. DUQUE, Gonzaga. SALÃO DE 1905. Kósmos, Rio de Janeiro, set. 1905, n/p. - Egba

DUQUE, Gonzaga. SALÃO DE 1905. Kósmos, Rio de Janeiro, set. 1905, n/p.

De Egba

No átrio, pouco distante do Gladiador, vejo passar a silhueta ornamental duma esvelta senhora, encantadoramente cindida por um costume-tailleur cor de musgo. Num gesto rápido, em que a elegância se confunde com a prática, a sua estreita e fina destra, em pelica branca, arrepanha a saia. Descubro a linha d’escorço dum borzeguim de verniz... Ela galga os degraus. Ao enviesar no lanço esquerdo, em frente ao nicho, apanho-lho o perfil, de relance. É claro. Tem a pupila negra. Negros lhe são os cabelos, sobre os quais decliva para a frente um chapéu de palha negra, empertigando a aba posterior sobre uma guirlanda de rosas brancas...

Penso: é um bom augúrio. Compro a entrada e o catálogo. Subo. Biombos vermelhos, um espaço curto. Levanto o olhar. Junto à trave da porta, a única que dá acesso ao Salão dividido em três compartimentos, uma figura fria e negra me surpreende. Parece um corvo atalaiado. Atento melhor. É um retrato. No negrume das roupas, na treva do fundo, uma face pálida, a branco, permanece melancólica. Dizem que é o poeta Albano. Assim, em branco e preto, e na altura em que está, parece o ator Dias Braga... quando moço. Entrementes, sinto-me perturbado, um perfume delicioso, arrancado à flora exótica de países maravilhosos, penetra-me o ser, enlanguesce-me.

Que é que me aturde tão deleitosamente?! ... Há perto de mim a carícia duma sombra. Volvo o olhar e dou com ele na esvelta senhora em costume-tailleur cor de musgo. Suas pupilas negras, que são duas noites claras de lendas, fitam o retrato, por momentos; o fruto paradisíaco da sua boca se entreabre - lucioleiam alvuras - e se arrevesa gracilmente num breve momo...

E tenho o olhar fascinado por ela. Envolvo-a, encasulo-a no meu deslumbramento. Ela então, lentamente, volta para mim as noites claras das suas pupilas profundas. Percebo-lhe no semblante o reflexo dum desdém, mas que não ofende nem repele, porque apenas tem um vago de indiferença no indeciso duma surpresa. É o instante de todas as mulheres bonitas diante do estranho que as contempla. Olha-me e afasta-se.

Bem. Dou-me por satisfeito. Ao menos vivi um segundo na luz negra das suas pupilas profundas. E essa exposição começa a me interessar grandemente. Uma oleografia, com o título A Prece, parece-me despretensioso trabalho de amadora ingênua. As delicadas mãos que a envernizaram são, realmente, prendadas. que isso foi trabalho de muita paciência! Em todo o caso, mãos prendadas e que, sem dúvida, com igual habilidade, tocarão mazurcas ao piano e darão ponto à calda dos saborosos papos d’anjos!.... Mãos proveitosas de feliz senhora!

Adiante. Um quadrinho intitulado Primavera palpita na sua moldura. É dum espanhol, o Sr. Fernandez Gomez. Desenho certo, boa cor, luz intensa. Tem, como a maior parte dos modernos paisagistas espanhóis, o maneirismo da feitura; mas isso não o impede de ser uma obra bem acabada. Dá-lhe graça a figurinha de mulher que, em meio da paisagem, recolhe flores.

Ha também uma vigorosa cabeça de velho tratada com audácia e segurança por um artista de grande valor, que se chama Carlo de Servi, e um crepúsculo, do Sr. Cantanheda, um pouco mole, mas suavemente pintado.

Ao lado, o Sr. Dall’Ara expõe uma marinha: ao fundo uma ilha, assim me parece, crivada de casinhas. Água mansa, um patacho ancorado, barcos em derredor. Tudo isto desenhado pacientemente e pintado ao vivo. Faltando-lhe o interesse estético do conjunto, sobra-lhe o da observação. O Sr. Gustavo Dall’Ara possui, nesse processo, que lhe é peculiar, o mérito da probidade. Como pintura documental, excede à fidelidade fotográfica e se o captain do patacho o levar pra sua terra longínqua, ao envelhecer e quando puser lume ao cachimbo, após o empanturro do repasto, poderá dizer à velha esposa, alçando o dedo nodoso em alvo a um determinado ponto da ilha:

- Estás vendo aquela casita, lá em baixo?... Pois ali, muitas vezes comi bananas com farinha...

* * *

O lado oposto, em toda a altura do biombo, há o reluzir de faianças vitrificadas, dominando o rosicler.

Um velho cor de rosa, barbado e de óculos de ouro, assim ao molde dum conselheiro de Estado, demonstra irrefutavelmente que o declive brusco das mesas de pés quebrados, sendo um problema de equilíbrio para a estabilidade dos objetos que a encimem, é também uma excelente tipoia para os braços aleijados; mais adiante um velho cachimbeiro, que parece um vitral iluminado, emerge dum banho de carmim; vejo ainda um moço de dragonas diluindo-se na gloria rósea da sua elegância, e, ainda mais o patife dum Sileno que vem provar à gente que o presunto de York é feito da carne dos beberrões. Como se vê nada mais alegremente instrutivo. Demoremo-nos por alguns segundos. Aqui está uma grande tela a que, por motivos vários, se pôde chamar uma tela abundante.

De pé, em meio do quadro, uma rapariga nua exibe o seu dorso ao público [Imagem]. E note-se que é um dorso... de se lhe tirar o chapéu, porque a superabundância das redondezas assume proporções fenomenais.

Em frente ao quadro, que é do Sr. Augusto Petit, está um homem pasmado. É baixote e atarracado, rebarbativo. Um par de suíças grisalhas ladeiam-lhe a caraça rapada e congesta; tem um bugalho terno, quase lagrimejante, e para ver bem, para não perder minudências, montou as lunetas na batata escarlate do nariz.

Eu (ao seu lado, a meia voz e timidamente) - A rapariga está reluzindo, mas quanto a asseio parece que não é lá das mais caprichosas...

Ele (olhando-me de esguelha, meio desconfiado e irritado) - Aquilo é o sombreado, seu coisa. Você ínté parece que nunca viu pinturas!

Eu (humilde e tranquilo) - Ah!... é sombreado!.. Está bem. Parecia sujo. Nada mais natural do que haver poeira nas porcelanas...

Ele (escandalizado) – Porcelana?!!

Eu (procurando sossegá-lo) - E não é de porcelana, a rapariga?

Ele (numa risada, superior ante a minha ignorância) - Ó seu gajo!... você não vê que a menina está pintada na tela?...

Eu (ingenuamente) - Ah!... pintada, sim... Ora, quem diria?...

Ele (após um silêncio, e com intimidade) - Cá estou a calcular os teres...

Eu - ???!!!

Ele (no mesmo tom) - Se o mestre deixasse-m'a p'r'aí por uns oitenta a cem mil réis...

Eu – Comprava-a?

Ele (triunfante) - Está visto que sim.

Eu (a piscar-lhe o olho) - E estava ali estava [sic] na parede do seu dormitório...

Ele - Nada! Não, senhor... Ia... mas era p’r’a sacada.

Eu (boquiaberto) - Para a sacada?!!

Ele - É o que lhe digo, p’r’a sacada... Mandava o mestre pôr-lhe umas letras...

Eu (ainda mais boquiaberto) - Perdão... não o compreendo.

Ele (com amuo) - Homem - você não é lá, p’ra que digamos, muito sagaz!

Eu - Um poucochinho bronco, às vezes... se me consente a modéstia...

Ele (embevecido no seu desejo) - É o que lhe digo... Aquilo na fachada do meu negócio...

Eu (atalhando-o) - Ah! sim... compreendo-o... seria anúncio.

Ele (radiante) - Isso!... Isso!...

Eu - E a casa de V. S. é de banhos?

Ele (com orgulho) - Nada! Não, senhor... É um negocio de fressuras e mais miudezas...

Eu - Original! E que letras mandaria V. S. escrever no quadro?

Ele - Hom’essa! O título do meu negócio - Ao balão do Ferramenta!

Eu (curvando-me) - Está a calhar... V. S. é, simplesmente, um extraordinário simbolista!...

* * *

No segundo compartimento.

O Sr. Heitor Malagutti expõe uma original Quietitude, em que a sua característica de imprevisto, por vezes falha, destoa da mole vulgaridade da maioria. Serve-lhe de assunto o busto duma grave senhora que, amparando no regaço uma loura criança adormecida, levanta o braço esquerdo em movimento de oferta, segundo se depreende pela laranja que está na sua mão.

Certo que essa pintura não tem o atrativo comum dos quadrinhos de enfeite, é um pedaço de tela meditado, longamente, durante horas de idealização e ao queimar duma cigarrilha. E dentro da sua aparente simplicidade encontra-se algo de espiritual, que resulta duma ideia preconcebida. É, em verdade, um obstáculo criado entre o artista e o público essa maneira singular de interpretar e fazer; mas, dado que exprima a sinceridade dum temperamento e esteja conforme às regras fundamentais da arte, ao público nenhum direito assiste de censurar o seu autor além do que lhe compete em recusar a sua simpatia a essa obra. Nem por isso ela deixará de ser intensa e alcançar o seu destino, restringida, embora, a um pequeno círculo de amadores.

Ora, a Quietitude, se diverge da maneira comum de pintar, não se insurge contra os princípios inalteráveis do desenho e da cor, porque ela os respeita na relatividade do seu modo de ser. Sobre tanto possui, como obra de arte, a objetividade do assunto, que se lhe apreende na serena fisionomia da grave senhora, a quem a rebuscada ingenuidade do contorno empresta uma característica expressão matronal, em que se externa o seu justo orgulho de procriadora. A firmeza macia do seu olhar possui uma penetração que excita pensamentos. E pela tranquilidade, como pela atitude, a sua significação completa-se nessa criança loura, adormecida no seu regaço, tal houvessem, ambas, saído dum muro de templo cristão onde as deixaram os cândidos pinceis dum decorador primitivo.

Daí provém a fixação intencional do artista, que pretendeu e conseguiu dar ao quadro o caráter pré-rafaelista dos estetas rebelados contra a tendência copiadora da arte contemporânea. E não só pela espontaneidade do traço, como pela intenção das minúcias, até o acionado [sic] desse braço cuja mão segura uma laranja no gesto estático com que os gregos dos áureos tempos traziam nas palmas os pomos de âmbar, a sua obra é um documento dos cismas estéticos que se controvertem modernamente e, também, afirmação duma individualidade inconfundível entre os que mais se destacam na pintura da nossa época.

Originais e admiráveis são também esses dois artistas franceses que concorreram ao nosso Salão, o Sr. Eugène Morand com as Ninfas e o Sr. Guillomet com o Sacramento.

O pequeno quadro do Sr. Morand é uma suave harmonia do tons brandos. Paisagem ampla e pardacenta; apenas algumas árvores frondejam ao longe. Céu pálido e frio. À esquerda, nesgando em cavada ribanceira escura o terreno sombrio, rola morosamente a corrente pálida dum rio baixo. E no pardo outoniço da planura, sob a fria palidez dos céus, uma ronda, miniaturada, de ninfas bailando, cujos corpos, na tenuíssima transparência das vestes brancas, não interrompem a tonalidade suave e sugestiva dessa pequena tela que faz lembrar Schubert.

O Sacramento do Sr. Guillomet contrapõe-se à meiga delicadeza desses tons, porque a sua intensidade colorida aturde. É uma irradiação verde e amarelo em contraste brusco com o primeiro plano, todo ele feito do corpo de raparigas em amplos vestidos azul-escuro. O quadrinho mede pouco mais de três sobre dois palmos, se tanto! Desenhado com firmeza, também a sua cor possui um vigor fascinante, que mais surpreende pela singularidade da concepção. Em ar livre, por entre folhagens verdes dum parque, uma multidão de raparigas, coifadas à maneira normanda, se aglomera em torno dum sacerdote, em vestes pomposas, que levanta, à altura dos braços distendidos o cibório flamejante à luz do sol. Do meio da multidão, a contê-la, surge o dorso vermelho dum suíço, com o seu chapéu de dois bicos e armado de bastão e bengala. A luz é auriverde, faiscante, aturdidora. Todas as cabeças, as ricas paramentas sacerdotais, as vestes dos acólitos, o cenário inteiro, tudo arde num verde apoteótico com o qual se funde o amarelo rutilo dos metais e dos bordados. E também o fundo - onde se vê a parede duma capela, vive na mesma feérie de verdes intensos, berrando a violência do seu vigor como a explosão duma gruta de esmeraldas na selvagem claridade dum meio-dia dos trópicos!

Com a mesma nota de verdes luminosos, não obstante a diferença do assunto e da técnica, instiga-me a atenção o quadro do Sr. Rodolpho Chambelland - Bacantes em festa.

O Sr. Chambelland no Salão anterior obteve sucesso com o seu quadro de estreia e, para não desmerecer a confiança inspirada, volta neste ano com cinco trabalhos, dos quais é o mais exigente de cuidados, esse que lhe foi sugerido pela sensualidade do paganismo.

É um ar livre em que há muito talento e não pequena soma de artifício, mas artifício perdoável diante da imensa dificuldade em que um artista se encontra, em nossa terra, para obter modelos que satisfaçam a uma composição variada como é essa. Em verdade, tais assuntos, quando se não recomendam pela beleza dos nus ou eminente originalidade da composição, descambam rapidamente para o ridículo. Isto posto, compreende-se o quanto trabalhoso se tornou ao moço artista a feitura do seu novo quadro, e daí toda a desculpa para o artifício, empregado a título de recurso, o que é flagrante logo na visível transformação do modelo feminino em vários tipos, e modelo a que falta, em absoluto, a elegância e flexibilidade do que serviu para a bobagem envernizada do reincidente Sr. Petit. O mesmo artifício está repetido na teoria de bacantes desdobrada ao longo do campo, em que a impossibilidade do nu ao ar livre obrigou o artista não só a falsear valores de cor, como a confundir em massa uniforme os corpos à distância.

No entanto, a sua composição merece francos elogios pelo distendimento gracioso da linha serpentina e pelo excelente efeito do contraste da sombra do primeiro plano com a larga claridade dos planos secundários. As figurinhas, tocadas de cor, são bem movimentadas e expressivas; a paisagem é vasta e iluminada, transmitindo a impressão fresca do dia; as perspectivas felizes, o céu diáfano e claro. O que lhe foi notado no quadro de estreia aqui mais só acentua - o asseio da palheta, o acerto da maior parte dos valores, a delicadeza dos detalhes e, com essas qualidades, a mesma fraqueza pelo chic, que hoje é apenas um senão, mas amanhã pode ser um defeito...

Em todo o caso, esse Sr. Rodolpho Chambelland merece um bravo!...

* * *

É neste compartimento que encontro duas telas do mestre Elyseu Visconti. Dois retratos. Um, é de menina transformada em moça, de olhos celestes e cabelos negros, clara e rósea, transudando o capitoso aroma da mocidade e toda primaveral no seu vestido branco.

Se não é linda é real. Ela aí está numa leve cadeirita de bambu, braço apoiado ao espaldar, a mão esquerda, cujos dedos apertam umas flores singelas, descansada molemente sobre o regaço e viva, palpitantemente viva, com a rijeza de sua carnação de moça e a calma ingenuidade dum olhar celeste a que o negrume dos cabelos sombreiam estranhamente.

Outra é a fixação imagética da escultora brasileira D. Nicolina de Assis [Imagem].

É pois, um retrato, mas desses retratos que ficam nos arquivos da arte e perpetuam o nome dos seus autores, porque são mais do que reproduções, são valiosos produtos da técnica, nos quais se concretizam seguranças de forma, méritos de palheta e qualidades surpreendentes de expressão.

O retrato de D. Nicolina de Assis é uma obra completa, como é o de Lucrecia Criveli de Leonardo, o de Castiglione de Raphael, o de Anna de Cléves de Holbein, o homem da luva de Ticiano, o da Condessa d’Albermarle de Reynolds, o de Mrs. Siddons de Gainsborough... uma obra destinada à reputação duma pinacoteca ou ao orgulho dum amador...

Olha-se-o e dificilmente se lhe retira o olhar, tal o encanto em que se fica, porque o seu conjunto é uma harmonia de cores severas, mas duma simplicidade tocante, em tons serenos que vão das duas tênues nuanças da chapada do fundo pardo até o escuro zuartino do vestido, pelo qual se fixa o equilíbrio dos tons intermediários representados pela fourrure de pêlo pardo que lhe envolve o pescoço e pelo tom beije da capa. É dessa suavíssima, severa e inteira harmonia de pardos, em que o oca se justapõe às terras, que ressalta a massa escura do vestuário, até o negrume violento dos cabelos e do chapéu. Então, na intensidade negra dessas duas tintas, aclara-se o rosto admiravelmente modelado da inteligente escultora patrícia. É belo?... Certo que sim, é belo porque não existem artistas feios.

Não tem o seu rosto o clássico oval das madonas nem a proporção geométrica dos tipos comuns das belezas convencionas; é, porém, uma cabeça que indica um espírito superior, que se desvia do desenho vulgar dos demais tipos do seu sexo pelo facies inculcativo dos tocados pela chama divina dos criadores. Por isso é belo. A beleza na arte não resulta da justeza ao molde admitido para essa qualificação, resulta da vida, da verdade, do poder expressivista da obra.

Nesse rosto o que se procura não é a proporção das linhas, a forma mais ou menos pura do nariz, o recorte perfeito da boca, a linha grácil do mento; o que se atende e se quer, antes de tudo, é a expressão fisionômica, a visagem, esse subjetivismo que constitui a espiritualidade do tipo e que só sabem fixar os pincéis dos grandes artistas. E é o que se tem neste belo retrato, nesta forte, poderosa obra de arte, porque este olhar como que aveludado por uma sombra de sonho, esta boca que tem o calor da vida e pela qual a palavra deve escorrer ardente e meiga, a graça inconfundível desta cabeça, não são simplesmente duma mulher, são de um ente que só realça entre seus semelhantes e para o qual o nosso respeito é mais movido pela admiração do seu talento do que, propriamente, pelas prerrogativas do sexo.

Mas, será um retrato na sua precisa significação? Não sei se a Sra. D. Nicolina de Assis é esta que aqui vejo; mas sei, e disso tenho absoluta certeza, que esta que aqui está viva na tela, com este rosto, com este olhar, com este modo de descansar a destra na cintura, esta é que é a escultora Nicolina.

E enquanto gozo a emoção que me deu esta a obra, corro os óculos pelo compartimento. De repente paro. Desmonto os óculos - cuidadosamente limpo-lhe os vidros e torno a olhar. Levanto-me da cadeira, aproximo da tela que me prende assim a curiosidade, procuro posição, afasto-me, passo à direita, movo-me para a esquerda... Mas, é sempre o mesmo efeito... aquela mão é uma mão... macho, uma mão que há de mamar na posteridade o renome da sua grandeza. E, senhores, esse mimo, esse dote, esta tetéia de cinco dedos, pertence a um pianista. Até parece reclame. É que o homem tem mão para as encomendas. Mas, com franqueza, aquilo no teclado, Virgem Nossa Senhora, põe o mundo abaixo!

Em compensação o Sr. Lucilio de Albuquerque livra-me daquela formidável manopla que o Sr. Bevilacqua condecorou com um brilhante, retendo o meu olhar na sua elegante cabecita de mulher, feita com o nervoso ardor da sua bravura pinturesca.

Depois, pelo alto das paredes, entre umas marinhazinhas, das quais apenas percebo uns barquinhos e umas praiazinhas, muitas mangas, muitas laranjas, muitas bananas, então bananas em penca! É uma quitanda desesperada, o Largo da Sé e a Casa Cypriano em concorrência de exibição, porque a maior parte daquelas frutas parece bugiganga de salas, ao modo dos frutos em louça, pintada e envernizada.

Esses Srs. amadores não terão mais que fazer?...

Terceiro compartimento.

Encontro outro Chambelland, o Sr. Carlos Chambelland, irmão do Rodolpho.

O seu quadro de estreia é um retratinho de senhora, em corpo inteiro, num vestido de fazenda azul marinho, mitenes brancas, sapatos brancos e sóbrios enfeites brancos [Imagem]. Está sentada num canto de divã estufado de amarelo, apoiando o corpo numa almofada azul celeste. A cabecinha penteada em bandós, que são negros como seus lindos olhos, tem uma testeira de contas, brancas, à moda italiana do século XVI, mas estando o fio posto sobre os cabelos. É uma feliz estreia, um prometimento confiável, esse quadrinho, bem desenhado e já muito bem pintado para um artista ainda não emancipado das aulas. Se o talentoso estreante, em vez de se subordinar à modéstia do interior em que está a retratada, se desse ao capricho de harmonizar os accessórios com o vestuário dela, isto é, mantivesse o quadro numa gama ou procurasse contrastes, poderia ter conseguido mais realce para a sua obra, ainda assim muito boa.

Mestre Baptista da Costa expõe oito paisagens, oito admiráveis trechos desta nossa brilhante natureza por ele surpreendida com o segredo da sua arte, para a qual já esgotamos toda a provisão de elogios.

A Prisioneira e a paisagem de Poços do Caldas são duas telas que fazem a reputação dum artista, particularmente esta última com a intensidade da sua luz num verde que é caracteristicamente o verde da nossa natureza. Os outros quadros, o fulgurante Começo do dia, o Canto de praia, Estrada do Vidigal, Ipanema e Mau tempo tem a marca da sua preciosa palheta, são observados e retidos com a sua maestria sempre louvada. Mas, como me entristecem esses belos quadros!... a mim, que por mais que rebusque o martirize os bolsos nada encontro! Felizes os que tem dinheiro!... Talvez nem tanto!... em todo o caso, nessas ocasiões, a gente lhes inveja a bolsa...

O Sr. professor Henrique Bernardelli... Desta vez o Sr. professor Amoêdo pregou-nos uma peca. Esperávamos uma composição nova, uma bela obra cheia de novidade e de saber, mas o Sr. Amoêdo não quis nos dar esse gozo, descansou nos triunfos de seus discípulos, os Srs. Chambelland. Agora quem me faz perplexo é o Sr. professor H. Bernardelli com os seus dois retratos, o do Sr. Machado de Assis e o do Sr. Dr. Ubaldino do Amaral, sem dúvida que pintados por mão de mestre, mas, não sei por que, temperados com chocolate. Talvez para meter figas ao Sr. Amoêdo com a sua pintura a ovo.

O professor Benno Treidler, que concorreu à seção de aquarelas com uma interessantíssima Leitura interessante e dois outros vigorosos trabalhos, expõe um quadro a óleo - Manhã - pintado com a sua largueza de habituado manejador de pincéis. A hora parece-me bem surpreendida pelo Sr. Treidler, há frescura na paisagem e o ambiente neblinoso é leve e iluminado.

O professor Pedro Weingartner é, como sempre, o paciente e meticuloso mouchiste das figurinhas liliputianas das paisagens microscópicas, mas, inegavelmente, com o valor dos seus sérios conhecimentos de arte, e o Sr. Brocos, o fixador dos nossos costumes roceiros, aí figura com um crepúsculo tocado com o brio a que nos acostumou, e um retratinho.

Apresenta-se nesta exposição o Sr. Theodoro Braga, ex-pensionista da escola na Europa.

A mim parece-me que o Sr. Braga preocupou-se muito com o estudo do desenho, no que andou bem avisado, mas quanto à pintura pouco pôde fazer ou, se não é de temperamento avesso à pintura a óleo, deixou-se influenciar demais pela maneira do inglês Youg Hunter [sic]. A maioria dos seus quadros tem uma secura de chapada de estamparia e é recortada, como pintada pouco a pouco em zonas propositalmente estabelecidas. Entretanto a sua aquarela - Castelo Medieval - possui bem o carácter do gênero e é vigorosa; a mancha é feita com segurança e elegância.

Na Manhã de aniversário que, antes de aí figurar, esteve exposta por longo tempo na Casa Rembrandt, o defeito do recortamento está mais atenuado que no Vecchio Cantore ou na Melancolia; ainda assim os panos brancos que formam todo o fundo perderam a sua frouxidão, a sua leveza, por causa dessa maneira. Esse quadro, em que o pintor procurou vencer a dificuldade da gama em branco, falha ao efeito desejado porque a delicadeza das nuanças da gama escapou à atentiva do seu autor e as sombras foram densadas com uma violência desastrosa. Ao demais, o artista fraqueou nos valores do segundo plano em que está a mulherzinha deitada; aí a confusão dos volumes é infeliz, o quadril da rapariga, o qual está envolto nos lençóis, tem um destaque brusco sobre o resto do corpo, que se funde numa meia tinta quase transparente, inutilizando a densidade do resto do corpo e sobretudo a vida da cabecita morena do modelo. E, no entanto, o artista empregou todos os recursos do pontilhamento para destacar a chocolateira de níquel e outros accessórios correspondentes que estão num gueridon, ao lado da cabeceira do leito, na mesma penumbra e na mesma distância em que se acha o busto da figurinha!

Mas, quanto ao desenho propriamente dito, isto é, à marcação do assunto, o Sr. Braga saiu-se bem, como bem se destaca em os [sic] outros quadros expostos.

Creio que o Sr. Braga, pelo seu temperamento, por sua tendência à simplificação e uma certa originalidade no combinar o assunto, no qual muito se descobre de paciência, daria um bom cultivador de artes aplicadas.

Aqui está o Sr. Latour, prêmio de viagem à Europa. Nada menos de quinze quadros, mas quinze quadros que atestam a sua aplicação e anunciam um grande artista a se formar.

Pondo de parte o maior deles, Praga Social, que me não agrada pelo assunto já muito batido e muito pouco pinturesco tratado pelo modo porque foi, qualquer de seus trabalhos evidencia o relevo duma individualidade incipiente. O asseio, a frescura, o brio da sua palheta são já notáveis; o desenho sai-lhe certo da mão trabalhadora e os assuntos trazem o cunho do seu interesse por uma arte inspirada na natureza e com ela vivendo.

As Tesourinhas, destacadas da sua obra, constituem um adorável quadrinho pela composição, pela graça real das três figurinhas, tão alegremente vivas no frescor desse ambiente de manhã domingueira! É ainda essa franqueza e firmeza do fazer, das quais ressalta o modelado à luz franca, que se nota nas Flores e Mocidade, motivo bem arranjado para um nu. Mas se o elogio pela habilidade da pintura, não o farei quanto à escolha do modelo e à posição que lhe deu. A magreza da rapariguita que pousou é tal que suas formas não correspondem ao título da obra. Esses membros são os de uma adolescente e a posição, intencionalmente forçada para não lembrar poses conhecidas, dá-me a impressão duma acrobata que se desconjuntou numa queda.

* * *

E ainda mais paisagens!

O Sr. Luiz Ribeiro, que é um artista consciencioso posto que abusando da minudência, tem cinco quadros dos quais quatro são paisagens. O de figuras, sob o título Véspera de noivado, é um quadrinho de gênero, estudado com esmero, mas que pouco me interessa, o que não quer dizer que deixe de interessar a outros. De suas paisagens mencionarei Últimos feixes, muito iluminada e de boa perspectiva aérea.

Retorna a expôr a Sra. Eulalia Silva, que no catálogo, figura com o nome de Eulalia do Nascimento e Silva com o apêndice de um D maiúsculo, entre parêntesis, para que todo o mundo saiba que ela é Dona... O que eu sei, e com isso é que me importo, é que realmente a Sra. Eulalia é dona de uma grande vocação para a arte, mas ainda medrosamente agarrada à influência do seu professor.

A Velha estrada se tivesse mais um pouco de vigor no primeiro plano e mais observação nas massas do fundo, seria excelente trabalho. Em todo o caso, quem isso faz promete muito.

Ora! aqui tenho uma paisagem que me não fala unicamente à vista! É este Crepúsculo de Roberto Mendes, um pintor espiritualista que, depois de nos encantar com os seus admiráveis pastéis, voltou-se para a pintura a óleo e vai fazendo uns delicados poemas de saudade com os recantos de Natureza entendida por sua alma de poeta e interpretada por sua miraculosa palheta. É um trecho de parque abandonado; o rasgão dum lago divide-o pelo centro, em duas margens. A galhada contorcida duma velha mangueira estende, ao alto, a bambinela atormentada de seus ramos; ao fim da margem esquerda uma figueira brava pende sua fronde para a água, silenciosa, coberta de farrapos de algas, onde se refletem, em tons roxos, ramarias e troncos, e todo o cambiante colorido do crepúsculo, desde o amarelo dourado dos derradeiros raios solares até o verde e o azul pálido das alturas.

Mas, nessa reunião de tintas, nessa diversidade de cores, há uma consonância admirável, em que o saber do artista se afirma soberanamente sobre o vulgarismo das feituras aplaudidas. E mais do que isso, que é um mérito de técnica, a sua paisagem comunica-se com a nossa alma, prende-nos dentro da sua verdade e nos dá a sensação da sua vida.

É este o mérito desse discípulo de Ruskin, que se não deixa fascinar pelas lantejoulas dos triunfos fáceis nem se corrompe com as imposições burguesas do meio.

A sua arte é um culto, para o qual vive, como um eremita, obscuro e possuído. E por se lhe entregar com esta ardência, ela lhe transmite os seus segredos, ela se lhe familiariza, requinta a sua visão, palpita nas suas tintas, passa para suas telas com essa intensidade rara, ou diz o seu sentir, estranho, incompreendido, por demais sutil para o entendimento dos que a querem e procuram só como a um gozo da vista e um complemento decorativo das salas.

Bendito o artista que assim nos faz entender e amar a Natureza!

* * *

Alegres desenhos e desopilantes caricaturas do Raul... Boas aquarelas das irmãs Vasco [Anna da Cunha Vasco e Maria da Cunha Vasco]...

Diante das medalhas do Sr. Augusto Girardet reencontro a esvelta senhora em costume tailleur cor de musgo. Há nas suas pupilas o quebranto de um gozo, toda a ternura dos delicados espíritos embevecidos na contemplação dum objeto de arte. E sorri glorificando com a luz do seu inexprimível sorriso a obra do Sr. Girardet. Sorri e retira-se.

Durante segundos fico desatinado, sem pensar, sem saber o que fazer...

Mas, onde está a Escultura? Não há escultores, não há uma aula de escultura nesta terra?... E a Sra. Nicolina, a Sra. França, o Sr. Berna, o professor Bernardelli?... Que faz o Sr. Correia Lima?... Triste pergunta! Que faz o Sr. Correia Lima... Ora, que há de ele fazer?!... Por espaço de quatro ou cinco anos o governo brasileiro manteve-o na Europa; de lá nos mandou o artista três bronzes em que se confirmavam o seu talento e aplicação, de lá veio com um belo gesso, a Mater Dolorosa... e esperou que lhe dessem trabalho. Mas não havia trabalho. O Sr. professor Rodolpho Bernardelli, diretor perpétuo e senhor absoluto da Escola de Belas Artes, não sei se comendador de várias ordens estrangeiras, conselheiro estético do governo e outras instituições, monopolizava todas as admirações e todos os trabalhos. Estavam na sua célebre oficina o Teixeira de Freitas, o Dr. Francisco de Castro, o busto do conselheiro Thomaz Coelho, o Carlos Gomes.. e não me lembro que mais glórias nacionais lá se foram meter... Tinha S. S. ou Sua Eminência uma enfiada de encomendas: o frontão da Escola Politécnica, a ornamentação do Chafariz da Carioca, os bustos da fachada do Teatro S. Pedro, estátuas para o Teatro Municipal, um refúgio para o largo da Lapa figura simbólica para o pseudo palácio das Academias, glorificações brônzeas de presidentes de associações comercias, ornamentos para palácios da Avenida... e mais... e mais... por atacado e a varejo.

No entanto, o Sr. Correia Lima, com quem o Estado gastou dinheiro para o aperfeiçoar na arte de esculpir, e cujo aproveitamento demonstrou em magníficos trabalhos, ficava às moscas, com o seu sorrisinho de bom menino e todas as suas ilusões metidas num saco!...

Não sei se ele se queixa, porque mesmo não sei onde ele vive; mas isso é uma grande injustiça, em que se tem a lamentar a inutilização dum talento e o exemplo nefasto oferecido aos que pretenderem ser artistas.

Ah!... percebo que se me foi o bom humor depois que aquela formosa dama de lindos olhos partiu. E quem seria?... Ora, que me importa saber quem seria tão donairosa senhora! Uma deusa, talvez, descida à terra para dar a um pobre mortal, arruinado e triste, a alegria necessária à sua penosa missão... De qualquer forma, verdadeira ou imaginária, deusa ou simples madame três estrelinhas, de qualquer forma, uma linda mulher! Isto basta.

10 de Setembro.

GONZAGA DUQUE.


Imagens

BACANTES EM FESTA

D. NICOLINA DE ASSIS

RODOLPHO CHAMBELLAND DISCÍPULO DE R. AMOÊDO

PRISIONEIRA

POÇOS DE CALDAS

TESOURINHAS


Digitalização e transcrição de Arthur Valle

Atualização da grafia por Vinícius Moraes de Aguiar

DUQUE, Gonzaga. SALÃO DE 1905. Kósmos, Rio de Janeiro, set. 1905, n/p.

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