. EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. ALMEIDA JUNIOR. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 24 out. 1894, p.2. - Egba

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. ALMEIDA JUNIOR. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 24 out. 1894, p.2.

De Egba

É um dos mais simpáticos artistas brasileiros; trabalhador, ativo, festejado na sociedade paulistana, onde vive e faz propaganda maravilhosa a favor das artes, Almeida Junior tem sabido captar as simpatias dos outros colegas, coisa rara em meios onde, por princípio, domina em cada artista a convicção de que ele é o eixo do mundo e tudo se conforma às suas necessidades de estática e de resistência.

Era natural que na primeira exposição da Escola de Belas Artes aparecesse esse Benjamin do público paulistano e que todos os artistas lhe fizessem o mais entusiástico acolhimento.

As sete telas, quase todas de grande tamanho, que ele apresenta, dão prova da sua grande atividade ao trabalho e do bom exemplo que dá aos rapazes que se metem no caminho espinhoso da arte.

As mais interessantes, porém, parecem-nos as menores: Pescaria e Cabeça de estudo.

A primeira é uma mancha esplêndida de colorido, perfeitamente entonada e simpática, muito simpática, apesar de ser o desenho das duas figuras um pouco descuidado.

A Cabeça de estudo é um bonito trabalho: expressão viva e fatura boa, frescura de colorido e firmeza de traços; é o que mais distingue o talento do egrégio artista.

No Salto Votorantin a linha da paisagem é muito bem escolhida e muito bem emoldurada; a água é que não é água, e é uma grande falta.

A Leitora poderia ser um bom quadro; mas além de ser, como composição, uma adaptação póstuma de título a um estudo feito sem fim determinado e talvez por exercício, o colorido não é simpático: predomina um certo roxo que torna a cena monótona.

A Amolação interrompida e o Picador de fumo são dois quadros de que muito falou a crítica há tempos: são trabalhos de uma certa importância, mas não se pode afirmar que representem um progresso sobre outros que o ilustre artista produziu anteriormente e que figuram entre as melhores pinturas da pinacoteca da Escola de Belas Artes.

Há qualidades fortes de composição nestas duas figuras, mas há também um defeito de origem: foram feitas no atelier e representam efeitos que só na viva luz do sol se podem obter. Assim, prejudica-as muito certa igualdade de tintas que não se nota nos outros trabalhos.

A Pintura é evidentemente uma alegoria decorativa e sob esse aspecto é necessário considerá-la. Como obra pura da arte, daria campo a muitas discussões, já sobre a equação luminosa do conjunto, dando à procura do belo, se afasta demasiadamente da realidade; como decoração agrada e é suficiente para o fim que se propôs o artista. No conjunto Almeida Junior fica sempre aquela simpática e genial figura de artista, a quem todos amam e respeitam e de quem a pátria pode esperar obras de grande importância e vitalidade.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Bárbara Kushidonti

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. ALMEIDA JUNIOR. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 24 out. 1894, p.2.

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