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DEMORO, Lauro M.. ARTES E ARTISTAS. A Exposição geral de 1924. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 17 ago. 1924, p. 5.

De Egba

A Exposição geral de 1924

Fica-nos como impressão dominante do Salão um ousado arremesso de juventude.

Naquelas salas pouco afeitas às claridades das grandes ideias e à majestade das fortes realizações vislumbra-se o esforço de uma geração que deseja vencer.

É a geração mais jovem dos artistas brasileiros, valendo essa sua ânsia de vitória por uma compensação aos que tem sido iludidos, anos seguidos, na mostra oficial por muitos dos legítimos expoentes de gerações anteriores, a maioria dos quais arredia presentemente, comparecendo outros com as velhas chapas, gastas já pelo uso que alguns lustros registram...

Um impulso, em que se misturam muita fé e muita ousadia, de valores adolescentes, se contrapõe, corrigindo provável desequilíbrio no salão que é espelho de nossa cultura artística, a uma evidente demonstração de cansaço.

São os extremos que se acusam, distanciando-se.

E não deixa de ser isso também um fenômeno muito peculiar à psique brasileira, vastamente comprovado nas várias modalidades das nossas manifestações intelectuais.

O iniciado é toda uma maravilha de auspícios, ardendo por subir a grandes alturas, cuja distância mede pela audácia de que está animado, vendo apenas rosas pelos caminhos.

Impelido por uma força própria de inteligência, semelhante na finalidade do efeito a que os ágeis atletas antigos davam aos seus dardos nas arenas de competição, vence quase sempre os primeiros obstáculos.

Produz-se no ambiente, não bastante familiar com essas proezas, uma sensação de assombro imediato e, antes de um regresso à calma e à reflexão, recebe o jovem herói, como naquela época de ouro, entre atoardas de hinos e ditirambos, uma coroa, que acaba por não poder suportar na cabeça assim precocemente desorientada... Com os anos gastos à sombra dos sicômoros flaubertianos no desfrutar da gloríola, o vitorioso vai perdendo as ilusões e a sua coroa pesadona [...] ressequidas folhas.

E em pouco tempo, voltando ao trabalho, vem à fadiga e juntamente com essa minaz entorpecedora do músculo, a dúvida, a insidiosa torturadora do espírito.

Tocam-se aqui os extremos. É o que, sem evitar o paradoxo, confirma o Salão.

* * *

Da mocidade que cheia de entusiasmo, concorre a presente exposição, comunicando-lhe algum brilho e dando uma demonstração sincera de que deseja ir adiante, Oswaldo Teixeira é o vanguardeiro. Sua contribuição é a mais interessante, a mais digna de comentários, atraindo as atenções gerais, despertando expressivas admirações.

Representa o resultado de esforços acumulados durante alguns anos empregados com uma constância admirável pelo expositor jovem ao estudo e à observação, agora em toda pujança, se refletindo em uma série de obras fortes, que o acreditam entre os vultos relevantes do meio artístico brasileiro, assim tão belamente honrada.

Depois do êxito do “Homem da Rosa”, tendo estacionado, Oswaldo Teixeira reaparece agora com um lance a que deu todos os seus recursos de execução, numa arremetida irretorquível. Apresenta-se ao prêmio de viagem à Europa com sete telas, retratos e composições, onde mais uma vez põe à prova as suas qualidades de figurista senhor de uma técnica segura, amiga de detalhes.

É um pintor clássico, notadamente no retrato do Sr. Augusto Petit e no “Brindando”, que juntamente com o “Pescador” se impõe ainda - e aí está a melhor qualidade - pelo forte sabor característico, de que estão ambos impregnados à saciedade.

Nessa tela o artista enquadrou um trecho ensolado de praia carioca, onde vem morrer, se desfazendo em espumas, as ondas brandas, quase ao pé de uma figura jovem e rude que lhes percorre todos os dias o dorso incerto, na labuta árdua da pescaria.

Está sentado na areia, um pedaço de rede sobre as pernas, muito queimado do sol, sob o grande chapéu de palha, esse tipo que a pena de Lotl certamente haveria de amar o que o pincel de Oswaldo fixou tão brilhantemente num ambiente onde extravasam as pompas do seu colorido vibrante e justo, numa semelhança com Sorrolla.

“Brindando” é um quadro de distinção.

A figura afidalgada se faz admirar, sobretudo pela expressão fisionômica e em toda a composição o pintor mostra a cuidadosa segurança com que trata as menores coisas, procurando seu harmonioso equilíbrio, e, principalmente a verdade, não esquecendo nem manchas de vinho derramado em toalha.

A parte de natureza morta está no mesmo plano de brilhantismo com que foi marcada essa figura, cujos tons de leveza encantadora, são dados pelas plumas caídas voluptuosamente sobre a copa do chapéu medieval.

Oswaldo Teixeira já pisa o grande caminho que só aos eleitos é dado percorrer.

* * *

Juntamente concorrem, com o autor de “Boas Notícias”, ao prêmio de viagem à Europa, os Srs. Garcia Bento e Armando Vianna. Garcia Bento, que tem um nome firmado de marinhista, apresenta quatro telas desse gênero, evidenciando às suas virtudes já reconhecidas as de um técnico honesto e as de um colorista que opera com discrição, mais preocupado com o lado emocional que lhe sugere a natureza.

Sabe senti-la, traduzindo-a, às vezes, com certa frieza, mas sempre com personalidade.

Suas telas são lançadas magnificamente com largueza e denotam os conhecimentos valiosos de que é dotado o pintor também jovem, também digno de merecer confiança pelo futuro que o espera, como a todos os do seu estofo, os que trabalham com sinceridade e sem alardes.

Garcia Bento parece desdenhar a figura, preferindo inteiramente o gênero em que nestes últimos tempos se vem singularizando de maneira notável.

Seu quadro “Mau tempo”, trabalhado com muita emoção, numa figura de toque admirável, basta para revelar um talento e afirmar uma personalidade.

O terceiro concorrente, Armando Vianna, expõe dois retratos e duas composições.

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Recentemente a propósito do último “Salon” da “Societé dos Artistes Français”, o crítico Jacques Baschet notou um número copioso de paisagens e de naturezas mortas naquele certame, enquanto o figurismo se apresentava reduzido.

O ilustre jornalista parisiense, explicando esse excesso poucas vezes registrado, concluiu pela crise de modelos, forçados, assim, os artistas a procurar quase em massa o campo, o ar livre.

Não acontece, evidentemente, o mesmo com os nossos patrícios que pintam e gostam de enviar o produto de seu trabalho à exposição oficial. O que ali vemos, de modo muito diverso, é uma avalanche de retratos e composições de figura, e uma carência quase que absoluta de paisagens. Desse desequilíbrio parece-nos culpado o Sr. Antonio Parreiras, que ainda o ano passado, com os seus prestigiosos trabalhos, encheu toda uma sala...

Há uma profusão de retratos e, pelo que vimos, os nossos artistas são muito amigos, reinando entre eles uma harmonia rara. Gostam de retratarem-se uns aos outros, e por vezes, de tão excessivo, o amor degenera em perfídia...

Destacam-se, em compensação, nesse gênero, Guttman Bicho, no “Retrato de Mme. O. Goulart”, dentro da técnica pontilhista, com um caráter finamente parisiense, e Sarah Figueiredo, em dois trabalhos de dimensões regulares, tratados com largueza, revelando uma artista bem orientada. Pintores jovens, que se iniciam promissoramente como figuristas, com diversos retratos portadores de qualidades são Vicente Leite, Orozio Belém, Cesar Turatti e Gilda Moreira.

Do Candido Portinari esperava-se muito mais do que apresentou, tendo-se em conta os seus méritos já comprovados.

A Senhorita Edith de Aguiar, com o pastel “Jeune Fille em Robe Rose”, mostra os progressos acentuados que vem obtendo, resultando essa composição num adorável conjunto de linhas harmoniosas, num encanto de distinção, a que o colorido feito de rosas, dá indizível graça. Assinando vários trabalhos, especialmente o “Retrato da Senhorita A.R.”, João Fahrion destaca-se como bom desenhista.

Na mesma sala onde se encontram as melhores coisas da exposição, merece um pouco de atenção, “Últimos Retoques”. Assina-o Orlando Teruz, que começa a aparecer e de maneira auspiciosa.

Cuidando mais do desenho, do que parecia desdenhar, segundo vimos, num quadro exposto não há muito, conseguiu uma bela figura em ambiente distinto, detalhando com felicidade o panejamento, e imprimindo certa graça às flores que emprestam com as suas cores uma nota mais grave ao conjunto, tirando-lhe uma possível uniformidade monótona.

É uma produção conscienciosa digna dos melhores encômios.

Uma contribuição interessante e curiosa é a de Haydéa Lopes, que tem decidida predileção pela pintura de ar livre, cheia de luz e vibração, revelando uma fina sensibilidade em “Mocidade em Flor”, "Romantismo” e “Cabra Cega”, não obstante algumas incorreções na construção das figuras, assim acreditam a artista, que sabe pintar com a inteligência.

O mesmo se pode dizer de Manoel Santiago, pintor de imaginação equilibrada e que poderá produzir belas e originais coisas, se continuar no gênero de que já nos dá excelentes demonstrações, inspirando-se nas lendas nortistas.

A paisagem, propriamente dita, está em inferioridade no Salão.

O Sr. Baptista da Costa expõe três trechos campestres paulistas, nos quais repete, mais uma vez, a sua técnica tão conhecida, e, ainda faz, numa natureza morta, com habilidade, gentil reclamezinha aos figos de Poços de Caldas...

Em “Águas de minha Terra”, Levino Fanzeres é cuidadoso, saindo-se airosamente da tarefa ingrata de fixar tonalidades do nosso verde, e Fausto de Souza demonstra evidentes progressos na figura e na paisagem, de posse da selencia [sic] dos valores.

Edgard Parreiras, assinando um trecho fluminense, e “Hora de Luz” reafirma os seus dotes de excelente paisagista, que sabe ver e sentir com sinceridade.

Há ainda outros quadros desse gênero, alguns interessantes, devidos a Paula Fonseca, Gomes Carollo, Manoel Faria e Yvonne Visconti.

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A pintura decorativa tem representação brilhante nas contribuições de Visconti, Augusto Bracet, Capplonch, este com um friso de longas dimensões, em que faz a síntese simbólica da evolução brasileira, dividendo-a em quatro períodos históricos.

Marques Junior, além de um admirável desenho de estudo e de um nu magnífico [Imagem], reafirmando os seus conhecimentos, também concorre com um painel decorativo, “Serenidade”, onde as suas tendências impressionistas harmoniosamente se casam com os rigores acadêmicos.

Ainda uma referência ao imaginoso e sempre interessante Helios, aos trabalhos de Verdié, Antonino Mattos e Modestino Kanto, na reduzida seção de escultura, e aos de Theodoro Braga pelas suas estilizações da nossa fauna e da nossa flora, e aí temos a Exposição Geral de 1924.

Lauro M. Demoro


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

DEMORO, Lauro M.. ARTES E ARTISTAS. A Exposição geral de 1924. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 17 ago. 1924, p. 5.

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