. EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. FELIX BERNARDELLI. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 22 out. 1894, p.1. - Egba

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. FELIX BERNARDELLI. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 22 out. 1894, p.1.

De Egba

Os quatro quadros que este distinto moço enviou à primeira exposição da escola captaram-lhe imediatamente as simpatias dos amadores e da opinião pública, que o proclamou digno irmão dos dois grandes artistas, que honram aqui e na Europa, e em toda parte onde suas obras se exibem, o nome brasileiro.

Os técnicos poderão discutir sobre as qualidades mais ou menos brilhantes da palheta desse artista, poderão observar-lhe a maior ou menor correção do desenho, e encontrarão nele todos argumentos para discutí-lo, mas o crítico não pode deixar de ficar impressionado pela felicidade que ele revela na composição.

Antes de tudo possui ideias: por mais modestas que sejam as suas intenções, não se revela nestes quadrinhos de forma alguma a adaptação de um título.

A Velha Hebréa, que podia parecer um simples estudo de cabeça, tem uma intuição tão feliz de caráter que deixa claramente ver aquele hábito de observação que distingue o artista.

O Conselho de bastidores (n. 46) é um quadrinho de gênero, que os frequentadores do Lyrico, os privilegiados admitidos nos entre atos aos mistérios das cenas, não deixarão de reconhecer como verdadeiro. Quantas daquelas conselheiras e, ainda mais, quantas daquelas aconselhadas não passaram diante dos nossos olhos, quantas daquelas comédias sujas dos bastidores não destruíram em nós a rósea fantasmagoria do proscênio alimentada pela luz elétrica e pelas ilusões óticas policromas?

Os dois quadrinhos Quem espera desespera e Passará ele? são duas expressões do mesmo conceito; são dois quadros que, conforme o costume em moda na escola francesa de outros tempos, formam pendant, e servem para mostrar como a mesma condição psicológica se manifesta sob diversas formas de condição social.

Num quadro é a patroa, no outro é a criada; mas as duas esperam alguém. Uma se ocupa com a leitura, outra com a vassoura; mas a ocupação única de ambas é a poesia eterna da mocidade... o amor... Podem variar quanto quiserem; o mundo é sempre agitado pelos mesmos elementos: no fundo nada muda e nada acaba; na superfície tudo se transforma.

O artista que chega a fazer distinguir claramente o que há no fundo das coisas e o que há na superfície, é o que mais corresponde aos fins da arte, o que mais promete fixar nas suas produções as forças e os aspectos da vida.

Felix Bernardelli pode estar no princípio da sua carreira; pode estar ainda na condição de quem não conhece todos os recursos e todas as ficelles da sua arte; mas mostra que é um artista de ideias e que, cedo ou tarde, nos dará obras de arte que não terão a glória e o interesse de um só dia.

É o caso para ser profeta com pouco trabalho e pouca despesa.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Bárbara Kushidonti

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. FELIX BERNARDELLI. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 22 out. 1894, p.1.

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