. D'AVILA, Léo. O "Salão" deste ano. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 18 ago. 1925, p. 3. - Egba

D'AVILA, Léo. O "Salão" deste ano. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 18 ago. 1925, p. 3.

De Egba

Edição feita às 23h09min de 30 de Setembro de 2010 por Egba (Discussão | contribs)
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O salão oficial de Belas Artes, inaugurado no dia 12, veio dar razão aos que proclamam atravessar a arte brasileira uma fase de profunda estagnação. O sintoma é […] mais grave, por quanto se trata de um país novo, em pleno caldear de elementos heterogêneos, e cujas manifestações artísticas deviam ter um pouco do sonho audaz dos primeiros bandeirantes, realizando palmo a palmo a conquista de uma natureza encantadora, na ânsia […] de um mais amplo cenário onde satisfazer a imperiosa necessidade de uma dominação ilimitada...

Em vez disso, temos, como suprema irrisão, uma pintura sem horizontes, balda absolutamente de […], numa degradante dependência das escolas e dos mestres europeus. Todavia, talvez pela distância, apenas reflete fracamente as variantes comuns aos movimentos artísticos dos grandes povos.

É o caso, por exemplo, de certos lugarejos do interior, onde as inovações da moda chegam com bastante atraso, assumindo, aos olhos do […] citadino, as proporções de um grotesco irresistível, agravado pela ignorância e falta de tato.

A visão estreita, a completa ausência de cultura dos pintores brasileiros, não lhes permite penetrar […] as intenções dos grandes mestres estrangeiros, cujos processos, muitas vezes verdadeiros no exprimir fatos da evolução mental de determinado povo, tornam-se, quando parodiadas [sic] por indivíduos de outro meio intelectual profundamente artificiais.

Desse modo, os jovens artistas brasileiros aferrados a mesquinhas questões de técnica, encaniçados em competições inglórias, são incapazes de uma iniciativa que os liberte da influência do meio. Eis o aspecto mais doloroso do problema. A atual geração vem sendo alimentada há alguns anos com os destroços da pintura de meia dúzia de […] em plena decadência. Daí a falta de originalidade, a pobreza de concepção e a uniformidade de motivos que caracterizam a moderna pintura brasileira.

Com pequenas variantes, um salão de belas artes é a reprodução exata do anterior. Nem sequer um rasgo audacioso ou mesmo um sopro de juventude animando o arcabouço carcomido da rotina.

Vemos sempre as mesmas paisagens fotograficamente conscienciosas, os mesmos retratos em idênticas posições, com as mesmas […] de desenho, preferíveis contudo às deformações de um misto de futurismo e pretenso impressionismo. Podemos citar ainda alguns casos evidentes de senilidade e […] precoce, que não podem ser […] nesta seção.

Queremos apontar também a incoerência de alguns membros do júri, recusando trabalhos de jovens esforçados, e, não obstante, enviando obras que, não só pelo lado técnico, como ainda pelo artístico, não deviam, de modo algum, ser apresentados por professores da escola de uma Belas Artes.

Enfim, o salão nos produziu uma sensação penosa de tristeza e opressão, avultando extraordinariamente alguns raros lampejos de arte...

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A obra mais notável do salão deste ano, é uma cabeça de índio, do escultor mexicano Fidias. Esculpindo no velho tronco de árvore aquela fisionomia que mostra inconfundíveis os caracteres antropomórficos da raça, o artista revela um profundo amor pelo solo pátrio. Índio também, realizou o anseio dos seus antepassados, identificando a terra ao homem. Animou a matéria bruta e transformou a triste fealdade no sublime sonho de artista...

Nos quadros de Pedro Bruno palpita exuberante alegria de viver. O pintor nos evoca os momentos felizes, quando mais intensamente sentimos a delícia de uma natureza esplendorosa em festas. São telas ridentemente iluminadas por uma luz tépida, que nos infunde um doce torpor contemplativo.

Georgina de Albuquerque surge indiscutivelmente forte. No “O segredo da flor”, o eterno enigma da mulher tem o delicioso sabor expectante, do fruto agreste desconhecido.

Os concorrentes ao prêmio de viagem se apresentam bastante equilibrados. Infelizmente estão fracos.

Garcia Bento decaiu muito este ano. Algumas de suas marinhas têm umas pedras no primeiro plano e uns cortes do mais perfeito mau gosto.

Armando Vianna, embora progredisse alguma coisa, não merece ainda o prêmio de viagem. A sua maior tela possui falhas evidentíssimas no desenho. Uma das mulheres sentadas, revela, à altura do fêmur, uma fratura exposta perfeitamente caracterizada.

Sarah de Figueiredo, uma retratista de mérito incontestável, tem o grave defeito de repetir muito certas poses convencionais. Juntando a isso a coincidência das telas apresentarem idênticas proporções, temos uma lamentável impressão de monotonia.

Candido Portinari revela-se um dos nossos melhores retratista.

Devemos citar em primeiro lugar retrato do príncipe Gargarin [sic]. É uma obra notável, sobretudo pela expressão característica da figura. Sentimos bem aquele olhar duro, de brilhos metálicos, olhar de quem tudo viu, tudo sentiu.

O fundo, cópia de uma paisagem, mostra nítida compreensão do ambiente; os planos dispostos com maestria.

No retrato da senhorita Maria de Medeiros, o pintor imprimiu um leve tom de espiritualidade. É uma obra fina, de fatura delicada, plena de uma graça vaporosa..

O retrato do pintor Mario Tullio é um trabalho admirável como técnica pictórica. Merece destaque a serena harmonia do conjunto. A estilização discreta dá uma nota sentimental ao todo, sacrificando embora a personalidade do modelo.

Edith de Aguiar expõe dois trabalhos fortes.

Joaquim R. Ferreira apresenta uma composição, as “Parcas”, com algumas qualidades apreciáveis. Os tons discretos, de acordo com o assunto, as fisionomias expressivas, alguns detalhes felizes, formam um bom conjunto.

Meinhard Jacoby é um técnico vigoroso; maneja o pincel com segurança surpreendente. A facilidade com que resolve uma mão ou uma perna granjeou-lhe a entusiástica admiração dos nossos pintores, de visão artística bem pouco complexa.

Figurando num salão onde membros do júri expõem trabalhos com erros de desenho inadmissíveis em principiantes, o pintor não pode deixar de fazer figura brilhante.

É, além disso, um fraco colorista; a sua pintura aparece envelhecida antes do tempo.

Uma nota interessante no salão, é o perfil do poeta Olegário Mariano, de Mario Tullio. Expressão bem característica. A cabeça fortemente movimentada, contrasta com a placidez quase pétrea do busto, apenas manchado.

Dir-se-ia uma rajada de inspiração passando sobre a inerte majestade da rocha.

Eugenio Ligand [?] é um artista de personalidade indiscutível, cujas tendências não estão bem definidas ainda. É um sonhador ofuscado pelo absorvente dinamismo da vida moderna.

Manoel Santiago expõe um belo nu, “Flor de Igarapé”, um tanto diferente da sua maneira habitual.

Dois jovens estreantes, Celso Kelly e Gerson Pinheiro denotam qualidades promissoras.

Na seção de desenho, Roberto Rodrigues apresenta dois estudos a carvão, executados com vigor. São, não há dúvida, os melhores desenhos expostos.

Léo D'Avila


Imagens

"Retrato" de Candido Portinari, e "Radiosa", de Pedro Bruno

Cabeça de índio, do escultor mexicano Fidias


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Arthur Valle

D'AVILA, Léo. O "Salão" deste ano. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 18 ago. 1925, p. 3.

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