. ESCOLA Nacional de Belas Artes. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 13 dez. 1922, p.3. - Egba

ESCOLA Nacional de Belas Artes. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 13 dez. 1922, p.3.

De Egba

AS EXPOSIÇÕES DE ARTE CONTEMPORÂNEA E DE ARTE RETROSPECTIVA

As exposições de arte que ao público ora oferece a Escola Nacional de Belas Artes, entregue ao critério artístico e à competência administrativa do professor João Baptista da Costa, nos levam a rever, embora sucintamente, a curta história do atual edifício, quase terminados os detalhes últimos de remodelação e adaptação porque ele passou.

Com efeito, construído especialmente para nele ser instalada a Escola Nacional de Belas Artes com todas as suas disciplinas teóricas e práticas, acolhendo ainda as exposições anuais de pintura, escultura, arquitetura e gravura e artes aplicadas, o novo palácio, campo, severo e suntuoso, não preenchia os fins para que fora destinado; não podia caber, ali dentro, aquele Instituto superior de ensino.

Assim, resumidamente, podemos dizer que as quatro seções se deste modo podemos chamar, que até então se achavam confundidas em uma só (tais como a Escola propriamente dita com seus serviços inerentes, o Museu - exposição permanente das Obras de arte, as Salas para as Exposições gerais temporárias ou sejam os Salões anuais e o Salão de Honra onde se realizam as solenidades artísticas escolares), tudo hoje ali vive sua vida independente das demais. Com efeito, não havendo salas disponíveis para as Exposições anuais, eram elas efetuadas dentro do próprio Museu, em paredes provisórias, levantadas na ocasião, com sarrafos cobertos de aniagem, escondendo assim dos visitantes os quadros da pinacoteca, durante pequena parte do ano.

O Salão de Honra , além de sua péssima acústica, era antes um vestíbulo do Museu e para este servindo de passagem.

Entre os diversos pavimentos do edifício não havia separação alguma, o que concorria para se misturarem alunos com visitantes, resultando daí sérios inconvenientes para disciplina. O número de salas para as aulas, sempre então insuficiente, ocasionava perturbação no respectivo funcionamento, dificultando a ordem e a fiscalização. Não havia o devido conforto em uma escola onde o ensino misto é distribuído. Não havia estúdios apropriados para os principais cursos práticos e o que havia se ressentia dos defeitos de adaptação.

Eis, em linha geral, os grandes males que o vasto edifício apresentava então às disciplinas ali ministradas. Com efeito, não se compreende um instituto dessa natureza sem os requisitos indispensáveis ao seu tão especializado fim.

Diante de tantos obstáculos o professor Baptista da Costa não desanimou e meteu mãos à obra de adaptação, logo após assumir a direção da Escola.

Foram feitos durante a administração do Prof. Baptista da Costa os seguintes melhoramentos:

1. - No lugar então ocupado, na área, por terraços inúteis, no primeiro pavimento foram construídos, à esquerda, o ateliê de escultura de ornatos e à direita o de estatuária, com luz especial e conveniente.

2. - Removida a antiga escada nobre, alargado o compartimento que ela ocupava e ligadas as duas salas adjacentes, obteve-se um suntuoso “hall” que é o museu de escultura, amplo, severo e adequado, com uma área de 8 metros de largo por 34 metros de comprimento.

3. - No pavimnto [sic] superior, circundando a área central foram construídas galerias para as exposições anuais, com iluminação zenital, sendo duas de 8 metros de largura por 23 metros de comprimento e perpendiculares à Avenida Rio Branco, duas medindo 8 metros de largura por 17 metros de comprimento e, nos encontros dessas quatro galerias, outras quatro medindo 8 metros por 8 metros.

4. - Duas escadarias nobres com acesso ao pavimento superior, dando assim absoluta independência ao salão de Honra para as solenes cerimônias, separando do museu e das exposições temporárias e cujo funcionamento pode ser simultâneo. Desse arranjo e disposição das escadas atualmente resultou a conveniente separação entre a Escola e os demais serviços, podendo-se entretanto, em outras ocasiões, obter por meio do “hall” da estatuária uma boa comunicação temporária. A entrada dos alunos é feita pela porta norte do edifício.

5. - Nos ateliês de pintura, situados no último pavimento, lado sul, foi modificada a iluminação, por meio de cobertura com claraboias, dispostas de modo a não receber os raios diretos do sol nas horas do ensino.

6. - Os ateliês de arquitetura, lado norte, receberam igualmente a mesma modificação, isto é, luz apropriada.

7. - O arquivo, até então apertado, passou a ocupar um vasto salão no pavimento térreo.

O plano, concebido em largos traços e tenazmente defendido por Batista da Costa e organizado por uma comissão de professores técnicos de acordo com o Diretor, acaba de dar o mais satisfatório resultado: acham-se confortavelmente instalados dentro do mesmo edifício, independentemente um dos outros, o Museu e suas galerias, as salas para as exposições temporárias, tudo dentro da tranquilidade e do silêncio de que necessita o visitante estudioso, a Escola no seu conjunto de professores aplicados e competentes e do alegre bando de jovens na inquieta preocupação de estudar e de viver.

Outro melhoramento introduzido foi a iluminação das grandes salas que guardam as preciosidades artísticas, quer as galerias definitivas, quer as que se destinam às exposições anuais. Durante o dia a claridade solar, coando-se pelas claraboias, estende-se sobre as paredes onde se acham as pinturas, enquanto que o espectador, abrigado por um toldo de largura e comprimento adequado e iguais à abertura da referida claraboia, admira as obras de arte dentro de uma agradável penumbra, sem ter os olhos fatigados ou feridos diretamente por uma luz dura e incomodativa. Durante a noite, a luz artificial, bem disposta e de intensidade necessária, esconde-se ao olhar do visitante, irradiando-se convenientemente sobre as telas com inteligência suspensas com a devida inclinação.

Partindo da sala quadrada que forma o ângulo sul do edifício o visitante inicia o seu estudo com as telas dos primeiros mestres do começo do Século XIX, desde a chegada da colônia de artistas franceses que para cá vieram a chamado de D. João VI, notando-se obras e de Jean Baptiste Debret, Nicolas e Felix Taunayo [sic] e de Henrique da Silva e de Simplício de Sá. Entrando na primeira grande galeria, sente o visitante o movimento ascensional da pintura com seus mais lídimos representantes que, tendo nascido ou tendo vindo de seus países a fim de aqui contribuírem para seu melhor renome, são representados por Corrêa de Lima, Cicarelli, Araujo Porto Alegre, Barandier, os dois Moreau, Augusto Muller, Barros Cabral, Mafra, Souza Lobo, Grunholtz [sic], Palliere, Agostinho da Motta, Facchinetti, de Martino, Arsenio Silva, Vinet, Pedro Americo, Victor Meirelles, Almeida Junior, Pedro Peres, Zeferino da Costa, Firmino Monteiro, Amoedo, Caron e outros; passa em seguida para a segunda quadrada onde se destaca Amoedo, Henrique Bernardelli, Aurélio de Figueiredo, Souza Carneiro, para depois entrar na segunda grande galeria, onde apareceu então João Baptista da Costa, Visconti, Brocos, Belmiro de Almeida, Parreiras, Décio Villares, Duarte, Weingartner, Castagneto, Medeiros, Lucílio e Georgina de Albuquerque, os irmãos Chambelland, Carlos Oswald, Fiuza, Vianna, França unior, Luís Freitas, Latour, Jorge Mendonça, Pedro Alexandrino, Oscar Pereira da Silva, Parlagreco, Raphael Frederico, Roberto Mendes, Helios e outros.

A partir do meio dessa galeria começa então, tanto quanto possível, devido a várias circunstâncias, a exposição dos artistas estrangeiros, por ordem cronológica, dos mais modernos para os mais antigos.

Assim é que se vêem:

Graner, Antonio Alice, Axilutte, Barbasan, Barran, Bompard, Carlos Reis, Cauwelaert, Claus, Condeixa, Cubels y Ruiz, Dall'Ose, Bianca, Debat-Ponsan, Delachaux, Fabio Fabbi, Fader, Favrette, Roque e Helena Carneiro [sic], J. Girardet, Heilbuth, Losros, Madrazzo, Malhôa, Maneini [sic], Marel-Fatio, Alphonse de Neuville, Pranilla [sic], Queiroz, Salinas, Boggiani, Silva Porto, Serella [sic] y Bastida, Souza Pinto, Vallon, Velloso Salgado, Theodore Weber, e outros. Em seguida passam para a terceira sala quadrada, tendo ali Baptista da Costa agrupado os singelos donativos feitos por beneméritos cidadões: aí figuram os nomes dos artistas Aman-Jean, Baudoin, Burgraff, Cauchois, Chevalier, Taylor, Clary, Danphin, Desisy, Dholoman, Fourater, Henri Martin, Kalekreuth, La Haye, Marius Michel, Olson, Ravanne, Henri Royer, cujas telas foram oferecidas pelo Sr. Conde de Figueiredo; as de Breughel, Annibale Caracci, Pierre Van Steen, Teniers, doadas pelo Sr. Dr. Salvador de Mendonça.

Contam-se mais os donativos do Comendador Federico Roxo: um Annibali Caracci; do Sr. Claudio de S. Vianna duas telas de Mirevelt; do Sr. Raymundo Maya um Poussin. Passa-se em seguida para a terceira grande galeria onde se encontram telas de Albani, Corregio, Asseretto, Carrael, Castiglione, Cesare, d'Arpine, Cignani, Corrado, Dominichino, Fiasella, Fransken, Gentilleschi, Luca Giordano, Grouse, Guerchino, Heem, Honthorst, Jordaens, Julion, Largilliere, Le Seuer, Maratta, van der Meulon, Molyn, Paggi, Perugino, Pesare, Pietro de Cortona, Piela, Pordenone, Precacini, Quantin-Latour, Salvatos Roza, Sannzio del Santi, Surritelli, Scacciatti, Sirani, Snyders, Tempesta, Tiepolo, Veneziano, Vignalli, de Wael, Wonvermann, e muitos outros cuja autoria ainda é ignorada. Na última sala quadrada acham-se reunidas telas de Jouvenet, Ary Scheffer, Murillo, Ribera, Simon Vouf, Vaseare, Van-Dyck, Velasquez, Veronese, e outros.

Na arrumação destas telas dos mestres antigos, foram elas dispostas segundo país de origem dos respectivos artistas.

Dessa maneira, fácil é ao estudioso poder se guiar na peregrinação por aquelas longas salas que convidam à contemplação, ao estudo e ao recolhimento intelectual.

Ao lado, contornando internamente essas galerias estão as que foram construídas para as exposições anuais ou temporárias. São outras tantas salas que agora receberam as obras de Arte Contemporânea cujo conjunto e organização foram por demais felizes. A impressão recebida pela harmonia da disposição com que foram elas expostas é de que os artistas nacionais (cujo número sendo muito grande permite-nos citá-los em primeiro lugar), na luta consciente em busca da realização de seu ideal, muito e muito tem conseguido.

Em salas próprias, arejadas e devidamente iluminadas estão instaladas as exposições de obra de arte, preciosos donativos feitos ao Museu da Escola. Assim o benemérito Sr. Luiz de Resende doou à Escola 63 telas pintadas por artistas do valor de Allaune, Blanche, Chantron, Raphael-Collin, Guignard, Le Gout-Gerard, Aman-Jean, Palizzi, Rosa Bonheur, Carlo Schwabe, e outros, além de algumas obras de escultura, medalhas, etc.

Do mesmo modos [sic] Barões de São Joaquim, num gesto idêntico de amor ao Brasil, concorreram com valiosos donativos constantes de 68 telas de mestres como Joseph Bail, David Beeck, Edouard Detaille, Broughel, Dupuis, Goupil, Harpigneis, Henner, Jonkind, Maufra Renouf, Sisley, Tassaert, Ziem e outros e alguns móveis de estilo.

O valor dessas preciosas doações é inestimável, já como conjunto de boas obras instrutivas, já como belo exemplo de amor a este Instituto de arte, enriquecendo assim o patrimônio nacional.

Em outra sala acha-se devidamente organizado o precioso espólio do mestre que foi Victor Meirelles. Suas aquarelas, estudos de trajes, seus esbocetos e manchas para os panoramas, o esboço da batalha dos Guararapes e o panorama em cujo centro se desenrola o assunto da primeira missa no Brasil, toda essa virtuosa bagagem artística do saudoso mestre está cuidadosamente organizada e guardada.

No salão de escultura acham-se vários bronzes de trabalhos de Rodolpho Bernardelli que estavam até então ainda em gesso. Mandando-os fundir quis Batista da Costa salvar e perpetuar o precioso cabedal artístico e dar-lhe o devido valor; assim foram fundidas: A Faceira, Santo Estevão e S. Sebastião, de Bernardelli, e O Paraíba de Almeida Reis.

Para as festas solenes com que foi comemorada a maior das datas nacionais concorreram dignamente os artistas nacionais, não só todos reunidos em conjunto na Exposição de Arte Contemporânea como isoladamente nas obras monumentais da Exposição Internacional. Assim, lá fora, no meio do turbilhão das construções que se ergueram formando os palácios da grande Exposição do Centenário, a Escola Nacional de Belas Artes, representada por seus dignos e ex-alunos, deu uma prova indiscutível e categórica do quanto vale o artista nacional. Podemos citar rapidamente os nomes de Carlos e Rodolpho Chamberland [sic], pintando o admirável “plafond” do Palácio das Festas; Marques Júnior no das Pequenas Indústrias e no do Distrito Federal; Eugenio Latour no de Estatística, Genaro do Couto e Mello, Julieta França, Modestino Kanto, Francisco de Andrade, Magalhães Corrêa e outros, ornamentando, enriquecendo esses palácios com imponentes decorações esculturais; e mais que todos esses, os trabalhos na Exposição vieram por em relevo o valor intelectual, artístico e a capacidade de execução dos arquitetos nacionais Archimedes Memória, Nestor de Figueiredo, Adolpho Morales los Rios Filho, Armando de Oliveira, Celestino San Juan e outros.

À Exposição de Arte Contemporânea, concorreram 97 artistas pintores, com 283 trabalhos, 18 escultores com 76 obras, 6 arquitetos com 30 projetos, 8 gravadores de medalhas com 24 trabalhos, 2 de arte aplicada expondo 9 trabalhos, 1 gravador à água-forte e 1 litógrafo, tudo num total de 133 concorrentes com 435 obras de arte.

É de sumo interesse para nós o valioso concurso dos artistas belgas que trouxeram para a nossa Exposição o precioso conjunto de arte, caracterizando aquele nobre país. Assim, em sala especial, acham-se inteligentemente expostas 150 obras de arte de 76 artistas, sendo 61 pintores com 71 telas, 1 gravador à água forte com 11 gravuras, 10 escultores com igual número de trabalhos e 4 gravadores em medalhas com 58 obras.

Apesar de várias circunstâncias contrárias, advindas no momento, a Exposição de Arte Retrospectiva resultou um acontecimento interessante e oportuno. Com efeito, o limite de uma exposição como esta não pode existir; e o que a Seção de Belas Artes conseguiu pôr sob os olhos inteligentes do público é por demais interessante: móveis de várias épocas sobretudo da transição da Colônia para o Império, retratos, paisagens, costumes pintados por diversos artistas nacionais e estrangeiros, tendo vivido no Brasil, esculturas em mármore, bronze e gesso de personalidades e episódios consagrados, gravuras de medalhas e camafeus, gravuras e litografias da época reproduzindo cenas de antanho, adornos femininos da época e outros variados objetos lembrando trechos de uma vida passada dentro de nossa história e para a qual nós nos voltamos com veneração e respeito.

À essa Exposição concorrerão 47 expositores com total de 317 objetos.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Arthur Valle

ESCOLA Nacional de Belas Artes. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 13 dez. 1922, p.3.

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