. EXPOSIÇÃO DE BELAS-ARTES. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 1 set. 1895, p.2. - Egba

EXPOSIÇÃO DE BELAS-ARTES. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 1 set. 1895, p.2.

De Egba

Fomos ontem convidados a visitar a 2ª exposição de Belas-Artes, que será hoje inaugurada oficialmente.

Não queremos nem podemos entrar em miúda análise de todos os quadros expostos, até porque para isso nos faltaria competência. Desejamos apenas deixar consignada aqui a nossa impressão pessoal, e essa impressão foi lisonjeira.

Somos avessos aos elogios exagerados como às censuras de parti-pris. No segundo caso, falta-se ao primeiro dos deveres do jornalista (é propositalmente que não escrevemos a palavra crítico). No primeiro, corre-se muitas vezes o risco de impedir os progressos do artista que […] nos louvores da imprensa e dos amigos, julga-se um mestre impecável e não mais procura aperfeiçoar-se.

Analisando, ainda sumariamente, a atual exposição de Belas Artes, convém não esquecer que a arte em nosso país ainda se acha limitada em um círculo muito restrito, como restritos são os que a cultivam.

Cremos que se pode dizer que, só nestes últimos anos, o amor pelo quadro se tem desenvolvido com mais expansão, e, se hoje ainda não possuímos pintores de grande pulso, que tenham feito escola, temos contudo alguns que conseguiram à força de trabalho tornar-se salientes e chegar a um grau de aperfeiçoamento que já constitui uma glória para nós e que autoriza a crítica a ser um pouco mais exigente.

Neste número, está, por exemplo, o Sr. Rodolpho Amoedo, cujos quadros Passeio matinal e Raio de sol não nos agradaram pelo tom cru das cores que fere a vista e por nos parecer algo convencional. Em compensação, deleitou-se o quadro Más Notícias, que está desenhado e pintado por mão de mestre. Ali os menores detalhes revelam um artista senhor de sua arte.

Os quadros do Sr. Almeida Junior devem ser incluídos no número dos mais primorosos, já pela fidelidade, poderíamos dizer fotográfica, da reprodução dos tipos e dos lugares, já pelo tom exato do colorido, já pela correção do desenho. Examine-se, por exemplo, a Cozinha na roça, ou o Caipira pintando [sic], e ver-se-á transparecer nesses quadros a consciência do artista e a felicidade do pintor. O Sr. Almeida Junior fez, aliás, uma especialidade dos tipos de caipira e de cenas da roça.

O Sr. Angelo Agostini expôs apenas dois quadros. O Através das matas agradou-nos pela ideia e pela execução.

O Sr. Henrique Bernardelli tem nada menos de 29 quadros expostos. O que tem por título Epílogo foi o que mais nos impressionou. Toda a paisagem tem o tom justo, sem nenhuma nota discordante.

O quadro de maiores proporções é o do Sr. Belmiro de Almeida, Aurora de 15 de novembro. Embora o gênero alegoria não seja dos que mais nos agradam, é força confessar que, como composição e como execução, o artista foi muito feliz. Pessoalmente, damos a preferência a duas deliciosas paisagens num tom suave que deleita a vista.

Do Sr. Luiz [sic] Bernardelli [Felix Bernardelli] notamos sobretudo o quadro Triste sorte. A cabeça é bela e está pintada com vigor.

Da Sra. Diana Cid, vimos dois retratos de primeira ordem e que revelam uma artista de temperamento. Há na pintora certa tendência para o impressionismo. Felizmente, ela sabe deter-se a tempo e não caiu nos exageros de uma escola, que já vai perdendo terreno, com grande vantagem para a arte.

Aos amadores de natureza morta, recomendamos as Parasitas do Sr. Baptista da Costa e as Cebolas do Sr. Alexandrino Borges.

A Meditação da Sra. A. Minitzky é digna de chamar a atenção dos amadores. Há ali uma simplicidade de execução e uma tonalidade de cores sombrias que nos agradaram sobremodo.

Como pasteis, há dois quadros muito bem feitos, e esses têm por autor o Sr. Henrique Bernardelli. Correspondem eles aos ns. 71 e 75. Chegados ao termo desta rápida e incompleta resenha, seja-nos lícito destacar dois quadros que se nos afiguram os mais bem acabados de toda a exposição.

O primeiro é a Redenção de Cham, que, já pela originalidade da ideia, já pela composição dos tipos, já pelo colorido, honra o talento do Sr. Brocos e mereceria uma análise mais detida do que as poucas linhas que o tempo e o espaço nos forçam a dedicar-lhe. A figura e a atitude da preta, sobretudo, estão de rara felicidade.

O segundo quadro é o do Sr. H. Davier [sic] e tem por título La Pêche aux guideaux. O tom geral do quadro lembra-nos um pouco o processo de Ruiz [sic] de Chavannes. Mas como desenho e como execução, o Sr. Davier não procede do grande mestre francês. É possível que seja justamente devido ao colorido sombrio que o quadro não agrade a muita gente. Para nós, vemos aí um grande merecimento, que nos faz classificar o quadro do Sr. Davier ao lado do do Sr. Brocos, como valor artístico.

A seção de escultura resume-se, por assim dizer, na Moema de Rodolpho Bernardelli, que mais uma vez nos deu prova de grande audácia de imaginação. Aquele corpo, cujas formas transparecem através das dobras do lençol que o cobre, está desenhado com arte, com consciência e com sentimento. É um digno pendant à Faceira.

Em suma, a exposição, como acabamos de ver, é das mais interessantes que aqui se tem realizado, e oxalá seja ela concorrida e desenvolva entre nós o gosto pelas belas artes, que tanto contribuem para a civilização intelectual de um povo, [sic]


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

EXPOSIÇÃO DE BELAS-ARTES. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 1 set. 1895, p.2.

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