. EUGÈNE NESLE. IMPRESSÕES DO "SALÃO". A Noticia, Rio de Janeiro, 6-7 out. 1904, p. 1. - Egba

EUGÈNE NESLE. IMPRESSÕES DO "SALÃO". A Noticia, Rio de Janeiro, 6-7 out. 1904, p. 1.

De Egba

O primeiro artista retratista especialista que aportou ao Brasil foi o Sr. Augusto Petit. Pelo menos o Dr. Vieira Fazenda, incansável investigador das coisas da nossa cidade, ainda não apontou outro que o tenha precedido.

A sua chegada à formosa baía de Guanabara, onde ainda navegava as ultra estéticas barcas de Niterói cujas chaminés um dia haviam de servir para modelo de cartolas, deu-se quando o século XIX tinha apenas dois anos, exatamente quando em França nascia o grande Victor Hugo e no Brasil o venerando Sr. visconde de Barbacena engatinhava. Os primeiro [sic] tempos do Sr. Petit foram seriamente difíceis.

A colônia ainda ferrenhamente governada por moldes que já naquele tempo eram considerados antiquados pelos foliculários exaltados e os portugueses, homens de negócio e bom senso antes de tudo, não tinham vagar para pensar em artes. Felizmente já havia irmandades e definidores. Foi isso que salvou o Sr. Petit e decidiu da sua glória.

Aconteceu que ia passar o aniversário do definidor de uma das muitas confrarias então já existentes aqui e os seus companheiros não sabiam que fazer para celebrar-lhe com gaudio estrepitoso o dia memorando e apanhar-lhe algum cobre para a compra de uns sinos, quando alguém lembrou que havia na cidade um pintor francês muito hábil em retratar pessoas notáveis. Estava nos casos para pintaro [sic] do definidor e nenhuma ideia seria mais tocante e eficaz do que essa de oferecer o retrato a um homem de dinheiro, de quem se queria dinheiro. A ideia era dessas que se impõem independentemente do exame e foi logo aceita.

No dia solene foi, pois, inaugurado com grande pompa, no consistório da confraria, o retrato do benemérito definidor para o qual, não por pouca confiança no êxito salutar do retrato, mas para mais envaidecer o definidor, se mandou vir também uma comenda. Foi esse o primeiro retrato a óleo pintado e inaugurado na América do Sul. Só muito depois foi que chegaram a fotografia e o Sr. Insley Pacheco. O tal definidor soube ser grato aos seus amigos.

A igreja teve os sinos novos, não tão grandes como se queria nem tão bordados; mas enfim eram sinos, como dizia o homem. Honra, pois, a esse protetor da fé e da preciosa indústria dos retratos a óleo, cujo nome infelizmente se perdeu, não pela sua insignificância, mas por imperdoável descuido dos coevos e do Sr. Petit. Datam daí o sucesso e a fortuna do nosso grande retratista a óleo.

Logo entre os portugueses e as tribos domesticadas correu fama do seu talento e da sua original maneira de pintar.

No começo ainda houve uma certa desconfiança. O artista era francês e todos se lembravam com rancor do audacioso Duguay-Trouin. Mas alguém ponderou que se o Sr. Petit fosse inimigo dos portugueses e jacobino não teria pintado o retrato do definidor ou, pelo menos, não o teria feito tão favorecido. Além disso o tal definidor era a pessoa que mandava entre os seus contemporâneos e entendia que também, não só ele, os outros definidores deviam receber o retrato e dar dinheiro para sinos. E a sua grande influência serviu poderosamente para salvar o Sr. Petit e lançá-lo definitivamente no caminho da glória, que naquele tempo não tinha a bela balaustrada que tem nem o esplêndido jardim que ainda se vai fazer. Daí em diante não empalideceu mais a clara estrela do Sr. Petit tão venturosamente acesa por aquele rico comendador da colônia. Nem sequer um leve e rápido pestanejar interrompeu o seu brilho. Ao contrário, todas as circunstâncias, sem descontar nenhuma, como boas fadas generosas, vieram em seu auxílio e até a política, que é companheira das Parcas, ajudou o artista. Vindo para o Rio de Janeiro el-rey D. João VI com a sua faustosa corte, soube da existência do Sr. Petit, viu o retrato do definidor e desde logo concebeu o projeto de mandar pintar todos os seus fidalgos pelo famoso e ativo pintor. Foi este o primeiro trabalho de Hércules do Sr. Petit, trabalho de que se saiu com galhardia do próprio Hércules, pois, em menos de um ano, estavam retratados todos os cavaleiros e damas do monarca português e o próprio monarca teve uma edição de retratos com tiragem extraordinária. O rei foi adiante no empenho de ajudar o artista e aproveitar o seu talento na glorificação pela tinta e pelo óleo dos grandes vultos da sua pátria. O Sr. Petit passou a tela toda a fidalguia portuguesa da Metrópole. Isso duramente incomodou o seu compatriota Junot, general de Napoleão, mas ainda mais firmou os créditos do Sr. Petit na estima dos portugueses. Depois, como se sabe, veio a independência com D. Pedro e os Andradas e com ela o hino e a bandeira, nova encomenda de retratos ao Sr. Petit. A instabilidade do regime novo, as suas constantes oscilações determinavam contínuas mudanças no pessoal político; mas isso, que nos dizer dos foliculários do tempo, arrastava o país à ruína e à anarquia e eram verdadeiros atentados à liberdade, para o Sr. Petir redundava em novas encomendas. Quem sabia era imediatamente retratado e à medida que se firmava o regime firmava-se também a reputação do Sr. Petit. Embora indiferente à política, parece que o Sr. Petit contribuiu para os sucessos de 7 de abril. Se assim foi provou excelentemente os seus talentos políticos, pois triunfou com os conspiradores e pôde inaugurar pelo retrato de D. Pedro II, feito na véspera de abdicação, a pintura a óleo do segundo reinado.

Neste período as suas encomendas avultaram.

As várias guerras e revoluções, que então houve, deram lugar ao aparecimento de grandes individualidades que o seu pincel historiográfico não esqueceu. Houve até, nos fins da monarquia, um velho conselheiro que tão entusiasmado ficou com o seu retrato, pintado pelo eminente artista, que não se conteve, encomendou-lhe mais cinco retratos iguaizinhos e mandou-os colocar por todas as dependências da sua casa, desde a sala de visitas até a saleta de engomar.

Monarcas e cavaleiros desapareceram em 1889 para proporcionarem novas encomendas ao Sr. Petit e ainda hão de vir a revisão da Constituição, o aumento da esquadra, a uniformização das justiças estaduais, a mudança de bandeira, o código civil e outras coisas mais.

Esta é a história verdadeira do Sr. Petit e dos retratos a óleo no Brasil.

Atualmente o Sr. Petit, não tendo mais gente a pintar, pinta frutas, enquanto espera que a nova geração cresça e faça nome.

No “salão” deste ano S. S. expõe dois quadros frutíferos Cajus e Pêssegos e o último retrato.

Como se vê, o Sr. Petit vai com o tempo. Quando se cultivava a vistosa flor do conselheirismo o artista pintava conselheiros; agora todas as vistas e atividades se voltam para a pomicultura e o artista, acompanhando a corrente geral, pinta cajus. - Eugène Nesle.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

EUGÈNE NESLE. IMPRESSÕES DO "SALÃO". A Noticia, Rio de Janeiro, 6-7 out. 1904, p. 1.

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