. DUQUE, Gonzaga. O Salão de 1906. Kósmos, Rio de Janeiro, out. 1906, n/p. - Egba

DUQUE, Gonzaga. O Salão de 1906. Kósmos, Rio de Janeiro, out. 1906, n/p.

De Egba

Edição feita às 18h35min de 11 de Abril de 2010 por Egba (Discussão | contribs)
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Nessa radiosa manhã de feriado, em que o sol, lembrando um soneto de B. Lopes, parecia:

........ um guizo de oiro, cheio

Da alegria sonora de uma rima...

desci vadiamenle para a poeirada da cidade em reconstrucção. Caras alegres, muita gente em casemiras claras, algumas mulheres bonitas. Radioso dia!

Na praça de S. Francisco do Paula encontrei o meu illustre amigo Polycarpo, todo dominical n’uma fatióta cinzenta, enfeitando a sua lapella com um ramilhete de hortencias, de fronte de achavascado brutamontes, vendedor de flores.

E’ bem de suppor que vossas excellencias, respeita­veis leitores, não conheçam o Polycarpo. Não se trata do hilare Polycarpo Banana, do Eduardo Garrido, nem de al­gum João Ninguem p’ra ahi assim. Eu vol-o apresento. E’ moço, creio que vae pelos trint’annos, no maximo. A estatura fica-lhe entre o baixo e o alto; arredonda-se-lhe o corpo no desfructo da boa vida, trás bochecas escanhôa­das, é moreno, usa bigode e pince-nez de myope em aros de tartaruga sobre o narizito ao vento, e unido a isso al­gum talento, algum dinheiro, umas cocegas literarias, [136] muita jovialidade e, se não fossem os seus arrebatamen­tos tropicaes, seria a mais adorável das companhias durante algumas horas.

Polycarpo, acollhendo-me jubilosamente, pregou-me logo uma rosa ao peito, e solicito como sempre:

- Qual o teu destino?

Encolhi os hombros; O que estiver escripto no immenso livro do Senhor Deus eterno.

Amigo Polycarpo coçou o queixo, farejou as alturas, depois, resoluto, tomando-me o braço: Vamos ao Salão.

- Perfeitamente. Ao Salão. Prestas-me um grande serviço, farás por mim a critica (ou coisa que a valha) dessa exposição. Se a não fizeres collaborarás nella, pres­tando-me a leveza do teu inexgotavel humorismo. Empres-tar-me-ás a nota original das tuas observações.

Ao Salão, amigo Polycarpo!

Em minutos alcançamos a Escola de Bellas Artes, em cujo atrio esbarramos com dois enormes gessos. Polycarpo pretendeu admiral-os, ao que me oppuz com o argu­mento considerável de que as grandes coisas devem ser guardados para o fim. Compramos as entradas e subimos.

Ao primeiro relance d'olhos algumas paizagens impressionantes, um Vasquez sobresahindo pelo vigor da sua factura, duas magnificas cabecitas de Columbano, uma firme caraça de negro por Thimotheo da Costa...

Particularmente Vasquez nos attráe. As suas quatro paizagens - Planalto de Theresopolis, Rio Paquequer, Ser­ra dos Orgãos, e Affluente do Paquequer, são magnificas. Esse pintor, que por tão longo tempo persistiu na obscuri­dade de uma voluntaria existência humilde, é das melho­res organisações artisticas que contamos entre contemporaneos. A sua visão apprehende syntheticamente, o seu colorido é quente, e ao mesmo tempo sóbrio, a sua maneira original. Não reproduz unicamente, interpreta, entra na expressão da natureza, funde-a com a sua alma.

[137] Passamos adiante.

Polycarpo endireitou as lunetas no narizito cheiradiço, alvejou um quadrinho. E’ uma linda cabeça de more­na, em perfil, curvando-se ao decote dos seios onde pousou uma borboleta azul. O avelludado do pastel da-lhe á epi­derme a maciez voluptuosa das pennugens nascentes, o reverbero do fundo, em vivos apotheosicos de alaranjados, illumina-lhe o contorno do perfil, a nudez do busto que parece feita de uma maravilhosa pelle de seda frouxa vivificada por beijos.

- Magnifico! - disse.

- Sim, magnífico! - concordei.

Olhamos, ambos, o catalogo. Tem o n. 8. e traz a assignatura de Arthur Lucas. Conheço muito este nome. Arthur Lucas é um bellissimo artista desviado do curso natural da sua tendência por circumstancias indebelaveis da sorte contraria. Pintor, e pintor por temperamento, fez-se caricaturista, lea-se illustrador, porque o genero lhe garantia a subsistência. Mas a sua qualidade nata de co­lorista, a sua grande vocação para a palhêta, ficou latente e, por vezes, rompeu obstaculos de tempo e compromissos para se externar em lindos paineis imaginosos, de uma suave fantasia de cores e de formas. A falta de tempo, porém, mantinha-o afastado das exposições. Felizmente aqui temol-o agora, provavelmente o teremos sempre e sempre com esse entrain, com essa viveza e poesia que o destacam em primeira linha dentre os expositores actuaes.

Polycarpo, na sua terrivel incontinencia meridional, fazia exclamações: Bravo! bravissimo!... Este é um ar­tista!...

Mas, como o catalogo indicasse outro quadro do mesmo Lucas, sob o n. 7, procuramol-o anciosamente. Lá está! E’ tambem um pastel. Sobre um fundo roxo, egual, sem nuanças, destaca-se outra cabeça de mulher, de uma sua­vidade sonhadora, quasi ideal. Tambem morena, e em [138] perfil, mas desse moreno tenue das magnolias que se vão fenecendo; da coroa escura dos seus quentes cabellos castanhos pende um véo transparente, que a envolve n’uma nevoa de visão e todo o seu busto, que é leve como as plumas, está encoberto por um leve tecido claro, em tons brandos de branco e cinza, harmonisando-se com a indecisão sentimental do seu semblante, que o gesto da mão, sobre a varêta do léque revela e inculca.

Polycarpo, commovido, sacóde-me o braço:

- Hein, que dizes?

- E’ um artista, amigo Polycarpo, é um artista que aqui está, para goso nosso e honra da patria.

- Caramba! Eu, se fosse do jury, dava-lhe logo vinte medalhas de ouro e duas viagens á Europa. Olhe você, que esse homem lá na terra de gente fazia figura.

- Não ha duvida, illustre amigo. Este Sr., Arthur Lucas, que é o infatigavel Bambino dos “calungas” do jornaes illustrados, entrou magnificamente nesta exposição.

Merece palmas de ouro e trompas clangorosas de victoria. Urrah! pelo Lucas.

Polycarpo, esquecendo-se da gravidade do logar, berrou escandalosamente: urrah!

Respeitáveis senhores tremeram, assustados; os biom­bos de panninho vermelho oscilaram.

E para não destruir a deliciosa impressão que me deram essas duas cabeças, interpretadas por uma alma de poeta, volvi os olhos para um sereno, fascinador retratinho de rapariga, assignado pelo extraordinario Aman-Jean. Polycarpo protestou em nome do seu feroz nativismo contra este meu acto: Alli, o que tinhamos a vêr, era o trabalho dos patricios... os estranjas, esses, não neces­sitavam do nosso julgamento, eram reputações feitas, eminencias na Arte... Olha aquilo, olha a nossa luz n'aquelle quadrinho.

[139] Apontava uma paizagem do professor Baptista da Costa, que descobriu o segredo de reter na téla a cor, a luz, o contorno pittoresco da nossa natureza. Passamos em revista as suas obras. Como sempre encontramol-a conscienciosa, seriamente feita. Mas, apezar de todas as boas qualidades que se poderá notar no seu grande qua­dro A’ beira do lago, preferimol-o nos quadros de menores dimensões, na Margem do Parahyba, na Paizagem do Leme, na Paizagem Mineira, em que não ha verdadeiramente composição do assumpto, mas reproduccão do observado. As figurinhas do primeiro não correspondem á inten­sidade emotiva do scenario. Desta opinião tambem parti­cipa o meu illustre amigo, o respeitável Polycarpo, que tem competência em assumptos de arte, pelo menos egual á que nós outros presumimos possuir e a bastante para ser ouvido e cheirado por nossas celebridades.

Assim foi que elle notou com muito critério o pro­gresso alcançado pelas Sras. Rachel Boher e Sarah del Vecchio, nos estudos de paizagem. Dessa ultima senhora ha um interessantinho quadrinho, a Ponte do Aquarium em que se revela a proveitosa influencia do seu professor, o já conceituado Baptista da Costa.

A Sra. Boher apresenta um bom estudo da praça Malvino Reis, em Copacabana, feito com muita segurança dos valores e do desenho. Essas senhoras, como as aquarellistas DD. Anna e Maria Cunha Vasco, promettem ser ar­tistas de real merecimento.

Do paisagista pernambucano Telles Júnior, de quem se occupou nesta revista, ha um anno, o Sr. Oliveira Lima, encontramos um quadrinho que se nos afigura insufficiente para constatar o mérito que esse escriptor lhe deu. O seu acabamento accusa maneirismo e, nos detalhes, vemos persistências que denotam difficuldades.

[140] O Sr. Dall’Ara dá-nos três estudos bem desenhados e intensamente coloridos. Muito bons.

Percorrendo o catalogo encontramos o nome do Sr. Bevilacqua [Eduardo] que, no anno passado, apanhou a medalha de segunda classe. Isso parece que o excitou beneficamente, porque no Salão de hoje os seus dois traba­lhos expostos são muito, muitissimo superiores aos daquelle anno.

Polycarpo chama-me, delicadamente, a attenção para a Infancia de Orpheu. A paizagem esta bem illuminada e os pinceis correram com largueza; a figurinha de Orpheu, se não fosse o desenho da perna direita, mormente do pé, seria feliz. Outro trabalho do Sr. Bevilacqua é um retra­to, em que se revela o seu desejo de progredir. E não ha duvida, fez um passo enorme! O retrato é bom pelo que respeita á pintura. Sem o censurar, eu desejaria a cabeça fosse mais consistente, mas a roupa, como accessorio, agra­da-me grandemente, assim como a distribuição da luz, feita com tal habilidade que dá um delicado interesse á figura.

- Neste caso...

- Se lhe deram medalha no anno passado é justo que lh’a deem neste anno.

- E este Sr. Carlos Chambelland?... - perguntou-me Polycarpo, diante dos Olhos curiosos.

- E’ um rapaz de grande talento, um bello artista que vem chegando. No Salão de 1905 expôz um bom retratinho, mais do que isso, um excellente retratinho.

- Mas,... estas duas figurinhas, que lá estão na praia... Com franqueza, não te parecem desageitadas?

Sim, não me agradam... sobre tudo, a do homem. Em todo o caso, Polycarpo amigo, ha muito ar neste qua­dro, e tudo é frescura, tem o ambiente maritimo, o horisonte é vasto,.. Repara bem nestas tres figurinhas femi­ninas. São d'après nature. E se queres conhecer mais o [141] valor desse moço, que muito promette, olha este retratinho. Póde-se-lhe dizer timido na pintura da cabecita, falta-lhe acabamento, vigor, mas repara estes olhinhos, como vivem, como elles fitam. Attende á este corpo á este vestidinho branco... Hein?... Aqui ha desenho, ha pintu­ra...

- Davas-lhe tambem uma medalha?

- Certamente, até a medalha de ouro!

E hás do convir em que a nossa pintura está cheia de promessas, que devemos aproveitar. Ha um numeroso gru­po de rapazes de talento.

- Por exemplo...

- Esse Thimotheo da Costa, o Arthur, irmão do outro Thimoteo. Aqui tens o Livre de preconceitos...

- Deveria ser: fóra das regras da arte...

- Nem tanto. Vejo que esta figura do mulher deitada num comoro de areia, está desarticulada, a perna esquer­da vem em curva para um plano errado, contrariando a posição do tronco quasi em escorço; vejo que a sua perna direita forma uma linha pyramidal que se desloca violentamente do resto do corpo...

- E que mais?

- Não obstante tudo isso, a composição é audaciosa, põe uma nota de rebeldia nesse meio...

- Começando por não significar cousa nenhuma.

- Espanta-me a tua intolerância, amigo Polycarpo.

- Eu tolero tudo, meu velho, desde que seja toleravel. Calcula tu que, sahindo d’aqui, um nephelibata nos agar­rasse e nos fizesse ouvir uma coisa mirabolante, pouco mais ou menos assim: A pompa triumphal do empavezamento cysnesco das galeras d’oiro, ardendo em explosões do minas arrebatadas sob o holophote do sol nascente, architectava Babylonias fluctuantes com festins de Balthazar nos monticulos movediços do corcoveante oceano... Seria isso tolerável?

[142] Emmudeci. O jovial Polycarpo quando escorrega para o sério é simplesmente formidável.

- Bem. E o que dizes deste violinista?

- Acho-o soberbo, é uma das melhores obras deste Salão. O Sr. Carlos Oswald trouxe para a pintura o talen­to com que o seu illustre pae cultiva a musica. Esta ca­beça está viva, não se póde negar; ha alma nesses olhos, essas mãos têem sangue, e músculos e nervos. Admirável figura! De resto, toda a obra desse moço ainda mesmo que pouco nos agrade, como a Magdalena, possue a marca do um artista, sente-se-lhe o calor da febre da composição. Quando não tivéssemos este extraordinário violinista, bas­taria a Triste para revelar essa individualidade que veio honrar a nossa arte com o brilho do seu merito. A mão desse moço tem a segurança de urn mestre, o desenho sáe-lhe certo e firme, a sua palheta possue um brio pouco commum, a sua tinta illumina com um raio ou suavisa e melancolisa como o luar; e em tudo está a sua alma de ar­tista, o seu poder do crear, de evocar, de conmunicar, A própria Magdalena, a que me referi, se tivesse por titulo - estudo, academia, nú - ou outro qualquer que o não determinasse, que o não fizesse um typo, seria optimo tra­balho. Magdalena! porque?... Em que esta figura indica a peccadora arrependida que acompanhou Jesus de Nazareth?... Será pelo acabrunhamento em que permanece?... Será simplesmente um nome de acaso, como seria o de Sylvia, Martha, Joanna?... Que nos importa a nós que uma mulher núa, sobre um divan, sem outros attributos que inculquem a sua origem, a sua raça, os seus costumes, se chamo Joaquina ou Rachel?... Pondo isso de parte, toda a obra desse moço é uma affirmação incontestável do seu talento e do seu saber.

O Sr. Oswald conquistou, com ella, um dos primeiros logares entre os nossos pintores e nesse logar conservar- [143] se-á, sem duvida, augmentando o fulguramento do seu nome para gloria da nossa pátria.

Outro artista novo que se nos revela no actual Salão é o Sr. Francisco Manna.

O seu estudo ao ar livre, o Claro-escuro social e a Lucta pela vida são obras que affirmam uma individualidade incipiente. Como interesse artístico preferimos o estudo ao ar livre e a Lucta pela vida ao grande quadro Claro-escuro social, mas em todos encontramos o mesmo sentimento da côr, a mesma facilidade de pintura, o mesmo cuidado de desenho. O Sr. Manna é o mano dos nossos bons artistas.

De repente, Polycarpo berrou um - oh! - escanda­loso. Duas modestas senhoras que, acommodadas em ca­deiras, olhavam somnolentas o retraio do infeliz Dr. Au­gusto Severo pelo fallecido e modestissimo Franco do Sá, estremeceram, aterrorisadas. Corri para o meu illustre amigo: Que é!

Elle não se podia conter, estava vibrante; agarrou-me pela cintura, arrastou-me violentamente para o logar em que se achava, e n'uma ancia admirativa repetia-me:

- Admira, admira isto! Admira.

Era a Dame a la Rose, de Belmiro de Almeida.

Sim, deviamos admiral-a. Realmente, essa pintura de­monstra um profissional completo. Alli tudo foi attendido: o desenho, que é certo, macio, reconstruidor; os tons, que são magistraes nos seus valores; e a expressão, que se nos communica e vive e attráe. Olhamol-a demorada­mente.

A linha esguia desse corpito, vestindo tecidos negros, move-se n’uma graça serpentina e tão nervosa e magra ella é que lembra uma tulipa negra! Sobre a fragilidade do pescocinho a cabeça volve-se para nos sorrir - descobre-se-lhe, então, a insidia do olhar que nos fascina, a feitiça­ria do sorriso quo nos entontece. E’ uma viva figura, umma admiravel figura que, enthusiasmando Polycarpo, lhe ar- [144] ranca da originalidade esta phrase, em que esta caracterisada todo o exquis do modelo: Bizarro louva-deus da moda!

Belmiro é o mesmo artista de ha dez, de ha quinze annos passados. A sua pintura conserva o encanto do asseio, da precisão, da certeza que a sua pratica adquiriu e a sua índole cultivou. E neste quadrinho d’Amuada, que ahi está, encontramol-o com as mesmas qualidades de ri­goroso desenhista e fino pintor que levaram o seu nome ao mais alto conceito entre os nossos artistas.

Do mesmo modo se mantém na elevada reputação conquistada os Srs. Treidler com suas bellissimas aquarellas, Visconti com um adorável Segredo, que fez parte de uma collecção exposta ha annos e Weingartner sempre delicadamente meticuloso; Raphael Frederico expõe uma paizagem, um tanto prejudicada pelo plano direito em que ha um rio demasiado para o bom effeito do quadro. E... Mas, o amigo Polycarpo começa a sentir fadiga. E’ sua opinião que já vimos o que deviamos notar, o mais que o admire quem tiver tempo.

Partimos para a sala de esculptura. Como sempre po­bre e fria. Correia Lima, que nos podia commover com o seu bello talento, contenta-se em expor um busto-retrato do almirante Mello e outro gesso, o Trabalho, innegavelmente modelado com o saber de que ha dado sobejas provas. A Sra. Nicolina de Assis apresenta um busto-retrato, em bronze, bem feito e o projecto de uma fonte; o alumno Cunha Mello agrada-nos muito com o seu gesso, retrato de A. C., realmente interessante. Ainda Belmiro de Almeida nos surprehende com uma cabecinha em bron­ze, retrato do Dr. G. B. e a Sra. Julieta França, recem-chegada da Europa, diz-nos por sete trabalhos o aprovei­tamento do seu tempo de pensionista da União. Nesses sete trabalhos ha um busto em bronze, retrato, dois [145] em gesso, tambem retratos, a maquette de um monumento da Republica e mais duas grandes composições.

A maquette possue uma bonita linha monumental e para julgarmos satisfatoria ás nossas exigências deseja­ríamos que as figuras do pedestal em vez de isoladas, ti­vessem connexão entre si, formassem um conjuncto, rom­pendo assim com a forma clássica e dando-lhe maior im­portancia inventiva. Das suas composições deixo ao illustre Polycarpo o encargo de as julgar. E, portanto, dou-lhe a palavra. Amigo, dize tu o que pensas desses gessos.

- O que penso? Com franqueza, inclino-me sympathicamente para a obra dessa esculptora, a sua predileção pela nudez é uma prova de applicação. A grande esculptura é o nú. Mas, a Sra. Julieta, não sei porque, não se dá ao trabalho de amadurecer as suas concepções, parece que tem a soffreguidão de produzir. Si ella houvesse pro­cedido com maior tino na composição da Confidencia, ve­ria que o assumpto não se prestava á grandeza dada ás figuras nem deveria ser este o modo de agrupal-as. Ha precipitação em tudo isso. Mais lentamente, para dizer melhor - mais amadurecidamente, o assumpto se lhe apresentaria de outra maneira; as figuras, pelo razão do titulo, completar-se-iam num conjuncto mais esthetico e tambem mais verdadeiro. Haveria, pois, outra expressão. Este defeito resalta também do Filho Pródigo. A posição da figura não nos indica o momento nem caracterisa bem o indivíduo. Se lhe escrevessem no soco, em logar de Rêve de l'enfant prodigue, Sonho de Jacob ou Fadiga ou Sésta do pastor, olhariamos para elle com a mesma emo­ção. O que lhe falta, como falta a Confidencia, é a inter­pretação, é o “flagrante”, que, numa simples mirada, tudo nos revela. Pensado, reflectido, estudado o assumpto, te­ria a esculptora alcançado o quanto pretendeu. A inspira­ção fica na primeira maquette. Se o genio a bafeja, essa maquette será extraordinária, mas se a idéa apenas resul- [146] tar de uma especial disposição de temperamento, é pre­ciso pensar muito, fazer e refazer, estudar pacientemente para encontrar a sua expressão exacta.

Assim falou Polycarpo. Sorri-lhe, estendi-lhe as mãos: Obrigado, amigo, obrigadisimo. Em nome da arte, obrigadisimo.

Agora, á Vida!

A’ Vida! - Confirmou Polycarpo. E sahimos para o ar livre das ruas.


Imagens

[COPACABANA] [Baptista da Costa]

[À BEIRA DO LAGO] [Baptista da Costa]

[OLHOS CURIOSOS] [Carlos Chambelland]

[CLARO-ESCURO SOCIAL] [Francisco Manna]

[DAME A LA ROSE] [Belmiro de Almeida]


Digitalização e transcrição de Arthur Valle

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