. EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 1 nov. 1894, p.1. - Egba

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 1 nov. 1894, p.1.

De Egba

As notícias dadas ontem pelos jornais sobre o julgamento dos trabalhos expostos foram muito deficientes, pois constataram apenas uma lista de prêmios conferidos, e a muita gente afigurou-se estranho não ver entre os premiados alguns dos mais notáveis artistas, bem como causou impressão o fato de não ter sido conferida a medalha de honra.

A medalha de honra é conferida por eleição, em que só podem tomar parte os artistas premiados na Escola em exposições anteriores. Só compareceram à eleição quatro artistas nessas condições: Henrique Bernardelli, Belmiro de Almeida, João Baptista da Costa e Castagnetto. Deixou de comparecer, por estar em S. Paulo, Almeida Junior, e desculpou-se por carta Aurelio de Figueiredo.

Para ser conferida a medalha de honra é preciso que o eleito reúna dois terços dos votos apurados; ora, em três escrutínios consecutivos, o resultado foi sempre este: Henrique Bernardelli, dois votos, Belmiro de Almeida, um voto, e um voto em branco. Não se pode, portanto, conferir a medalha de honra.

Os prêmios são dados por um júri, presidido pelo diretor da Escola e composto por dois professores designados por ele, e dois artistas estranhos à Escola, e eleitos pelos expositores, depois de conhecida a nomeação do júri.

Ficou, pois, o júri assim constituído: presidente Rodolpho Bernardelli, professores Rodolpho Amoedo e Modesto Brocos e eleitos pelos expositores os Srs. Delphim de Carvalho e Souza Lobo.

Os professores da Escola e os membros do júri não podem ser premiados. Excluídos esses dos prêmios, o júri entendeu que nos outros trabalhos expostos, embora haja muitos de valor, nenhum merecia primeira medalha de ouro, que o júri reserva, por ser o seu mais alto prêmio, para obras que reúnam todas as qualidades, notadamente aquelas em que haja composição digna de apreço.

Lembraremos agora aos amadores quais foram os quadros premiados.

Segunda medalha de ouro. Souza Pinto. É um pintor português, irmão do conhecido desenhista Valle [Antonio Alves do Valle de Souza Pinto], tão apreciado nesta cidade, principalmente pelos seus retratos a fusain. O quadro que lhe valeu um prêmio é o que tem o n. 167 (servir-nos-emos sempre da numeração do último catálogo posto à venda) e intitula-se Rendez-vous.

É uma paisagem de campo, em que há no primeiro plano uma rapariga à espera do namorado, que aparece ao fundo. Figurou no Salon de Paris este ano.

Belmiro de Almeida também teve uma segunda medalha de ouro, pelo quadro Nuvens, n. 37, que pertence ao nosso colega Ferreira de Araújo. É um quadro ao ar livre, de uma delicadeza rara, muito apreciado pelos artistas e amadores. Representa uma cena de arrufos.

Visconti, pensionista da escola na Europa, e um dos nossos artistas que mais prometem, teve igual prêmio pelo quadro n. 193, intitulado No verão. É uma menina nua, abanando-se com uma ventarola.

Outra segunda medalha de ouro coube a Oscar Pereira da Silva, também pensionista na Europa, e que tem exposto quadros no Salon de Paris. Valeu-lhe o prêmio o quadro n. 150, a Escrava, que foi caricaturado nesta folha. É um bonito estudo do nu.

Terceiras medalhas de ouro. Felix Bernardelli, o mais moço dessa família abençoada de artistas de talento, obteve esse prêmio com o seu quadro n. 47, Quem espera desespera. É uma moça sentada à janela, à espreita do namorado. Sente-se, olhando para o quadro o que o artista sentiu. É a arte comunicativa.

Lopes Rodrigues, outro pensionista do Estado, em Paris, em cujo Salon tem exposto diversos trabalhos. Teve terceira medalha de outro pelo quadro n. 127, Interior de atelier.

D. Diana Cid é a representante única do simbolismo da atual exposição. É dela a Japonesa [?] pela qual se apaixonou o nosso colega Olavo Bilac. Teve terceira medalha de outro pelo quadro n. 81, Fantasia em rosa, quadro que muita gente acha extravagante, mas que é positivamente muito expressivo. É uma figura de mulher, com umas papoulas grandes nos cabelos, e ao lado de uma moita dessas flores. Há na figura detalhes apenas esboçados, mas o todo é graciosíssimo, e um verdadeiro triunfo no gênero simbólico.

Santos Olada [sic] ganhou a sua terceira medalha com o quadro n. 155, O Pescador, uma magnífica paisagem brasileira, que está logo à direita de quem entra na sala e em que há uma figura de amador de pesca, em pé, posto ali com uma felicidade pasmosa.

Pedro Alexandrino Borges, outra terceira medalha, é um paulista; discípulo de Almeida Junior. Teve esse prêmio pelo quadro n. 1, Cozinha em casa da roça. É um quadro em que há um tacho de doce, e um jacá cheio de laranjas, que parecem de verdade.

Benno Treidler terceira medalha de outro, por uma paisagem n. 172, Boa Vista (em Niterói). É alemão.

Menções. Uma ao artista Valle, a que acima nos referimos, quadro n. 187, o Vapor Sepetiba. Outra a D. Maria Agnelle Forneiro, discípula de Fachinetti, e irmã do nosso colega Domicio da Gama, pelo seu quadro n. 142, Alto da chácara da Boa Vista, em Niterói. Outra a Manuel Pereira Madruga, pelo quadro n. 139, Paineira em flor. Os petropolitanos são bem aptos para apreciar a beleza deste quadro do jovem pintor, que partiu ultimamente para a Europa.

O prêmio de viagem foi conferido ao artista João Baptista da Costa, por unanimidade de votos. Consiste em uma pensão por dois anos, na Europa.

-

Não terminaremos estas informações sem fazer referência ao que disse há dois dias o crítico da arte da Noticia, a respeito do Tombola. É uma jeremiada sem razão de ser. Pensa o crítico que vão para o tombola os quadros que não acharam compradores, o rebotalho; que o tombola é uma espécie de ficha de consolação, pior ainda, uma esmola, ou antes uma coisa à moda de restos de comida de restaurante graúdo, que passam aos restaurantes em que, por dois vinténs, se come au hasard de la fourchette.

Pois não é nada disso. Os quadros para o tombola são escolhidos por professores da Escola, e pagos pelo preço que o autor pede por eles. A escolha é tão honrosa para o artista, ou mais ainda, do que a feita pelos amadores.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Bárbara Kushidonti e Karina Perrú Santos Ferreira Simões

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 1 nov. 1894, p.1.

Ferramentas pessoais
sites relacionados