. EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS-ARTES. LOPES RODRIGUES. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 2 nov. 1894, p.1. - Egba

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS-ARTES. LOPES RODRIGUES. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 2 nov. 1894, p.1.

De Egba

É um baiano ilustre, e fez, como muitos entre os melhores, a sua educação artística na Europa.

Os dez quadros com que se apresenta nesta exposição não são certamente a melhor parte do que ele pode e sabe fazer, e são de uma desigualdade que impressiona.

Nas duas paisagens, 121 e125, mostra-se e muito fraco; pode-se dizer até que não tem jeito para o estudo e reprodução das cenas majestosas da natureza.

Os estudos mostram certo cuidado e certa intenção na execução do desenho; mas infelizmente não dão o que devia dar um estudo sincero e apaixonado da realidade.

A cabeça de velho, 122, e a da velha 123, e o mesmo Velho bretão 126 que é melhor e tem caráter, não se recomendam pelas qualidades plásticas: os efeitos de colorido são obtidos com uma espécie de receita que mais parece convencionalismo e o convencionalismo é a ruína de qualquer temperamento artístico.

O interior de atelier que é provavelmente um estudo do lugar onde o artista trabalha, e que deixa perceber um assunto, que o catálogo prudentemente ocultou, ressente-se do mesmo defeito de convencionalismo ou, em todo caso, não agrada, não dá a ideia de um ambiente; o trabalho empregado para reproduzir os pormenores prejudica o conjunto, pois é sabido pelas últimas experiências científicas que os processos da visão binocular, que é a visão humana, não toleram, na observação de qualquer plano ou ambiente, senão a observação direta de um determinado espaço: o resto se vê só como por um reflexo, e é necessário representá-lo como uma simples mancha, tal qual se oferece à vista.

Pouco interesse oferece o Retrato, 128, como obra de arte, e o quadro Orquestra volante poderia ter-se prestado para um bom assunto se não tivesse um colorido pouco simpático e não lembrasse tantas gravuras e oleografias de que estão repletas a Itália e a França.

O Sans souci, 123, é, entre os dez quadros, o único que faz honra ao seu autor e que lhe conserva o renome de artista respeitável e talentoso.

O assunto é ligeiro e é quase dos que nascem depois do quadro; mas aquele menino sentado numa cadeira virada e com as mãozinhas nos bolsos, inconsciente da vida ou feliz de não saber quantas dores e misérias encerram, aquele menino tem caráter, e esta qualidade de humorismo fino, no sentido mais filosófico da palavra, da à tela um valor que algumas imperfeições de desenhos não chegam para tirar-lhe.

Quem observa atentamente não pode deixar de notar uma diferença sensível entre as qualidades de plástica e de colorido deste quadro e os dos outros.

Intonação exata, palheta simpática, perspectiva aérea muito boa; o quadro tem ar e tem luz, e é uma obra de arte.

É para esperar que essa tela represente o presente idealismo artístico de Lopes Rodrigues, e que nesse novo caminho possa colher louros para si e para a pátria.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Bárbara Kushidonti

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS-ARTES. LOPES RODRIGUES. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 2 nov. 1894, p.1.

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