. DEMORO, Lauro M.. A EXPOSIÇÃO GERAL DE 1924. O prêmio de viagem – O titanismo em pintura. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 24 ago. 1924, p. 3. - Egba

DEMORO, Lauro M.. A EXPOSIÇÃO GERAL DE 1924. O prêmio de viagem – O titanismo em pintura. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 24 ago. 1924, p. 3.

De Egba

Da mocidade que, cheia de entusiasmo, concorre à presente exposição, comunicando-lhe algum brilho e dando uma demonstração sincera de que deseja ir adiante, Oswaldo Teixeira é o vanguardeiro. Sua contribuição é a mais interessante, a mais digna de comentários, atraindo as atenções gerais, despertando expressivas admirações. Representa o resultado de esforços acumulados durante alguns anos, empregados com uma constância admirável pelo expositor jovem ao estudo e a observação, agora em toda pujança se refletindo em uma série de obras fortes, que o acreditam entre os vultos relevantes do meio artístico brasileiro. Depois do êxito do “Homem da Rosa”, tendo estacionado, Oswaldo Teixeira reaparece agora com um lance a que deu todos os recursos de sua execução, numa arremetida irretorquível.

Apresenta-se ao prêmio de viagem à Europa com sete telas, retratos e composições, onde mais uma vez põe à prova as suas qualidades de figurista senhor de uma técnica segura, amiga de detalhes. É um pintor clássico, notadamente no retrato do Sr. Augusto Petit, e no “Brindando”, que juntamente com o “Pescador” se impõe ainda – e aí está a sua melhor qualidade – pelo forte sabor característico, de que ambos estão impregnados à saciedade. Nessa última tela o artista enquadrou um trecho ensolado da praia carioca, onde vêm morrer, se desfazendo em espumas, as ondas brandas, quase ao pé de uma figura jovem e rude que lhes percorre todos os dias o dorso incerto, na labuta árdua da pescaria.

Está sentado na areia, um pedaço de rede sobre as pernas, muito queimado de sol, sob o grande chapéu de palha, esse tipo que pena de Lotl certamente haveria de amar o que o pincel de Oswaldo fixou tão brilhantemente num ambiente onde extravasam as pompas do seu colorido vibrante e justo, numa semelhança com Sorrolla.

“Brindando” é um quadro de distinção.

A figura afidalgada se fez admirar, sobretudo pela expressão fisionômica e em toda a composição o pintor mostra a cuidadosa segurança com que trata as menores coisas, procurando seu harmonioso equilíbrio, e, principalmente a verdade, não esquecendo nem manchas de vinho derramado em toalha.

A parte de natureza morta está no mesmo plano de brilhantismo com que foi marcada essa figura, cujos tons de leveza encantadora, são dados pelas plumas caídas voluptuosamente sobre a copa do chapéu medieval.

Oswaldo Teixeira já pisa o grande caminho que só aos eleitos é dado percorrer.

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Juntamente concorrem, com o autor de “Boas Notícias”, ao prêmio de viagem à Europa, os Srs. Garcia Bento e Armando Vianna.

Garcia Bento, que tem um nome firmado de marinhista, apresenta quatro telas desse gênero, evidenciando às suas virtudes já reconhecidas as de um técnico honesto e as de um colorista que opera com discrição, mais preocupado com o lado emocional que lhe sugere a natureza.

Sabe senti-la, traduzindo-a, às vezes, com certa frieza, ma sempre com personalidade.

Suas telas são lançadas magnificamente com largueza e denotam os conhecimentos valiosos de que é dotado o pintor também jovem, também digno de merecer confiança pelo futuro que o espera, como a todos os do seu estofo, os que trabalham com sinceridade e sem alardes.

Garcia Bento parece desdenhar a figura, preferindo inteiramente o gênero em que nestes últimos tempos se vem singularizando de maneira notável.

Seu quadro “Mau tempo”, trabalhado com muita emoção, numa figura de toque admirável, basta para revelar um talento e afirmar uma personalidade.

O terceiro concorrente, Armando Vianna, expõe dois retratos e duas composições.

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Dentro em breve um júri, a que se apresentam três expositores, terá de pronunciar-se sobre o prêmio da viagem à Europa, decidindo quem dentre eles atravessará o Atlântico com uma pensão do governo brasileiro.

Esse pronunciamento, como aconteceu ainda o ano passado, costuma interessar, além dos próprios concorrentes, o meio artístico brasileiro, em tais ocasiões inteiramente preocupado com a exposição geral, que representa o seu maior acontecimento, enchendo de uma certa animação o ambiente acanhado onde tenta o seu desenvolvimento.

E pelas galerias quietas, onde se mostram os produtos da nossa coletividade artística, já começam a fervilhar a propósito os comentários infalíveis, muitos traduzindo ponderáveis opiniões.

Comentários e opiniões, francamente acusando duas correntes opostas, sem felizmente denunciarem um possível entrechoque, visam dois nomes: Oswaldo Teixeira e Garcia Bento.

Ambos apoiados em obras vigorosas e interessantes, cada qual prestigiado por méritos pessoais e atestado em um passado curto, e, por isso mesmo, revelador do quanto tem trabalhado, ambos, por um direito de conquista que intimamente lhes enche de esperanças, ambicionam o prêmio, valorizado assim pela incógnita da disputa. E tudo faz crer não se transforme afinal em pomo de discórdia...

Lauro M. Demoro.


Imagens

Marques Júnior - "Adormecida"

Oswaldo Teixeira - "Brindando"

Orlando Teruz - "Últimos Retoques"

Garcia Bento - "Marinha"


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

DEMORO, Lauro M.. A EXPOSIÇÃO GERAL DE 1924. O prêmio de viagem – O titanismo em pintura. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 24 ago. 1924, p. 3.

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