. DUQUE, Gonzaga. O SALÃO DE 1904. Kósmos, Rio de Janeiro, set. 1904, n/p. - Egba

DUQUE, Gonzaga. O SALÃO DE 1904. Kósmos, Rio de Janeiro, set. 1904, n/p.

De Egba

É difícil fazer-se uma classificação dos trabalhos do atual Salão, e a não ser por uma demasiada boa vontade ou um esnobismo perdoável, por inofensivo, talvez escorrido em moldes galantes de um viver menos rude que o costumário, poder-se-ia dividir os expositores em grupos de escolas e determinar-lhes, com visos do acerto, as tendências estéticas.

Mas, se as notas, por ventura justas, de um rabiscador do crônicas, habitualmente desajeitadas e pretensiosas, obtiverem atenção de alguém e da sua emissão se derivar conceito, direi que, nesta exposição como nos anteriores Salões, só encontro pintores de figuras e paisagistas, porque na maneira do interpretar os assuntos e de os fixar a igualdade é quase completa, com desconto das habilidades.

Daí, pois, um limitado modo de ver, que se restringe ao mérito pessoal de cada expositor, e que se irá desdobrando na ordem estabelecida pelo registro das impressões.

Começarei pelo professor Amoêdo. O escritor ilustre das “Notas de Arte” do Jornal do Commercio, o Sr. Carlos dos Santos, já notou que esse artista, de um tempo a esta parte, preocupa-se mais com o processo material de pintar que com os temas de pintura. É uma observação exata. Mas, por se lhe conhecer esse foro, não se lhe deve carregar na censura, porquanto o rebuscamento do grande artista, que é dos que mais honram a nossa pobre Arte, tem um alcance de alta valia diante da rápida perecibilidade ou transformação dos materiais modernos. A nossa pinacoteca conserva quadros que, contando poucos anos de existência, mudaram de cor, entre esses alguns do professor Amoêdo, os quais, se não perderam de todo o seu brilhante colorido, sofreram consideráveis modificações nos tons.

Com esse notado rebuscar terá o ilustre mestre acertado? Não o sabemos, nem ele próprio o afirmará. Verdade é que a pintura a ovo, que ora nos apresenta, essa cativante, essa belíssima Cativa que nos surpreende e nos imobiliza em contemplação, parece assegurar um vantajoso substitutivo do óleo. A volúpia da epiderme, a nuança quase imperceptível dos tons da sombra para a luz, a delicadeza da coloração quente desse corpo moço de mestiça, que ali temos, desnudado da cabeça à cinta, e que a posição frouxa do descanso assentado mais dificulta a verdade do modelado, o artista venceu admiravelmente por um processo que ilude, que reproduz de modo incomparável.

A maciez dos seios túrgidos, tão fina, tão nítida que desafia o tato, a anatomia dos ombros, o flácido peso do ventre e a perfeição da cabeça em que reluzem toques claros de sol, sendo marcas dos pincéis do mestre, parecem ganhar por essa tinta uma vida mais intensa, a que o brilho dos vermelhos do fundo e do pano do regaço realçam com o vigor dos celebres vermelhos flamengos.

Tal processo, feito por quem sabe, é incontestavelmente magnífico, mas, quanto à sua durabilidade, só o tempo a poderá provar. O que é exato é que a procura do processo nos ofereceu a oportunidade de admirar uma obra inestimável, cuja diminuta dimensão mais delicada, mais deliciosa, mais bela torna a figura pela perfeição do acabamento, desde os valores, o desenho anatômico da forma, a verdade da cor, até a expressão da cabeça, onde ha um quer que seja de indiferença e orgulho, de passividade e ousadia.

Mas, não se limitou o professor Amoêdo a pintura a ovo, rebuscou a restauração da encáustica, por seus dois processos - a pincel e a ferro. A esses dois modos expõe a Oração, que é do primeiro e uma cabeça-retrato, do segundo.

A Oração, que reproduzimos com estas linha, é um busto de rapariga elegante em contraste com a claridade de uma vidraça a que se encosta.

Não tem a posição comum das rogadoras, é uma original postura que se coaduna com o título pela expressão do rosto.

Oposto à claridade da janela, todo o seu busto está numa penumbra em que se estabelece a finura dos tons macios, em verde brando, de suas vestes à moda.

A cabeça, que se lhe inclina à esquerda, sobre os mãos enclavinhadas ao de leve, lindas mãos aristocratas que algo recordam a Marcha Religiosa de Edmundo Hanracourt - a cabeça tem uma dulcíssima expressão de prece, de religião elegante e aliviadora, em que o balbucio da Ave, Rainha! se exala duma boca perfumada a Tsen-Tsen... É de luz, como uma carícia ou um socorro que lhe chega, apenas um beijo sobre o contorno oval da face, sobre a pálpita [sic] narina esquerda e no semicírculo da trunfa dos cabelos, contornando-a, como um halo, em revés.

Esse processo, porém, se nos apresenta muito secco. Não possui o aveludamento do pastel nem a tonalidade pastosa da pintura à ovo. Os vermelhos, sobretudo, ganham com ele uma resistência áspera de argila ressequida, como se nota na cabeça-retrato. Na Oração, seja pelo recurso do meio tom e pela ausência de vermelhos francos, seja pelo recurso dos pincéis, essa dureza não se acusa tão insistente.

O óleo, e também o ovo, dão resultados mais seguros, reproduzem melhor a realidade. Do mais, o óleo é um processo que atingiu a máxima vulgarização, é o material comum, que se maneja desde as primeiras pinceladas.

E é por isso que os cinco retratos apresentados pelo professor H. Bernardelli não fazem o amador vacilar, impressionam-no logo ao relance dos olhos. O do pianista Arthur Napoleão e o do pintor Modesto Brocos, apesar de não me ser possível garantir a exata, semelhança com os originais, tem todas as qualidades das obras completas. O primeiro, sobre a excelência da pintura, é um rico trabalho, audacioso pela massa negra, formada pelo piano e pela roupa do retratado, donde se destaca a cabeça viva, extraordinariamente animada do velho mágico do teclado. A expressão do seu olhar deve ser aquela, porque toda a realidade vive naquela pupila do seu característico perfil. E o mesmo pode ser dito de todos os outros, desses maravilhosos transportes do real para a tela, que são a prova do soberano domínio da palheta em que as tintas se transmudam em sangue, em epiderme em ossamenta, em alma, com que o artista recompõe na imagem o que vê e o que quer.

Não obstante considerá-lo um mestre, e prezá-lo com toda a admiração que o seu talento me desperta, não posso calar a estranheza que me alfinetou de sentir o belo retrato de Mme. O. L. fora do ambiente, como se o accessório paisagenado, que o cerca, não lhe tivesse servido de local.

Na paisagem e mesmo, diremos, nesta exposição, a par dos dois mestres da pintura brasileira, quem mais atrai os olhos do visitante e lhe põe exclamativas encomiásticas no cérebro é João Baptista, já conceituado pintor da nossa natureza, com seus oito trabalhos e, especialmente, com o seu grande quadro - Fim de Jornada.

A caracterização da nossa paisagem, a que ele nos acostumou e que seus pincéis dia a dia vão conseguindo fixar da maneira mais impressionante, esse inconfundível, por ser híbrido, sentimento de força e de melancolia que ressumbra da natureza, por ele interpretada e ao demais o brio, a luminosidade de suas tintas fundem-se nesse quadro, e dele fazem uma bela obra de verdade e de arte. É lhe assunto a primeira hora do crepúsculo vésper, momento em que o dia começa a se diluir, brandamente, na água-tinta violeta da noite para o negrume ciciante das desoras. Do céu, do azul esmorecido, caem os últimos lampejos do sol, que iluminam, obliquamente, em rasgões d’estertores, árvores, aclives verdejantes de terreno, afastados fofos de capoeira, algodoamentos nublosos do horizonte que, à luz d'envés, se tingem de róseo quente e lilás intenso. Jorrando em transversal, d’alto para baixo, a escambante luz deixa em tênue penumbra roxa o extenso primeiro plano do quadro, onde rasga o verde da rama rasteira o filão chato e largo da estrada. E lentamente, com o fixado movimento tardo das fadigas, passa a carreta chiante dos bois, a que o alívio do peso faz apenas ringir no esboroar dos socalcos e nos solavancos dos pedregulhos. O candieiro, de varapau no ombro, vai norteando as duas juntas ruminantes, e o carreiro, moído das estafas, descansa no lastro da carrada, que venceu d’um salto e onde se pojou sobre o rebordo, do qual lhe pendem as pernas quase nuas, cruzadas, em abandono característico. Sobre o sulco das rodas, vem descendo a gente do trabalho, a velha negra, de samburá às costas e, ao seu lado, a netinha mulata que começa a lhe ajudar na lavoura, a filha, o genro, toda a família que luta pelo sustento arrancando à terra o precioso à vida... E no fim da estrada a porteira fechou-se. O dia é findo. Do telhado, que emerge das frondes dum recanto, evola-se o fumo subtil da lareira, o descanso chegou e já ao fundo, para além dos marcos da morada, o capeirão florente de quaresmas e ipês se densa em mistérios de quebradas, aromatizando com o suor acre de suas resinas e o transudo afrodisíaco de suas folhagens toda a várzea em silêncio...

Essa magnifica paisagem tem o poder emocionante da hora e prende o olhar de quem a nota, fixando-se-lhe na câmara ótica, e lhe dando o interesse da natureza por um descer de tarde, sob a incomparável poesia dos campos que a alma recebe com um largo, um imenso hausto de consolo e pureza.

Sobre este mérito ela reproduz bem aproximadamente o caráter da paisagem fluminense - a roça - que não é o bravio sertão nem a mata virgem, mas um meio termo entre o vilarejo e a floresta, intermédio à cultura de uma civilização meã e á rusticidade fecunda da natureza livre, onde o homem é o que ali está representado naquelas figurinhas, gente simples de trabalho, produzindo a lavoura como as árvores do pomar produzem os frutos e como essas, quase idênticas a elas, vivendo da Terra, amando-a, tomando-lhe a cor, e bem notadamente também os aspectos, e sendo, em verdade, seu produto, tão legitimo como os seus vegetais!

Esta conseguida qualidade, já notável, de reter na tela a feição da nossa pitoresca paisagem (a do Rio, São Paulo e Minas) está constatada em todos os demais quadros de João Baptista reunidos na exposição de hoje, e dentre eles destaco o de n. 19 (Copacabana) e de n. 15 (Manguinhos) que são belos.

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Como sempre, a paisagem está largamente representada e tem, no atual salão, o primeiro lugar pela qualidade.

O conceituado Sr. Benno Treidler expõe uma Manhã de Sol, que não faz esquecer as suas aquarelas, ao contrário, aumenta-lhes o mérito porque, nesse indicado quadro, o perito manejador das manchas perdeu a precisão dos valores. O Sr. Jorge de Mendonça, um novo, alcançou uma das menções honrosas com a sua Pedra do Mirante, realmente digna disso pelo vigor da pincelada e pela observação da cor. Com uma boa impressão intitulada Pela tarde apresenta-se o Sr. Augusto de Freitas, e o Sr. Evencio Nunes nos oferece aos olhos uma bem desenhada paisagem de n. 76 porém mal atendida, como pintura, no primeiro plano e uma Lavadeira que, pelas dimensões do regador deve ter dilatada freguesia e rijo pulso para a luta romana, não obstante o cuidado que o probo artista dispensou à figura e a alguns detalhes do quadro, que me parece demasiado minucioso. Essas observações, porém, não desmerecem seus dotes de artista consciencioso e bom colorista.

Do Sr. Dall’Ara vi uma aparatosa brigada de cores, em parada, com pretensão a paisagem; o que contrasta com a sobriedade da palheta do Sr. Luiz Ribeiro, que é um atento trabalhador. O Sr. Araujo Froes teria conseguido um bom quadro com o Caminho da Igreja, se não fosse amaneirado, e o Sr. Eduardo Bevilacqua, que esta se fazendo um forte artista, também impressionaria melhor se não enegrecesse tanto as suas paisagens.

Entre os expositores aparecem o Sr. Honorio Esteves com um interessante estudo da Estrada de Jurujuba, e um considerável grupo de senhoras ou senhoritas.

As senhoras... (Como eu implico com esta palavra, neste particular! É fofa, tola, convencional. Tem alguma coisa de pieguice e muito de ranço da burguesia aristocratizada. Por que não dizer mulheres, que é uma palavra dignificadora?...) As senhoras - vá lá repetirei - que se exibem na paisagem e outros assuntos a óleo, devem ter desvanecido seus mestres, porque, sinceramente, merecem elogios.

A Sra. Eulalia do Nascimento (discípula do A. Parreiras) tem um recomendável estudo de interior de igreja, em que a perspectiva planimétrica foi vencida com grande habilidade, atenta, como deve ser, a monotonia desse interior todo branco, sem uma violência de cor; e se não fosse um esquisito, desengonçado ou esparramado genuflexório que um mau instante lhe fez colocar ao centro da nave, teria obtido um magnifico estudo. Ainda assim é bom. Compensam essa pequena infelicidade seus quadros - A Ponte, Na roça e a paisagem de n. 75 que são muito bem estudados.

A Sra. Irene Ribeiro (disicipula de R. Amoêdo) trocando a paisagem pelas frutas e pelas figuras, expõe um agradável retrato do Mme. L. L. e a Sra. Nina Santoro (discípula de M. Brocos e R. Amoêdo) também um bom retrato. Da Sra. Angelina de Figueiredo (professor A. Parreiras) há um atendido estudo com o titulo Nossa Casa, e, com dois trabalhos, apresenta-se a Sra. Marietta de Figueiredo (professor A. Parreiras) sendo um deles, o Portão de nossa casa, cuidadosamente estudado, mas infelizmente prejudicado pelo desazo de uma tinta neutra, creio que sombra de Cassel, que alforra o primeiro plano, à esquerda, tornando-o desagradável e falso.

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Eliseu Visconti, que é um dos mestres da nossa pintura, por falta de tempo ou pela moléstia que o levou à Europa, concorre com poucos trabalhos e de restrita importância. Em pintura a óleo apenas dois estudos de cabeças feitos com a delicadeza de sempre e com aquela frescura de ambiente a que nos acostumou nos seus ar-livres.

O Sr. Teixeira da Rocha expõe duas paisagens, a de n. 202 - paisagem com figuras (Vila Isabel) e a do n. 201, paisagem com cabras - segundo a singular denominação do catalogo. Prefiro a primeira pela luz, pelo ar e pela cor. A segunda é um tanto compacta, como pintura, posto que bem desenhada.

Na maneira desse artista encontro excesso de detalhes que, não raro, lhe dá aos quadros um quer que seja de pontilhamento, de mouchisme, como dizia o infeliz simbolista Aurier. As suas paisagens, essas que estão no Salão, e outras que ele tem exposto, apresentam-se muito cortadas, muito cristalizadas - direi - se o termo pode ser bem apreendido na sua accepção. O que nele mais se recomenda em primeiro lugar é a cor, pelo que respeita à pintura, e depois a fidelidade detalhista pelo que toca ao desenho.

Essas duas qualidades melhor são aproveitadas nos seus quadros de gênero, como esse de n. 199 (interior com figuras) - (sic) cuja composição é bem feita, o que nem sempre se nota nos nossos pintores de costumes. O grupo do quatro figuras, de que se compõe o quadro - uma moça mãe tendo ao regaço o filhinho novo, e rodeada de dois adolescentes - é arranjado com habilidade, consegue interessar pela expressão de curiosidade que inculca, porquanto se forma para excogitar, através uma larga vidraça, qualquer cena que se passa fora. Com esses quadros o Sr. Rocha expõe também um painel ou, como explica o catalogo - paneau decorativo - sob o titulo Inspirado, em que há felicidade de expressão. É um busto de menino em perfil, que ergue a destra armada do um pincel para fixar uma imagem na tela. O conjunto pela cor, e pelo accessório, é agradável, corresponde ao intento do trabalho.

O professor Modesto Brocos, em pintura a óleo, só expõe um quadro intitulado Cena Doméstica, pintado com o saber que todos lhe reconhecem, mas despido de interesse estético. Pode ser que lhe não faltem admiradores, e até entusiastas!... eu, por mim, é que lhe não baterei as palmas nem aos que o copiarem, pois, sobre achar fria, desajeitada e banal essa Cena Doméstica, não compreendo o deleite que à estesia de um artista poderá dar semelhante colocação de figuras, a que falta visivelmente naturalidade, e falha a composição do assunto.

Essa maneira foi usada por Almeida Júnior, que havia perdido as excelentes qualidades técnicas da estreia para se transformar num pintor pastoso, amaneirado e duro. Obteve, porém, sucesso e não pequeno. Chegou a fazer discípulos. Mas, considerada a nossa incultura estética e essa intermitente pretensão de fundamentar uma arte nacional com a pintura de costumes, o exemplo poderia ser acolhido, e atenuado pelo apuro educativo dos novos artistas.

Agora quem lhe segue a traça, sem se reoccupar com a correção do principal defeito, é o professor Brocos e na Cena Doméstica tem mais uma infeliz tentativa, como já teve nos Filhos de Cham [sic], não obstante seus reconhecidos méritos de pintor e desenhista.

Também com um quadro de gênero evidencia-se no Salão o Sr. Rodolpho Chambelland. Esse não é professor nem é ainda um artista livre dos conselhos do mestres, mas a sua Noite de espetáculo possui composição e, sobre ser um esforço técnico de efeito a duas luzes artificiais, tem o encanto do assunto eurítmico. Descontadas algumas pequeninas precipitações de neófito, entre as quais o exagero iluminado das portas ao fundo do quadro e o enluaramento da luz eléctrica que lhe escapou em parte, são tantas as suas boas qualidades que bem merece a importância obtida.

O seu desenho se vai acusando duma firme elegância, sobretudo no que respeita à composição, dá-nos nítidas e movimentados figuras que a palheta completa. Há nesse quadro efeitos muito bem reproduzidos, como o da lanterna do coupé sobre as costas do cocheiro e nas ancas dos cavalos, e em tudo um capricho, um asseio de pincel que o recomendam para o futuro, posto que, desde já, se lhe possa predizer uma certa tendência para o chic, como esse assunto indica e como ainda se observa no bom retrato a pastel exposto sob o n. 48.

O Sr. Lucilio de Albuquerque, que há de ser outro artista de amanhã, expõe dois pasteis e dois quadros a óleo, sendo um desses um bonito retrato de senhora, tratado com largueza no busto e louvável minúcia na cabeça.

O Sr. João Macedo (prêmio de viagem, 1900) entre algumas paisagens observadas com cuidado, expõe uma Porangaba, inspirada em Juvenal Galeno, cujos versos estão transcritos no catalogo.

É um fundo de paisagem e no centro do quadro, deitada sobre a relva, uma cabocla de face pendida ao chão, em atitude acabrunhada.

Ha alguns anos que os nossos pintores não se lembram dos caboclos, vício implantado pelo indianismo da Gonçalves Dias e Alencar.

Escritores de outra geração, que se ocuparam do belas artes, nomeadamente Aluizio de Azevedo e Urbano Duarte, fizeram-lhe troça; e já me não recordo quem foi que disse ou escreveu que o caboclo, em pintura, era como o sabiá na poesia, sujava o assunto.

Não serei dos mais adversos ao caboclo como assunto pinturesco, não o considero menos estético que o caipira; ao contrário, por sua nudez pode ser boa academia, desde que não falte talento ao artista para saber colocá-lo no quadro. Mas, o que devemos exigir, é que o caboclo seja realmente caboclo e não se pareça com os selvagens dos romances nacionais, que aprenderam retórica em artinha de padre-mestre. Ora, todos os pintores que tem tomado por tema esse bicho humano, que é o caboclo, não se dão ao trabalho de o reproduzir talqualmente [sic] ele é; fazem-no de cera da terra ou de barro cozido, argamassam-no consoante suas próprias habilidades de artista e seus recursos imaginativos. E daí uma caboclada pelintra, rebolante ou escanifrada, que nos desafia a ponta dos botins.

O Sr. Macedo incidiu no mesmo tipo, caiu no mesmo erro, e nem sequer nos fala à alma pela melancolia do quadro como o velho Sr. Medeiros com a Iracema, que o pinacoteco conserva. Se o Sr. Macedo é moço cordato, e bem intencionado, pedimos-lhe o obséquio de se deixar de caboclos, machos ou fêmeas, porque da sua arte, Sr. Macedo, esperamos cousa mais meritória.

Raramente os que produzem muito são os que melhor trabalham, e é o caso do Sr. J. Fernandes Machado (prêmio de viagem, 1901). O Sr. Machado apresenta uma grande quantidade de quadros, sendo um deles de grandes palmos - Cristo curando um paralítico.

A pintura do Sr. Machado me parece apressada, falha de emoção e por demais comum. Da numerosa obra exposta apenas destacarei a Primavera (Bois de Vincennes) e o de n. 120 (Repouso e Estudo) que nos deixam alguma impressão.

É de lamentar-se que, este ano, dois originais artistas como são Heitor Malagutti e Helios Seelinger estejam tão mal representados! A Malagutti faltou a resignação de se subtrair ao certame artístico, ao Seelinger uma boa amizade que o aconselhasse.

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AQUARELAS - À parte os professores H. Bernardelli, Brocos e Treidler, que expõem trabalhos já conhecidos na áltima exposição dos Aquarelistas, notei duas finíssimas aquarelas de Elyseu Visconti, Leitura e Paisagem.

A primeira é um delicado estudo de cabeças adolescentes que atendem a um livro, a segunda uma boa manhã de sol entre névoas, feita com o asseio de colorido e a funda emoção que caracteriza esse grande, forte, original artista.

As senhoritas Cunha Vasco (Anna [Anna Cunha Vasco] e Maria [Maria Cunha Vasco]) não perderam a oportunidade de exibirem seus conscienciosos trabalhos do paisagistas, onde as recomendáveis qualidades do professor Treidler vão sendo, progressivamente, assimiladas por duas naturezas dotadas de alto instinto estético. E não lhes teço elogios por urbanidade ou deferência às prerrogativas do sexo, pois não conheço tais prerrogativas em letradas, literatas e artistas, além da minha razão se opor a todo o transe aos salamaleks da cortesia quando o dever me reclama a opinião.

O Sr. Luiz de Freitas é tambem expositor de aquarelas, e são de suas mãos trabalhadoras o Jogo da Marra e o Escrivão Publico que nada perderiam se tivessem mais um pouco de vigor.

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ESCULTURA - É pobre, é paupérrima, mais que isso - é desalentadora a escultura no Salão deste ano.

O professor R. Bernardelli apresenta num pequenino bronze o retrato do Dr. G., de que nada se pode dizer, atendendo-se a extraordinária técnica do artista que é inexcedível nesse gênero, e à nenhuma qualidade de composição do trabalho.

O Sr. Amadeu Zani (de São Paulo) expõe dois pequenos bustos, retratos do Dr. Prudente do Moraes e do Senador M. B., e um baixo relevo em bronze, todos tratados cuidadosamente.

E Corrêa Lima, o emocionante escultor de Mater Dolorosa, o vigoroso artista do Velho Pagé, do Prisioneiro e do Caim', três pequenos e admiráveis bronzes, apenas nos apresenta um gesso sobre o titulo - Menino - que só poderia recomendar o nome de um principiante.

É desalentadora a escultura, neste Salão!

Setembro de 1904.

GONZAGA DUQUE.


Imagens

PROFESSOR R. AMOÊDO - ORAÇÃO

JOÃO BAPTISTA MEDALHA DE OURO FIM DE JORNADA

J. BAPTISTA - ESTRADA DA ESTAÇÃO (MANGUINHOS)

R. CHAMBELLAND - NOITE DE ESPETÁCULO - MEDALHA DE PRATA


Digitalização e transcrição de Arthur Valle

DUQUE, Gonzaga. O SALÃO DE 1904. Kósmos, Rio de Janeiro, set. 1904, n/p.

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