. EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. A Noticia, Rio de Janeiro, 1-2 out. 1894, p. 1. - Egba

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. A Noticia, Rio de Janeiro, 1-2 out. 1894, p. 1.

De Egba

A abertura da exposição de belas artes, a primeira das que a reforma da escola de belas artes estatuiu, é um fato importante no mundo artístico brasileiro.

Para uma primeira exposição, feita sem ruido, mas como um trabalho preciso e urgente, todo o nosso aplauso é pouco para o que merecem os seus organizadores a cuja frente se encontra o poderoso artista Rodolpho Bernardelli, diretor da escola.

Uma exposição de arte, em um país onde a arte apenas surge, ressente-se forçosamente da exiguidade de autores e, para não manifestar essa exiguidade, acontece que um número limitado de artistas - os mestres - acumulam telas e se tornam, por assim dizer, os únicos expositores. Este é o principal defeito da exposição hoje inaugurada.

E não sabemos porque artistas de nome e real talento, como Decio Villares, e artistas que começam - os discípulos deste pintor - não concorreram. Seria, sem dúvida, o reconhecimento da arte oficial contra a qual protestam, mas seria, antes de tudo, uma segura e boa obra de patriotismo e uma cooperação valiosa levada ao primeiro Salon . Nunca esqueceremos uma conversa que tivemos em Paris com Planells e Casas, duas organizações pujantes de pintor, em que discutimos a beleza (duvidosa então para nós) dos panneaux de Puvis de Chavannes e emitimos a opinião de que o Salon dissidente não tinha uma forte razão de ser.

- Talvez, disse Planells.

- Com certeza, retorquiu Casas. Com a morte de Meissonier, o Champ de Mars devia ter morrido, porque receber-nos-iam nos Campos Elísios, de braços abertos.

- Eu não faria envoi algum, tornou Planells.

E Casas: - Nem eu. Afinal nenhum de nós concorreria. Ficaríamos na mesma.

Como eu estranhasse essa lógica, os dois catalães, com esse exagero espanhol tão simpático, sem perda de um momento, me levaram ao Pantheon , onde fizeram saber ver Puvis de Chavannes. E convenci-me do próprio erro, porque até então não o vira .

Este fato pode dar-se hoje e sempre. Cada um vê com a sua organização, com os seus sentimentos e as suas paixões, com a sua visualidade física e a sua visão moral.

E nem tintas nem processos de fatura podem ser aferidores infalíveis do valor de um artista.

Em uma exposição como a que ontem vimos, não poderiam ser recusados, por […] escrúpulo de processos, por singelo e inconsistente espírito acadêmico, trabalhos de pintores de talento. Que no ânimo do júri tal prejuízo não prevaleceu, provam-no algumas telas, mas por sinal, em que se busca tirar do simbolismo pictural o efeito espetaculoso que, apesar do ruido de um momento, não pondo […] mesmo em França.

Todos deviam ter concorrido. É a nossa opinião e nela não vai intuito algum de menos respeitar escrúpulos de doutrina ou melindres pessoais, que por ventura tenham preponderado nos abstencionistas.

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A impressão do conjunto da exposição é a própria essência dos fatos: é um início, um despertar do espírito artístico.

Aqui e ali, em pintores conhecidos, uma ou outra tela com qualidades reais de cor e de vida, tocada de um sentimento requintado de arte, requintado talvez demais, quase arrebicado.

Em outros a preocupação do chic e o desenho do chic. Paisagens do Brasil em que a luz é de outras terras, ao lado de algumas doces paisagens, bem trabalhadas e sentidas, por isso que marcam o carater local, daqui, da natureza vista.

Na maioria, telas feitas na Europa. Aqui, uma manifesta preocupação do moderno, mas desenho mais correto.

Em muitos quadros revelam-se qualidades poderosas: observação, colorido, percepção de valores, facilidade de fatura e inteligência de motivos emocionantes.

Há obras boas, mas há muita hesitação. Há obras más de artistas que virão a ser bons.

Há inexperiência com talento, assim como em alguns quadros a prática profissional apenas disfarça qualidades negativas.


Digitalização de Fundação Biblioteca Nacional Acessível em: http://memoria.bn.br/

Transcrição de Karina Perrú Santos Ferreira Simões

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. A Noticia, Rio de Janeiro, 1-2 out. 1894, p. 1.

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