que ele veio, misteriosamente, dotado. Ao depois, a educação completará as falhas, estimulando as energias imanentes.

As escolas não fazem os artistas: estes são que as fazem. Aquelas são necessárias como a ginástica para a robustez e beleza do corpo.

Do Salão Nacional, que amanhã faz o vernissage, julgamos não errar tendo escolhido previamente, alguns exemplares dos jovens brasileiros que ali figuram de maneira mais significativa.


Imagens

M. Constatino - ANTIGO CAIS DO MERCADO

Veiga Guignard - ESTUDO DE CABEÇA

Margarida Lopes de Almeida - CABEÇA DE VELHO

Orlando Teruz - ESTUDO


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. OS “NOVOS” NA ARTE BRASILEIRA. O Paiz, Rio de Janeiro, 10 ago. 1924, p.1.

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