. EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS-ARTES. PEDRO WEINGARTNER. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 9 out. 1894, p.2. - Egba

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS-ARTES. PEDRO WEINGARTNER. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 9 out. 1894, p.2.

De Egba

Brasileiro do sul, mas filho de alemão, tem no seu temperamento as qualidades mais salientes da raça, a que deve a origem, e do meio em que respirou pela primeira vez as auras da vida.

Talento sério e disciplinado, revela em todo o seu trabalho cuidado meticuloso nos pormenores, correção do desenho, imitação quase fotográfica da realidade, relação de tons sempre justa e bem calculada: e nisso é perfeitamente alemão. O seu colorido é vivo [sic] é fresco, é simpático, e não tende de modo algum a fossilizar-se a um a um formulário químico, onde a arte acaba e o artifício triunfa. E aqui está o filho de um país meridional.

Ainda assim não tem grandes vôos de fantasia e fica satisfeito com a representação pacífica e suave da natureza tranquila e da vida burguesa apática, sossegada, vegetativa.

Há mais de um ano, este professor da Escola de Belas Artes desapareceu; foi viajar pelo sul e pelas matas do Rio Grande e Santa Catarina, onde ficou quase bloqueado pela revolta em Nova Veneza, sertões daquele futuroso Estado.

Voltou há três meses, trazendo consigo uma bonita coleção de quadros e de quadrinhos, em que a paisagem deliciosa dos países do sul se apresenta com tudo o que possui de característico e de brilhante, na topografia e na vegetação abundante.

E a maior parte desses trabalhos está hoje na exposição, atraindo extraordinariamente os amadores e os compradores.

A Vista de Nova Veneza (n. 193) era já conhecida antes desta exibição, e foi já assunto de um artigo da Gazeta. Falemos nos outros quadros. De maior importância parecem os de ns. 201 e 202, não só pelo assunto, que se prende a episódios da revolta última, como pela maneira porque o caráter desses homens do sul, que são ao mesmo tempo agricultores, políticos e guerreiros, está representado.

As figuras não são como parecem à primeira vista, um complemento ou uma ornamentação da paisagem; são uma feliz reprodução dos costumes mais característicos das raças do sul tão diferentes das do norte.

Por um sábio uso dos pormenores e pela distribuição da luz, que é sempre exata, pela simpática colocação e agrupamento das figuras, a pintura de Weingartner agrada a todo gênero de pessoas e satisfaz tanto ao crítico quanto ao artista e ao diletante.

As mesmas qualidades têm os outros quadros, As galinhas, os Urubus, A Gaiola, O Peralta, Despedida, o Vendedor de queijos, As lavadeiras e as Corridas do Rio Grande.

O caráter local é sempre fielmente mantido e está sempre em harmonia com todos os elementos do quadro.

Um quadro que se afasta dos outros, pele [sic] variedade de assunto e do costume, é o Projeto de viagem; mas não parece que naquela representação de um meio já ( [sic] desaparecido o pintor seja tão feliz como no da vida moderna.

Vê-se bem que Weingartner colhe no contato e na observação da vida real as melhores notas da sua arte. As evocações do passado não lhe sorriem; outra fibra é necessária para esse gênero, que é às vezes o mais elevado, mas que é quase sempre o mais perigoso.

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Continuam as compras.

Anteontem e ontem foram comprados os quadros de Brocos: n. 62, adquirido pelo senador Ramiro Barcellos, n. 60 e n. 59, adquiridos pelo barão Sampaio Vianna.

O quadro n. 71 de Castagneto foi também vendido e o Sr. Dr. Raul Pompeia comprou o quadro n. 71 de Delpino.

Adiante e ad meliora.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Bárbara Kushidonti

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS-ARTES. PEDRO WEINGARTNER. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 9 out. 1894, p.2.

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