. CREMONA, Ercole. O Salão do Centenário. Illustração Brasileira, ano IV, n. 29, jan. 1923, n/p. - Egba

CREMONA, Ercole. O Salão do Centenário. Illustração Brasileira, ano IV, n. 29, jan. 1923, n/p.

De Egba

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Edição de 02h37min de 18 de Março de 2010

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O salão de Belas Artes comemorativo do Centenário, sem dúvida, é o mais orientado de quantos se têm realizado, desde que foram instituídos.

Houve um critério, um ponto de partida que pautou a orientação dos organizadores, verdade que encontraram o campo para isso.

A reforma porque passou o palácio permitiu que se fizesse uma coisa condigna da nossa data magna; com ela lucraram os nossos artistas e a Arte brasileira, que, de agora em diante possuem onde se alojar. Bem tristes foram os tempos em que era preciso recorrer-se à aniagem tinta e aos sarrafos que punham num risco permanente as telas dos mestres do passado, escondendo-as por meses seguidos dos olhares da multidão, privando-as de ar e de luz.

Colocamos a modéstia de parte e nos felicitamos, pois sempre nos batemos contra o critério de tais arrumações prejudiciais à causa da arte patrícia. Quem entra no Salão de Belas Artes de hoje, sente alegria, bem estar espiritual e um conforto material; sente limpeza e amor ao belo, não há mais o revérbero, o rescaldo de outrora.

A penumbra macia convida à contemplação e a uma permanência demorada em tão amável e distinta companhia; a penumbra é sempre propícia aos sonhos e à fantasia. Deixemo-nos guiar por ela, sejamos otimistas, mesmo para o que não merecem otimismos... Comecemos pelo mestre da nossa paisagem.

BAPTISTA DA COSTA, apesar das ocupações de diretor da Escola e professor ainda encontrou tempo para produzir e produzir bem. Enviou ao salão um conjunto afinado de seis telas.

A todas elas, presidiu um critério altamente estético; Sapucaieiras engalanadas, À beira do Açude, Remanso Itaipava e Dia de ressaca, são verdadeiras maravilhas que nos falam uma linguagem estranha de beleza e nos mostram quanto a nossa terra é pujante de encantamentos. As paisagem de Baptista da Costa no atual Salão, mostram uma evolução franca e uma técnica cada vez mais aprimorada; a luz radiante é perfeita, as gamas são estudadas com justeza, são inconfundíveis; os diversos planos se sucedem sem recursos de “camouflages”, unicamente pelos seus valores rigorosamente exatos; as paisagens do pintor são dosadas com o critério da simplicidade, reproduzem a natureza com todos os fenômenos de luz e poesia. No auto-retrato O paisagista, o artista nos mostra uma face de seu talento polimorfo; ele pela sua verdade nos recorda os conceitos que Carlo Parlagreco, antigo professor da Escola Nacional de Belas Artes, externou em suas conferências, felizmente reunidas em volume sob o título Questões de artes: “O fogo sagrado roubado ao céu e que ensina aos homens as artes, sintetiza tantas quantidades ideais e tantas fases da história humana que seria impossível enumerar em breve. Mas aquela luta não acaba no mito de Prometeu, nem no mundo grego; continua no mundo latino, continua ainda que latente, na idade média e recomeça a sua marcha gloriosa na Renascença e dura, vitoriosa mais do que nunca, até aos nossos dias”. O paisagista, de Baptista da Costa nos relembra semelhantes palavras porque sentimos nele o mesmo “fogo sagrado”, as mesmas “quantidades ideais” e mais a concretização do perfeito. A nosso ver, aquele pedaço de tela tocado pelos pincéis do artista, representa uma obra complexa, porque é mais do que um retrato material, é a alma do pintor, é o mestre que tudo vê através daqueles olhos de psicólogo.

Bem defronte ao ilustre paisagista, está Eliseu Visconti com um punhado de obras valorosas de concepção, tocadas com maestria e desenhadas com fidalgo desembaraço. Não citaremos particularmente esta ou aquela obra, muito de propósito; toda a sua contribuição nos merece o mais incondicional aplauso.

Visconti é um temperamento privilegiado, é um espírito que evolui francamente. Os seus quadros são sempre novos; trazem um sentimento pronunciado e um desejo de aproximação cada vez maior da grande verdade. Qualquer motivo para Visconti, é bastante para a criação de uma obra de arte; os seus desenhos nos revelam essas qualidades, são simples traços de carvão, de “sanguinea”, mas portadores de alma, de uma infinidade de condições estéticas. Os quadros do mestre têm a propriedade valiosa de possuírem sempre um ponto de partida preconcebido, meditado, uma ideia.

PEDRO ALEXANDRINO nos dá três telas de natureza morta, magistralmente pintadas, mas portadoras de uma verdade flagrante. Os metais brilham, espalham reflexos, as frutas são perfeitas de coloração, os cristais são tocados com uma felicidade inaudita; todos estes predicados formam um conjunto primoroso e único. Pedro Alexandrino é o nosso maior pinto de natureza morta, até hoje nenhum outro se lhe aproximou. Pedro Alexandrino é o especialista por excelência.

THEODORO BRAGA, depois de longa ausência, apresenta-se ao público com uma coleção de trabalho. A maior parte do seu tempo foi dedicado ao estudo da estilização da nossa flora, conseguindo realizar uma obra notável e patriótica, merecedora do apoio do governo, que deve se publicada para divulgação do que é possível fazer unicamente com elementos nosso. Quando o ilustre artista chegou ao Rio, o ano passado, vindo do seu Estado natal, tivemos a oportunidade de escrever:

“O ilustre pintor vem ao Rio, trazido pelo desejo de mostrar o que fez em dezesseis anos de ausência, vai expor o seu quando Antonio Vieira, e mais os manuscritos da História do seu opulento torrão, fruto das pesquisas de muitos anos, através à documentação existente em mãos particulares, bibliotecas e arquivos poeirentos. Na mesma ocasião apresentará ao juízo dos patrícios e autoridades, um valioso e detalhado trabalho sobre a estilização das nossas flora e fauna. Tão interessante estudo foi iniciado em 1905, aqui no Rio, logo após sua chegada da Europa.

São preciosos argumentos que merecem ser divulgados intensamente. Tomamos a liberdade de chamar atenção do Sr. Dr. Carlos Sampaio para o assunto; agora, que se cogita da intensificação do ensino profissional, era bem cabível o aproveitaento de tão útil e patriótica obra”.

Transcrevemos os tópicos acima para que o ilustre Dr. Alaor Prata verifique o que o artista fez e veja não existir exagero nas nossas sugestões.

Theodoro Braga é o elemento que as nossas escolas profissionais precisam para caminhar sem recorrer ao estrangeiro na maior das vezes cabotino e sem valor...

Toda a coleção apresentada pelo artista é de um valor indiscutível sob todos os pontos de vista artísticos e didáticos.

CARLOS CHAMBELLAND enviou ao Salão dois trabalhos: Dia de feira e Água corrente, duas notas interessante. Dia de feira representa o tipo do nosso cafuzo perfeitamente interpretado e pintado; em Água corrente observam-se as mesmas qualidades.

AUGUSTO BRACET, nos dá um quadro histórico de grande proporções: Primeiros sons do Hino da Independência. A tela representa uma magnífica vitória para o autor da Anfôra. Inspirou-se o pintor no seguinte trecho da memória de Francisco de Canto e Mello:

“Chegando a palácio fez imediatamente o príncipe, em papel, um molde da legenda - INDEPENDENCIA OU MORTE - a qual, sendo levada por mim aos ourives Lessa, à rua Boa Vista, serviu para que às 6 horas dessa mesma tarde estivessem prontas as duas legendas com que o príncipe e eu nos apresentaremos no teatro. Neste ínterim compôs Sua Alteza o hino da Independência que na mesma noite deveria ser, como foi, executado no teatro.”

No quadro de Augusto Bracet existem pequenos defeitos, porém, sem importância diante das grande qualidades que encerra.

PEDRO BRUNO nos dá também uma grade tela histórica: O percursor e mais uma série de quadros onde há talento e uma aproveitamento notável.

De todo o conjunto preferimos os quadros de nu, notadamente Anunciação.

Temos ainda como grandes telas históricas, a ilustre pintora Georgina Albuquerque, e o bizarro Helios Seelinger.

GEORGINA DE ALBUQUERQUE apresenta a Sessão do conselho de Estado que decidiu a Independência, um belo trabalho inspirado na nossa história e calcado nos conceito de Rocha Pombo: “Convocou-se o conselho de Estado para o dia 1° de setembro (ou 2), às 10 horas da manhã. Já estavam todos os ministros presentes no Paço. Fez José Bonifácio a exposição verbal do estado em que se achavam os negócios públicos, e concluiu dizendo que não era mais possível permanecer naquela dubiedade e indecisão, e para salvar o Brasil cumpria que se proclamasse imediatamente a sua separação de Portugal. Propôs, então, que se escrevesse a D. Pedro que sem perda de tempo pusesse terno, ali mesmo, em São Paulo, a uma situação tão dolorosa para os brasileiros.

Todos os ministros aplaudiram o alvitre, e com eles emulou com entusiasmo a princesa real”

Georgina de Albuquerque emprestou toda a sua grande alma, todo o seu sentimento e a sua maravilhosa técnica ao quadro, onde há figuras a movimentadas e bem desenhadas, atitudes resolvidas e gamas resolvidas com grande saber.

Outras telas mandou a artista ao salão, telas onde há talento; Manacá, é uma perfeita obra de arte, um nu de mulher moça de carnação colorida.

Efeito de sol é outro belo espécime do seu valor, de feitura inteiramente moderna.

HELIOS SEELINGER nos dá um grande tríptico alegórico intitulado: Minha terra.

Na concepção do trabalho, o artista empregou todos os recursos da sua fantasia, concretizou tudo que tem feito e realizou um belo conjunto. Lá estão os cavalos movimentados, as figuras bizarras e a sua riqueza de cor, variada e brilhante.

Do pintor existem ainda outros quadros de real encanto, como Caravelas, Em procura de novas terras, Navio fantasma e Fantasma do mar.

O Sr. AUGUSTO PETIT, fugindo de sua técnica costumeira nos dá uma paisagem rica de cor, empastada com rara habilidade e boa perspectiva, não se parecendo nem de longe com que tem feito até aqui.

LEOPOLDO GOTTUZO, o fidalgo de sempre, brilha no envio feito. As figuras são sentidas, as suas paisagens mostram quantos é perfeita a sua visão e seu sentimento.

GARCIA BENTO, ALVIM MENGE, GERMANO NEVES, JOÃO DE AZEVEDO, PAES LEME, MARIO TÚLIO, MANUEL SANTIAGO e JUSTINO MIGUEIS contribuem com eficiência para o brilho da nossa maior mostra de Arte. Todos eles enviaram trabalhos que se recomendam pelas qualidades e honestidade.

CARLOS OSWALDO mandou uma grande tela: Viva a Independência , com belas qualidades decorativas e composição agradável.

EDGARD PARREIRAS, com a sua expressiva tela: Solar Avoengo, atingiu uma situação de destaque conquistada a golpes de talento.

O seu quadro encerra qualidades sérias, reveladoras de um grande pintor, um paisagista valoroso e de grandes recursos. De lastimar é a disposição regimental que impede o artista que já tenha estudado no estrangeiro de concorrer ao prêmio de viagem. A ele é que devia ser conferido o prêmio de viagem sem comparação; o seu quadro vale por uma dúzia do que foi premiado, que, incontestavelmente, é uma péssima manifestação de artes; não compreendemos como se consegue uma Iracema tão feia, sem desenho... mas deixamos o pintor premiado, esquecíamos que nos propusemos a não fazer crítica, e sim uma crônica otimista... No quadro do EDGAR PARREIRAS, há um encantamento especial, uma luz que inebria e um empastamento que empresta à paisagem uma nota alegre, as gamas bem postas jogam para longe.

Edgar Parreiras é, enfim, um pintor que nos honra sobremaneira.

JOÃO FAHRION apresenta-se com um conjunto agradável, destacando-se o retrato Mlle. X, uma bela e expressiva cabeça, com sérias qualidades de pintura.

LUCILIO DE ALBUQUERQUE contribuiu com uma série de pequenos trabalhos, perfeitamente interpretados e grande luminosidade; são eles: Igreja, Casa histórica, Uma rua e Beco do Salto, todos executados na lendária São João Del Rei.

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