. DUQUE, Gonzaga. O Salão de 1906. Kósmos, Rio de Janeiro, out. 1906, n/p. - Egba

DUQUE, Gonzaga. O Salão de 1906. Kósmos, Rio de Janeiro, out. 1906, n/p.

De Egba

Edição feita às 22h15min de 3 de Fevereiro de 2012 por Egba (Discussão | contribs)

Nessa radiosa manhã de feriado, em que o sol, lembrando um soneto de B. Lopes, parecia:

... um guizo de ouro, cheio

Da alegria sonora de uma rima, desci vadiamente para a poeirada da cidade em reconstrução. Caras alegres, muita gente em casemiras claras, algumas mulheres bonitas. Radioso dia!

Na praça de S. Francisco do Paula encontrei o meu ilustre amigo Polycarpo, todo dominical numa fatiota cinzenta, enfeitando a sua lapela com um ramilhete de hortênsias, de fronte de achavascado brutamontes, vendedor de flores.

É bem de supor que vossas excelências, respeitáveis leitores, não conheçam o Polycarpo. Não se trata do hílare Polycarpo Banana, do Eduardo Garrido, nem de algum João Ninguém p'ra aí assim. Eu vol-o apresento. É moço, creio que vai pelos trinta anos, no máximo. A estatura fica-lhe entre o baixo e o alto; arredonda-se-lhe o corpo no desfruto da boa vida, trás bochechas escanhoadas, é moreno, usa bigode e pince-nez de míope em aros de tartaruga sobre o narizito ao vento, e unido a isso al­gum talento, algum dinheiro, umas cócegas literárias, muita jovialidade e, se não fossem os seus arrebatamen­tos tropicais, seria a mais adorável das companhias durante algumas horas.

Polycarpo, acollhendo-me jubilosamente, pregou-me logo uma rosa ao peito, e solícito como sempre:

- Qual o teu destino?

Encolhi os ombros; O que estiver escrito no imenso livro do Senhor Deus eterno.

Amigo Polycarpo coçou o queixo, farejou as alturas, depois, resoluto, tomando-me o braço: Vamos ao Salão.

- Perfeitamente. Ao Salão. Prestas-me um grande serviço, farás por mim a critica (ou coisa que a valha) dessa exposição. Se a não fizeres colaborarás nela, pres­tando-me a leveza do teu inesgotável humorismo. Emprestar-me-ás a nota original das tuas observações.

Ao Salão, amigo Polycarpo!

Em minutos alcançamos a Escola de Belas Artes, em cujo átrio esbarramos com dois enormes gessos. Polycarpo pretendeu admirá-los, ao que me opus com o argu­mento considerável de que as grandes coisas devem ser guardados para o fim. Compramos as entradas e subimos.

Ao primeiro relance de olhos algumas paisagens impressionantes, um Vasquez sobressaindo pelo vigor da sua fatura, duas magnificas cabecitas de Columbano, uma firme caraça de negro por Thimotheo da Costa [[[Arthur Timotheo da Costa]]]...

Particularmente Vasquez nos atrai. As suas quatro paisagens - Planalto de Teresópolis, Rio Paquequer, Serra dos Órgãos, e Afluente do Paquequer, são magnificas. Esse pintor, que por tão longo tempo persistiu na obscuridade de uma voluntária existência humilde, é das melho­res organizações artísticas que contamos entre contemporâneos. A sua visão apreende sinteticamente, o seu colorido é quente, e ao mesmo tempo sóbrio, a sua maneira original. Não reproduz unicamente, interpreta, entra na expressão da natureza, funde-a com a sua alma.

Passamos adiante.

Polycarpo endireitou as lunetas no narizito cheiradiço, alvejou um quadrinho. É uma linda cabeça de morena, em perfil, curvando-se ao decote dos seios onde pousou uma borboleta azul. O aveludado do pastel dá-lhe à epiderme a maciez voluptuosa das penugens nascentes, o revérbero do fundo, em vivos apoteósicos de alaranjados, ilumina-lhe o contorno do perfil, a nudez do busto que parece feita de uma maravilhosa pele de seda frouxa vivificada por beijos.

- Magnífico! - disse.

- Sim, magnífico! - concordei.

Olhamos, ambos, o catalogo. Tem o n. 8. e traz a assinatura de Arthur Lucas Conheço muito este nome. Arthur Lucas é um belíssimo artista desviado do curso natural da sua tendência por circunstâncias indebeláveis da sorte contrária. Pintor, e pintor por temperamento, fez-se caricaturista, fez-se ilustrador, porque o gênero lhe garantia a subsistência. Mas a sua qualidade nata de colorista, a sua grande vocação para a palheta, ficou latente e, por vezes, rompeu obstáculos de tempo e compromissos para se externar em lindos painéis imaginosos, de uma suave fantasia de cores e de formas. A falta de tempo, porém, mantinha-o afastado das exposições. Felizmente aqui temo-lo agora, provavelmente o teremos sempre e sempre com esse entrain, com essa viveza e poesia que o destacam em primeira linha dentre os expositores atuais.

Polycarpo, na sua terrível incontinência meridional, fazia exclamações: Bravo! bravíssimo!... Este é um artista!...

Mas, como o catálogo indicasse outro quadro do mesmo Lucas, sob o n. 7, procuramo-lo ansiosamente. Lá está! É também um pastel. Sobre um fundo roxo, igual, sem nuanças, destaca-se outra cabeça de mulher, de uma suavidade sonhadora, quase ideal. Também morena, e em perfil, mas desse moreno tênue das magnólias que se vão fenecendo; da coroa escura dos seus quentes cabelos castanhos pende um véu transparente, que a envolve numa névoa de visão e todo o seu busto, que é leve como as plumas, está encoberto por um leve tecido claro, em tons brandos de branco e cinza, harmonizando-se com a indecisão sentimental do seu semblante, que o gesto da mão, sobre a vareta do leque revela e inculca.

Polycarpo, comovido, sacode-me o braço:

- Hein, que dizes?

- É um artista, amigo Polycarpo, é um artista que aqui está, para gozo nosso e honra da pátria.

- Caramba! Eu, se fosse do júri, dava-lhe logo vinte medalhas de ouro e duas viagens à Europa. Olhe você, que esse homem lá na terra de gente fazia figura.

- Não há duvida, ilustre amigo. Este Sr., Arthur Lucas, que é o infatigável Bambino dos “calungas” de jornais ilustrados, entrou magnificamente nesta exposição.

Merece palmas de ouro e trompas clangorosas de vitória. Urrah! pelo Lucas.

Polycarpo, esquecendo-se da gravidade do lugar, berrou escandalosamente: urrah!

Respeitáveis senhores tremeram, assustados; os biombos de paninho vermelho oscilaram.

E para não destruir a deliciosa impressão que me deram essas duas cabeças, interpretadas por uma alma de poeta, volvi os olhos para um sereno, fascinador retratinho de rapariga, assinado pelo extraordinário Aman-Jean. Polycarpo protestou em nome do seu feroz nativismo contra este meu ato: Ali, o que tínhamos a ver, era o trabalho dos patrícios... os estranjas, esses, não necessitavam do nosso julgamento, eram reputações feitas, eminências na Arte... Olha aquilo, olha a nossa luz naquele quadrinho.

Apontava uma paisagem do professor Baptista da Costa, que descobriu o segredo de reter na tela a cor, a luz, o contorno pitoresco da nossa natureza. Passamos em revista as suas obras. Como sempre encontramo-la conscienciosa, seriamente feita. Mas, apesar de todas as boas qualidades que se poderá notar no seu grande quadro À beira do lago, preferimo-lo nos quadros de menores dimensões, na Margem do Paraíba, na Paisagem do Leme, na Paisagem Mineira, em que não há verdadeiramente composição do assunto, mas reprodução do observado. As figurinhas do primeiro não correspondem à intensidade emotiva do cenário. Desta opinião também participa o meu ilustre amigo, o respeitável Polycarpo, que tem competência em assuntos de arte, pelo menos igual à que nós outros presumimos possuir e o bastante para ser ouvido e cheirado por nossas celebridades.

Assim foi que ele notou com muito critério o progresso alcançado pelas Sras. Rachel Boher e Sarah del Vecchio, nos estudos de paisagem. Dessa última senhora há um interessantinho [sic] quadrinho, a Ponte do Aquarium em que se revela a proveitosa influência do seu professor, o já conceituado Baptista da Costa.

A Sra. Boher apresenta um bom estudo da praça Malvino Reis, em Copacabana, feito com muita segurança dos valores e do desenho. Essas senhoras, como as aquarelistas DD. Anna [Anna Cunha Vasco] e Maria Cunha Vasco, prometem ser artistas de real merecimento.

Do paisagista pernambucano Telles Junior, de quem se ocupou nesta revista, há um ano, o Sr. Oliveira Lima, encontramos um quadrinho que se nos afigura insuficiente para constatar o mérito que esse escritor lhe deu. O seu acabamento acusa maneirismo e, nos detalhes, vemos persistências que denotam dificuldades.

O Sr. Dall’Ara dá-nos três estudos bem desenhados e intensamente coloridos. Muito bons.

Percorrendo o catalogo encontramos o nome do Sr. Bevilacqua (Eduardo Bevilacqua) que, no ano passado, apanhou a medalha de segunda classe. Isso parece que o excitou beneficamente, porque no Salão de hoje os seus dois trabalhos expostos são muito, muitíssimo superiores aos daquele ano.

Polycarpo chama-me, delicadamente, a atenção para a Infância de Orfeu. A paisagem está bem iluminada e os pincéis correram com largueza; a figurinha de Orfeu, se não fosse o desenho da perna direita, mormente do pé, seria feliz. Outro trabalho do Sr. Bevilacqua é um retrato, em que se revela o seu desejo de progredir. E não há duvida, fez um passo enorme! O retrato é bom pelo que respeita à pintura. Sem o censurar, eu desejaria a cabeça fosse mais consistente, mas a roupa, como accessório, agrada-me grandemente, assim como a distribuição da luz, feita com tal habilidade que dá um delicado interesse à figura.

- Neste caso...

- Se lhe deram medalha no ano passado é justo que lha deem neste ano.

- E este Sr. Carlos Chambelland?... - perguntou-me Polycarpo, diante dos Olhos curiosos.

- É um rapaz de grande talento, um belo artista que vem chegando. No Salão de 1905 expôs um bom retratinho, mais do que isso, um excelente retratinho.

- Mas.... estas duas figurinhas, que lá estão na praia... Com franqueza, não te parecem desajeitadas?

Sim, não me agradam... sobretudo, a do homem. Em todo o caso, Polycarpo amigo, há muito ar neste quadro, e tudo é frescura, tem o ambiente marítimo, o horizonte é vasto,.. Repara bem nestas três figurinhas femininas. São d'après nature. E se queres conhecer mais o valor desse moço, que muito promete, olha este retratinho. Pode-se-lhe dizer tímido na pintura da cabecita, falta-lhe acabamento, vigor, mas repara estes olhinhos, como vivem, como eles fitam. Atende a este corpo, a este vestidinho branco... Hein?... Aqui há desenho, há pintura...

- Davas-lhe também uma medalha?

- Certamente, até a medalha de ouro!

E hás do convir em que a nossa pintura está cheia de promessas, que devemos aproveitar. Há um numeroso grupo de rapazes de talento.

- Por exemplo...

- Esse Thimótheo da Costa, o Arthur, irmão do outro Thimoteo [João Timótheo da Costa]. Aqui tens o Livre de preconceitos...

- Deveria ser: fora das regras da arte...

- Nem tanto. Vejo que esta figura do mulher deitada num comoro de areia, está desarticulada, a perna esquerda vem em curva para um plano errado, contrariando a posição do tronco quase em escorço; vejo que a sua perna direita forma uma linha piramidal que se desloca violentamente do resto do corpo...

- E que mais?

- Não obstante tudo isso, a composição é audaciosa, põe uma nota de rebeldia nesse meio...

- Começando por não significar coisa nenhuma.

- Espanta-me a tua intolerância, amigo Polycarpo.

- Eu tolero tudo, meu velho, desde que seja tolerável. Calcula tu que, saindo daqui, um nefelibata nos agarrasse e nos fizesse ouvir uma coisa mirabolante, pouco mais ou menos assim: A pompa triunfal do empavesamento císnesco das galeras d'ouro, ardendo em explosões de minas arrebatadas sob o holofote do sol nascente, arquitetava Babilônias flutuantes com festins de Baltasar nos montículos movediços do corcoveante oceano... Seria isso tolerável?

Emudeci. O jovial Polycarpo quando escorrega para o sério é simplesmente formidável.

- Bem. E o que dizes deste violinista?

- Acho-o soberbo, é uma das melhores obras deste Salão. O Sr. Carlos Oswald trouxe para a pintura o talento com que o seu ilustre pai cultiva a música. Esta cabeça está viva, não se pode negar; há alma nesses olhos, essas mãos tem sangue, e músculos e nervos. Admirável figura! De resto, toda a obra desse moço ainda mesmo que pouco nos agrade, como a Magdalena, possui a marca do um artista, sente-se-lhe o calor da febre da composição. Quando não tivéssemos este extraordinário violinista, bastaria a Triste para revelar essa individualidade que veio honrar a nossa arte com o brilho do seu mérito. A mão desse moço tem a segurança de um mestre, o desenho sai-lhe certo e firme, a sua palheta possui um brio pouco comum, a sua tinta ilumina com um raio ou suaviza e melancoliza como o luar; e em tudo está a sua alma de artista, o seu poder do criar, de evocar, de comunicar, A própria Magdalena, a que me referi, se tivesse por título - estudo, academia, nu - ou outro qualquer que o não determinasse, que o não fizesse um tipo, seria ótimo trabalho. Magdalena! porque?... Em que esta figura indica a pecadora arrependida que acompanhou Jesus de Nazaré?... Será pelo acabrunhamento em que permanece?... Será simplesmente um nome de acaso, como seria o de Silvia, Marta, Joana?... Que nos importa a nós que uma mulher nua, sobre um divan, sem outros attributos que inculquem a sua origem, a sua raça, os seus costumes, se chamo Joaquina ou Rachel?... Pondo isso de parte, toda a obra desse moço é uma afirmação incontestável do seu talento e do seu saber.

O Sr. Oswald conquistou, com ela, um dos primeiros lugares entre os nossos pintores e nesse lugar conservar-se-á, sem dúvida, aumentando o fulguramento do seu nome para glória da nossa pátria.

Outro artista novo que se nos revela no atual Salão é o Sr. Francisco Manna.

O seu estudo ao ar livre, o Claro-escuro social e a Luta pela vida são obras que afirmam uma individualidade incipiente. Como interesse artístico preferimos o estudo ao ar livre e a Luta pela vida ao grande quadro Claro-escuro social, mas em todos encontramos o mesmo sentimento da cor, a mesma facilidade de pintura, o mesmo cuidado de desenho. O Sr. Manna é o mano dos nossos bons artistas.

De repente, Polycarpo berrou um - oh! - escanda­loso. Duas modestas senhoras que, acomodadas em ca­deiras, olhavam sonolentas o retrato do infeliz Dr. Augusto Severo pelo falecido e modestíssimo Franco do Sá, estremeceram, aterrorizadas. Corri para o meu ilustre amigo: Que é!

Ele não se podia conter, estava vibrante; agarrou-me pela cintura, arrastou-me violentamente para o lugar em que se achava, e numa ânsia admirativa repetia-me:

- Admira, admira isto! Admira.

Era a Dame à la Rose, de Belmiro de Almeida.

Sim, devíamos admirá-la. Realmente, essa pintura demonstra um profissional completo. Ali tudo foi atendido: o desenho, que é certo, macio, reconstruidor; os tons, que são magistrais nos seus valores; e a expressão, que se nos comunica e vive e atrai. Olhamo-la demoradamente.

A linha esguia desse corpito, vestindo tecidos negros, move-se numa graça serpentina e tão nervosa e magra ela é que lembra uma tulipa negra! Sobre a fragilidade do pescocinho a cabeça volve-se para nos sorrir - descobre-se-lhe, então, a insídia do olhar que nos fascina, a feitiçaria do sorriso que nos entontece. É uma viva figura, uma admirável figura que, entusiasmando Polycarpo, lhe arranca da originalidade esta frase, em que esta caracterizada todo o exquis do modelo: Bizarro louva-deus da moda!

Belmiro é o mesmo artista de há dez, de há quinze anos passados. A sua pintura conserva o encanto do asseio, da precisão, da certeza que a sua pratica adquiriu e a sua índole cultivou. E neste quadrinho da Amuada, que aí está, encontramo-lo com as mesmas qualidades de rigoroso desenhista e fino pintor que levaram o seu nome ao mais alto conceito entre os nossos artistas.

Do mesmo modo se mantém na elevada reputação conquistada os Srs. Treidler com suas belíssimas aquarelas, Visconti com um adorável Segredo, que fez parte de uma coleção exposta há anos e Weingärtner sempre delicadamente meticuloso; Raphael Frederico expõe uma paisagem, um tanto prejudicada pelo plano direito em que há um rio demasiado para o bom efeito do quadro. E... Mas, o amigo Polycarpo começa a sentir fadiga. É sua opinião que já vimos o que devíamos notar, o mais que o admire quem tiver tempo.

Partimos para a sala de escultura. Como sempre pobre e fria. Correia Lima, que nos podia comover com o seu belo talento, contenta-se em expor um busto-retrato do almirante Mello e outro gesso, o Trabalho, inegavelmente modelado com o saber de que há dado sobejas provas. A Sra. Nicolina de Assis apresenta um busto-retrato, em bronze, bem feito e o projeto de uma fonte; o aluno Cunha Mello agrada-nos muito com o seu gesso, retrato de A. C., realmente interessante. Ainda Belmiro de Almeida nos surpreende com uma cabecinha em bronze, retrato do Dr. G. B. e a Sra. Julieta França, recém-chegada da Europa, diz-nos por sete trabalhos o aproveitamento do seu tempo de pensionista da União. Nesses sete trabalhos há um busto em bronze, retrato, dois em gesso, também retratos, a maquette de um monumento da República e mais duas grandes composições.

A maquette possui uma bonita linha monumental e para julgarmos satisfatória às nossas exigências desejaríamos que as figuras do pedestal em vez de isoladas, tivessem conexão entre si, formassem um conjunto, rompendo assim com a forma clássica e dando-lhe maior importância inventiva. Das suas composições deixo ao ilustre Polycarpo o encargo de as julgar. E, portanto, dou-lhe a palavra. Amigo, dize tu o que pensas desses gessos.

- O que penso? Com franqueza, inclino-me simpaticamente para a obra dessa escultora, a sua predileção pela nudez é uma prova de aplicação. A grande escultura é o nu. Mas, a Sra. Julieta, não sei porque, não se dá ao trabalho de amadurecer as suas concepções, parece que tem a sofreguidão de produzir.

Se ela houvesse procedido com maior tino na composição da Confidência, veria que o assunto não se prestava à grandeza dada às figuras nem deveria ser este o modo de agrupá-las. Há precipitação em tudo isso. Mais lentamente, para dizer melhor - mais amadurecidamente, o assunto se lhe apresentaria de outra maneira; as figuras, pelo razão do título, completar-se-iam num conjunto mais estético e também mais verdadeiro. Haveria, pois, outra expressão. Este defeito ressalta também do Filho Pródigo. A posição da figura não nos indica o momento nem caracteriza bem o indivíduo. Se lhe escrevessem no soco, em lugar de Rêve de l'enfant prodigue, Sonho de Jacob ou Fadiga ou Sesta do pastor, olharíamos para ele com a mesma emoção. O que lhe falta, como falta a Confidência, é a interpretação, é o flagrante, que, numa simples mirada, tudo nos revela. Pensado, reflectido, estudado o assunto, teria a escultora alcançado o quanto pretendeu. A inspiração fica na primeira maquette. Se o gênio a bafeja, essa maquette será extraordinária, mas se a ideia apenas resultar de uma especial disposição de temperamento, é preciso pensar muito, fazer e refazer, estudar pacientemente para encontrar a sua expressão exata.

Assim falou Polycarpo. Sorri-lhe, estendi-lhe as mãos: Obrigado, amigo, obrigadíssimo. Em nome da arte, obrigadíssimo.

Agora, à Vida!

À Vida! - Confirmou Polycarpo. E saímos para o ar livre das ruas.

GONZAGA DUQUE


Imagens

COPACABANA

À BEIRA DO LAGO

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CLARO-ESCURO SOCIAL

DAME A LA ROSE


Digitalização e transcrição de Arthur Valle

Atualização da grafia por Vinícius Moraes de Aguiar

DUQUE, Gonzaga. O Salão de 1906. Kósmos, Rio de Janeiro, out. 1906, n/p.

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