. EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. MODESTO BROCOS. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 12 out. 1894, p.2. - Egba

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. MODESTO BROCOS. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 12 out. 1894, p.2.

De Egba

Um dos artistas que mais trabalham para reproduzir em suas obras a natureza e os tipos e os costumes mais característicos do nosso meio, é certamente Modesto Brocos.

Não é, como geralmente não são os bons artistas, fanático de alguma maneira de arte ou de algum gênero estereotípico de efeitos naturais . É realista enragé. Todos os tipos, todas as cenas, todos os efeitos lhe servem: o que importa é que os tenha diante dos olhos; fornecidos de energias invejáveis para a adaptação a qualquer meio, quer na Espanha, quer na Itália, quer no Brasil, quer em qualquer outra parte, foi, é, e seria artista da mesma força, sendo uma espécie de máquina intelectual que o clima respeita e que o trabalho ou os acidentes exteriores não podem estragar.

Nesta exposição não concorre como podia ter feito, se tivesse tido tempo de acabar umas telas de assunto importante, nas quais está trabalhando a meses, mas não deixa de aparecer como um dos primeiros e dos mais notáveis artistas, que contribuem para o desenvolvimento da arte nacional.

Numa excursão pelo sertão de Minas estudou aquela natureza dos terrenos auríferos e ricos de produtos minerais .

Um pintor amante de efeitos suaves ou deslumbrantes não teria achado assunto digno de inspiração naquelas rochas nuas, áridas, pavorosas, que parecem recusar abrigo aos seres viventes. Mas Brocos tirou daquelas pedras verdadeiras obras de arte, mostrando como em tudo pode existir o belo, desde que esteja no cérebro do artista.

O Crepúsculo, n. 55, os Garimpeiros, n. 57, a Vista da Cidade de Diamantina, n. 65 e a Paisagem, n. 66, são trabalhos de bonito efeito em que tudo está perfeitamente harmonizado, desde o conjunto até os pormenores mais insignificantes.

A pedra sobressai rija, potente, numa evidência impressionante e nos Garimpeiros a paisagem, animada por duas figuras de trabalhadores, assume a feição duma cena zoliana: a tristeza do ambiente está em relação com a das figuras e o drama cotidiano do trabalho se revela em toda a sua crueza, despido daquela auréola sentimental que o idealismo necessariamente lhe dá.

Outros lugares, além do sertão dos diamantes, formam o assunto dos estudos de Brocos: Teresópolis ns. 60, 61 e 62, três lindos estudos, ainda que de pequenas proporções, a Tijuca (Cachoeira n. 59), e o mesmo Rio de Janeiro.

A vista do aqueduto da Carioca, tomada do alto de Santa Tereza, é um trabalho digno de toda a consideração.

É um pedaço da capital, com a baía no fundo, com os morros em primeiro plano, e ao meio o aqueduto que predomina. A cena se apresentava com as maiores dificuldades para um artista: linhas cortadas e interrompidas e uma infinidade de planos que se sobrepõem e se confundem. Era mais fácil vencê-las com poucas manchas, mas o pintor fez de tudo aquilo uma reprodução tão fiel e tão minuciosa, que este quadro deveria considerar-se como um precioso documento histórico da topografia do Rio de Janeiro. O colorido é brilhante como em todos os outros trabalhos.

O retrato do Dr. Ubaldino do Amaral é certamente o que mais distingue o talento de Brocos nesta exposição.

Quem viu o ilustre vice-presidente do senado sentado nas cadeiras do meio da sala, no dia do Vernissage, não pode deixar de avaliar a felicidade do artista representar na tela um tipo tão interessante e tão simpático .

Não é caso de examinar aqui a palheta do pintor, nem de dar relevo a certas tintas mais ou menos fortes, que podem agradar ou não aos amadores; o que nesse retrato está esplendidamente fixado é o caráter do tipo que representa. A sillonete [sic] não podia ser mais feliz; falta a pose, essa peste de todos os retratos, essa falsificação obrigada de tantos bons trabalhos, esse assassínio de muitos caracteres sobre a tela. O movimento dos ombros, o da cabeça em perfeita correspondência com os traços enérgicos e másculos da fisionomia, foram felizmente apanhados; as grandes qualidades morais e ideias do caráter tiveram na tela a síntese mais fiel. Aquele é um retrato como poucas vezes se dá e como poucos artistas sabem e podem fazer conscientemente ou não.

É o caso para felicitarmo-nos com o Brocos.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Bárbara Kushidonti

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. MODESTO BROCOS. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 12 out. 1894, p.2.

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