. CREMONA, Ercole. O Salão do Centenário. Illustração Brasileira, ano IV, n. 29, jan. 1923, n/p. - Egba

CREMONA, Ercole. O Salão do Centenário. Illustração Brasileira, ano IV, n. 29, jan. 1923, n/p.

De Egba

(Diferença entre revisões)
Linha 206: Linha 206:
'''Transcrição de Ana Beatriz Domingues, Caio Paz, Marcela Moraes e Marcele Frossard'''
'''Transcrição de Ana Beatriz Domingues, Caio Paz, Marcela Moraes e Marcele Frossard'''
 +
 +
CREMONA, Ercole. O Salão do Centenário. [[Illustração Brasileira]], ano IV, n. 29, jan. [[1923]], n/p.

Edição de 23h50min de 4 de Setembro de 2010

O Salão de Belas Artes comemorativo do Centenário, sem dúvida, é o mais orientado de quantos se têm realizado, desde que foram instituídos.

Houve um critério, um ponto de partida que pautou a orientação dos organizadores, verdade que encontraram o campo para isso.

A reforma por que passou o palácio permitiu que se fizesse uma coisa condigna da nossa data magna; com ela lucraram os nossos artistas e a Arte brasileira, que, de agora em diante possuem onde se alojar. Bem tristes foram os tempos em que era preciso recorrer-se à aniagem tinta e aos sarrafos que punham num risco permanente as telas dos mestres do passado, escondendo-as por meses seguidos dos olhares da multidão, privando-as de ar e de luz.

Colocamos a modéstia de parte e nos felicitamos, pois sempre nos batemos contra o critério de tais arrumações prejudiciais à causa da arte patrícia. Quem entra no Salão de Belas Artes de hoje, sente alegria, bem estar espiritual e um conforto material; sente limpeza e amor ao belo, não há mais o revérbero, o rescaldo de outrora.

A penumbra macia convida à contemplação e a uma permanência demorada em tão amável e distinta companhia; a penumbra é sempre propícia aos sonhos e à fantasia. Deixemo-nos guiar por ela, sejamos otimistas, mesmo para o que não merecem otimismos...

Comecemos pelo mestre da nossa paisagem.

BAPTISTA DA COSTA, apesar das ocupações de diretor da Escola e professor, ainda encontrou tempo para produzir e produzir bem. Enviou ao salão um conjunto afinado de seis telas.

A todas elas, presidiu um critério altamente estético; Sapucaieiras engalanadas, À beira do Açude, Remanso Itaipava e Dia de ressaca, são verdadeiras maravilhas que nos falam uma linguagem estranha de beleza e nos mostram quanto a nossa terra é pujante de encantamentos. As paisagem de Baptista da Costa no atual Salão, mostram uma evolução franca e uma técnica cada vez mais aprimorada; a luz radiante é perfeita, as gamas são estudadas com justeza, são inconfundíveis; os diversos planos se sucedem sem recursos de “camouflages”, unicamente pelos seus valores rigorosamente exatos; as paisagens do pintor são dosadas com o critério da simplicidade, reproduzem a natureza com todos os fenômenos de luz e poesia. No auto-retrato O paisagista, o artista nos mostra uma face de seu talento polimorfo; ele pela sua verdade nos recorda os conceitos que Carlo Parlagreco, antigo professor da Escola Nacional de Belas Artes, externou em suas conferências, felizmente reunidas em volume sob o título Questões de artes: “O fogo sagrado roubado ao céu e que ensina aos homens as artes, sintetiza tantas quantidades ideais e tantas fases da história humana que seria impossível enumerar em breve. Mas aquela luta não acaba no mito de Prometeu, nem no mundo grego; continua no mundo latino, continua ainda que latente, na idade média e recomeça a sua marcha gloriosa na Renascença e dura, vitoriosa mais do que nunca, até aos nossos dias”. O paisagista, de Baptista da Costa nos relembra semelhantes palavras porque sentimos nele o mesmo “fogo sagrado”, as mesmas “quantidades ideais” e mais a concretização do perfeito. A nosso ver, aquele pedaço de tela tocado pelos pincéis do artista, representa uma obra complexa, porque é mais do que um retrato material, é a alma do pintor, é o mestre que tudo vê através daqueles olhos de psicólogo.

Bem defronte ao ilustre paisagista, está ELISEU VISCONTI com um punhado de obras valorosas de concepção, tocadas com maestria e desenhadas com fidalgo desembaraço. Não citaremos particularmente esta ou aquela obra, muito de propósito; toda a sua contribuição nos merece o mais incondicional aplauso.

Visconti é um temperamento privilegiado, é um espírito que evolui francamente. Os seus quadros são sempre novos; trazem um sentimento pronunciado e um desejo de aproximação cada vez maior da grande verdade. Qualquer motivo para Visconti, é bastante para a criação de uma obra de arte; os seus desenhos nos revelam essas qualidades, são simples traços de carvão, de “sanguinea”, mas portadores de alma, de uma infinidade de condições estéticas. Os quadros do mestre têm a propriedade valiosa de possuírem sempre um ponto de partida preconcebido, meditado, uma ideia.

PEDRO ALEXANDRINO nos dá três telas de natureza morta, magistralmente pintadas, mas portadoras de uma verdade flagrante. Os metais brilham, espalham reflexos, as frutas são perfeitas de coloração, os cristais são tocados com uma felicidade inaudita; todos estes predicados formam um conjunto primoroso e único. Pedro Alexandrino é o nosso maior pintor de natureza morta, até hoje nenhum outro se lhe aproximou. Pedro Alexandrino é o especialista por excelência.

THEODORO BRAGA, depois de longa ausência, apresenta-se ao público com uma coleção de trabalhos. A maior parte do seu tempo foi dedicado ao estudo da estilização da nossa flora, conseguindo realizar uma obra notável e patriótica, merecedora do apoio do governo, que deve se publicada para divulgação do que é possível fazer unicamente com elementos nossos. Quando o ilustre artista chegou ao Rio, o ano passado, vindo do seu Estado natal, tivemos a oportunidade de escrever:

“O ilustre pintor vem ao Rio, trazido pelo desejo de mostrar o que fez em dezesseis anos de ausência; vai expor o seu quando Antonio Vieira, e mais os manuscritos da História do seu opulento torrão, fruto das pesquisas de muitos anos, através à documentação existente em mãos particulares, bibliotecas e arquivos poeirentos. Na mesma ocasião apresentará ao juízo dos patrícios e autoridades, um valioso e detalhado trabalho sobre a estilização das nossas flora e fauna. Tão interessante estudo foi iniciado em 1905, aqui no Rio, logo após sua chegada da Europa.

São preciosos argumentos que merecem ser divulgados intensamente. Tomamos a liberdade de chamar atenção do Sr. Dr. Carlos Sampaio para o assunto; agora, que se cogita da intensificação do ensino profissional, era bem cabível o aproveitamento de tão útil e patriótica obra”.

Transcrevemos os tópicos acima para que o ilustre Dr. Alaor Prata verifique o que o artista fez e veja não existir exagero nas nossas sugestões.

Theodoro Braga é o elemento que as nossas escolas profissionais precisam para caminhar sem recorrer ao estrangeiro na maior das vezes cabotino e sem valor...

Toda a coleção apresentada pelo artista é de um valor indiscutível sob todos os pontos de vista artísticos e didáticos.

CARLOS CHAMBELLAND enviou ao salão dois trabalhos: Dia de feira e Água corrente, duas notas interessantes. Dia de feira representa o tipo do nosso cafuzo perfeitamente interpretado e pintado; em Água corrente observam-se as mesmas qualidades.

AUGUSTO BRACET, nos dá um quadro histórico de grande proporções: Primeiros sons do Hino da Independência. A tela representa uma magnífica vitória para o autor da Ânfora. Inspirou-se o pintor no seguinte trecho da memória de Francisco de Canto e Mello:

“Chegando a palácio fez imediatamente o príncipe, em papel, um molde da legenda - INDEPENDENCIA OU MORTE - a qual, sendo levada por mim aos ourives Lessa, à rua Boa Vista, serviu para que às 6 horas dessa mesma tarde estivessem prontas as duas legendas com que o príncipe e eu nos apresentaremos no teatro. Neste ínterim compôs Sua Alteza o hino da Independência que na mesma noite deveria ser, como foi, executado no teatro.”

No quadro de Augusto Bracet existem pequenos defeitos, porém, sem importância diante das grande qualidades que encerra.

PEDRO BRUNO nos dá também uma grade tela histórica: O percursor, e mais uma série de quadros onde há talento e uma aproveitamento notável.

De todo o conjunto preferimos os quadros de nu, notadamente Anunciação.

Temos ainda como grandes telas históricas, a ilustre pintora Georgina Albuquerque, e o bizarro Helios Seelinger.

GEORGINA DE ALBUQUERQUE apresenta a Sessão do conselho de Estado que decidiu a Independência, um belo trabalho inspirado na nossa história e calcado nos conceito de Rocha Pombo: “Convocou-se o conselho de Estado para o dia 1o. de setembro (ou 2), às 10 horas da manhã. Já estavam todos os ministros presentes no Paço. Fez José Bonifácio a exposição verbal do estado em que se achavam os negócios públicos, e concluiu dizendo que não era mais possível permanecer naquela dubiedade e indecisão, e para salvar o Brasil cumpria que se proclamasse imediatamente a sua separação de Portugal. Propôs, então, que se escrevesse a D. Pedro que sem perda de tempo pusesse terno, ali mesmo, em São Paulo, a uma situação tão dolorosa para os brasileiros.

Todos os ministros aplaudiram o alvitre, e com eles emulou com entusiasmo a princesa real.”

Georgina de Albuquerque emprestou toda a sua grande alma, todo o seu sentimento e a sua maravilhosa técnica ao quadro, onde há figuras movimentadas e bem desenhadas, atitudes resolvidas e gamas resolvidas com grande saber.

Outras telas mandou a artista ao salão, telas onde há talento; Manacá, é uma perfeita obra de arte, um nu de mulher moça de carnação colorida.

Efeito de sol é outro belo espécime do seu valor, de feitura inteiramente moderna.

HELIOS SEELINGER nos dá um grande tríptico alegórico intitulado: Minha terra.

Na concepção do trabalho, o artista empregou todos os recursos da sua fantasia, concretizou tudo que tem feito e realizou um belo conjunto. Lá estão os cavalos movimentados, as figuras bizarras e a sua riqueza de cor, variada e brilhante.

Do pintor existem ainda outros quadros de real encanto, como Caravelas, Em procura de novas terras, Navio fantasma e Fantasma do mar.

O Sr. AUGUSTO PETIT, fugindo de sua técnica costumeira, nos dá uma paisagem rica de cor, empastada com rara habilidade e de boa perspectiva, não se parecendo nem de longe com que tem feito até aqui.

LEOPOLDO GOTTUZO, o fidalgo de sempre, brilha no envio feito. As figuras são sentidas, as suas paisagens mostram quanto é perfeita a sua visão e o seu sentimento.

GARCIA BENTO, ALVIM MENGE, GERMANO NEVES, JOÃO DE AZEVEDO, PAES LEME, MARIO TULIO, MANUEL SANTIAGO e JUSTINO MIGUEIS contribuem com eficiência para o brilho da nossa maior mostra de Arte. Todos eles enviaram trabalhos que se recomendam pelas qualidades e honestidade.

CARLOS OSWALD mandou uma grande tela: Viva a Independência!, com belas qualidades decorativas e composição agradável.

EDGARD PARREIRAS, com a sua expressiva tela: Solar Avoengo, atingiu uma situação de destaque conquistada a golpes de talento.

O seu quadro encerra qualidades sérias, reveladoras de um grande pintor, um paisagista valoroso e de grandes recursos. De lastimar é a disposição regimental que impede o artista que já tenha estudado no estrangeiro de concorrer ao prêmio de viagem. A ele é que devia ser conferido o prêmio de viagem sem comparação; o seu quadro vale por uma dúzia do que foi premiado, que, incontestavelmente, é uma péssima manifestação de arte; não compreendemos como se consegue uma Iracema tão feia, sem desenho... mas deixemos o pintor premiado, esquecíamos que nos propusemos a não fazer crítica, e sim uma crônica otimista... No quadro do EDGAR PARREIRAS, há um encantamento especial, uma luz que inebria e um empastamento que empresta à paisagem uma nota alegre, as gamas bem postas jogam para longe.

Edgar Parreiras é, enfim, um pintor que nos honra sobremaneira.

JOÃO FAHRION apresenta-se com um conjunto agradável, destacando-se o retrato Mlle. X, uma bela e expressiva cabeça, com sérias qualidades de pintura.

LUCILIO DE ALBUQUERQUE contribuiu com uma série de pequenos trabalhos, perfeitamente interpretados e grande luminosidade; são eles: Igreja, Casa histórica, Uma rua e Beco do Salto, todos executados na lendária São João Del Rei.

PEDRO WEINGÄRTNER, o velho pintor rio-grandense, apresentou-se com um bom conjunto de trabalhos reveladores da sua operosidade. Muito folgamos em vê-lo contribuir para o realce do Salão do Centenário e não podemos sobre a individualidade do ilustre pintor, antigo professor da Escola de Belas Artes: “Mera casualidade favoreceu-nos a encontro com Pedro Weingärtner, há poucos dias chegando ao Rio. Encontramos - o na Galeria Jorge, em palestra amistosa num grupo de artista. De pequena estatura, com a cabeça já quase branca, inspira simpatia a quantos se lhe aproximam, conhecemos-lo em Roma, há quase três lustros.

O seu ateliê, em via Margutta era um verdadeiro repositório de coisas de arte, metodicamente grupadas; peles raras de animais da terra distante punham no ambiente um que de saudade... Nesse ambiente vivia o pintor, trabalhava de sol a sol, produzindo obras de real encanto. Filho de pais alemães, nasceu no Rio Grande do Sul em 1858. Estudou em Berlim e Munique, onde frequentou as respectivas academias, e mais tarde em Roma em virtude de uma pensão que lhe foi concedida pelo maior dos protetores da arte brasileira, o imperador D. Pedro II.

O gênero de pintura a que o artista se tem dedicado pode-se dizer que é o de costumes, pois grande parte dos seus quadros representa cenas de sua terra natal. Em todos os seus quadros revela um conhecimento profundo da sua arte; a perspectiva e a cor casam-se harmoniosamente. A crítica justa tem sempre louvado a sua operosidade, os adjetivos têm sido aplicados sem favor; a maneira por que o ilustre pintor interpreta os assuntos que abraça, dá-lhe foros de analista profundo; os menores detalhes merecem ao artista cuidado especial, observação dosada, o que empresta aos conjuntos uma sobriedade impecável.

A notoriedade de Pedro Weingärtner atualmente goza ira prevista nos seus primeiros trabalhos. Os quadros que possuem na Galeria Oficial são a mais palpitante prova do seu talento. São duas telas emotivas, de assuntos diversos: Muito tarde! e Derrubada. No primeiro vê-se um conjunto de figuras ambientadas, portadoras de desenho rigoroso e expressão própria; em Derrubada, Weingärtner apresenta-se como paisagista seguro. A galhada que se vê em plano de destaque é interpretada como segurança, o desenho dos troncos é tratado como honestidade e rigor. Não há massas confusas para enganar o observador, nem malabarismos exagerados. As nuances e o claro-escuro têm aplicação equilibrada, o que forma um reunião de qualidades estéticas dignas do justo renome do pintor”.” Pedro Weingärtner é um dos nossos velhos artistas, a sua estadia no Salão deve ser olhada com alegria por todos, pois ele é digno de todas as suas homenagens.

De ANGELINA FIGUEIREDO figura no Salão uma paisagem: Tronco secular, interessante de corte e simpática de coloração.

Angelina Figueiredo, pertence ao grupo de mulheres artistas que vêm há alguns anos produzindo trabalhos de real mérito.

SARAH VILLELA FIGUEIREDO é outra pintora que muito contribuiu para o triunfo do Salão do Centenário. Os seus retratos são possuidores de magníficas qualidades de caráter, são bem desenhados, possuem cor e bons cortes. Vimos pelo seu auto-retrato que é muito jovem ainda; da sua mocidade ousamos esperar obras de grande valor. Auspiciosa para a pintora é a inclinação para o retrato, pois a maioria das nossas jovens que se dedicam à “pintura” prefere o ligeiro quadrinho de frutas ou de flores... feitos de cór.

ARMANDO MARTINS VIANNA é um novo que muito promete. Nos seus trabalhos existem frisantes indícios de uma envergadura de artista; acompanhamos-o há algum tempo, tanto no salão como nos seus trabalhos escolares, e ainda no ano passado tivemos a oportunidade de ver trabalhos seus, tratados pelo difícil gênero da aquarela, trabalhos que deixavam entrever os progressos que hoje apresenta nas telas expostas; Minha senhora, é um belo exemplo do seu talento; no retrato há qualidade flagrantes e uma gama de artista.

MANUEL CONSTANTINO GOMES é também um novo. Mas, um novo de valor.

O Retrato da senhora R. G. e seu filho é um dos quadros que agradam ao primeiro exame, tendo pequenos defeitos, que, entretanto, não prejudicam o conjunto da obra. Há na tela do jovem artista, detalhes de grande valor, o panejamento é muito bem resolvido, as duas figuras estão harmonizada e bem pinceladas. No emprego das cores percebe-se uma inclinação para os efeitos fortes. Continue o jovem pintor na estrada que vai e terá, muito em breve, os frutos que merece.

JORGE DE MENDONÇA, como sempre, nos dá um conjunto honesto e muito harmonioso.

LUIZ KATTEMBACH é um dos nossos jovens que vem caminhado com segurança nos nossos salões. Este ano apresenta-se com um retrato de senhora, onde há belas qualidades.

GASPAR DE MAGALHÃES mandou ao salão um retrato de senhora. Como sempre, o trabalho do pintor está amparada por um interpretação honesta que faz bem ao espírito do observador. Desenhado com segurança, garantiu ao artista um lugar de destaque entre os de sua geração - geração brilhante.

O trabalho de Gaspar Magalhães é composto por grande simplicidade, a pincelada é fraca e a coloração fresca.

De JOSÉ MARQUÊS CAMPÃO, as no Salão um tela sugestiva e encantadora: Pose un regard profond qui couve et qui protége.

RAUL DEVEZA expõe dois retratos bem tratados. Apresentam-se ainda, firmando trabalhos que se recomendam, a senhoras ADELIA SALDANHA, GEORGINA VIANNA, Haydée Lopes, Irene França e Marietta Galliez.

MARQUES GUIMARÃES nos dá um Altar cívico pavoroso!

ARTHUR LUCAS, apesar de doente mandou uma grande tela, A queda do gigante, onde dá predicados de valor.

O quadro representa uma grande árvore fendida pelo machado dos lenhadores. Vê-se o tronco atacado em ambos os lados, flores, cipós e lascas de madeiras pelo chão.

A grande tela é testemunho de uma vontade de lutar contra a fatalidade, é um esforço digno de ser imitado.

Muito de propósito deixamos para final desta crônica o nome de OSWALDO TEIXEIRA. A vida dessa criança privilegiada nos é familiar. Recordemos ainda os seus primeiros passos vacilantes nas aulas do Liceu de Artes e Ofícios. Não nos admira o furor que os seus trabalhos vêm causando, tinha de ser assim; realmente, Oswaldo Teixeira é um talento pouco vulgar para a pintura, ele vence em poucos minutos, dificuldades que outros levam anos a transpor...

O conjunto de trabalhos que mandou ao salão é notável, pelas qualidades e pelo número. Em todas elas há emoção, desenho e a preocupação de fazer arte.

Avó, O homem da rosa e Leblon, são perfeitos frutos de um artista feito.

Avó reproduz uma cena vulgar; mas o Homem da rosa é mais que isso, é um quadro onde há um dose de filosofia, uma encarnação espiritual pronunciada; em Leblon é a nossa natureza, é o nosso bravio que bate as pedras beijadas pelo sol, é a poesia luminosa da espuma bordando caprichosos desenhos na crista das ondas...

A individualidade de Oswaldo Teixeira é vigorosa, polimorfa; os motivos, sejam eles quais foram, bailam na sua paleta.

A alegria, a dor, o feio, o ridículo, encontram no jovem pintor um interprete seguro; a essa criança que pinta e desenha como um encanecido artista podem ser aplicadas as palavras de Pascole, felizes palavras de que Mario Pilo lançou mão para abrir um dos seus mais belos capítulos de estética: Iofrendo un pó de sílice, de quartzo; lo fondo, aspiro e soffio poi dilema: vedi la fiala come un di marzo azzurra e grigia, torbida e serena! Um cielo io faccio com um pó di rena e un pó di fiata. Ammira: io son l’artista!

Oswaldo Teixeira é já um belo artista, mas está idade perigosa, caminha em um fio sobre um abismo profundo; se lhe faltar a energia para repelir os maus conselhos e as influências detestáveis do modernismo achincalhante, precipitar-se-á; e o cabotinismo contará com mais um soldado impotente para enfrentar a verdadeira concepção do belo. Temos dentro da própria mocidade brasileira dos nossos dias, dois exemplos frisantes que nos animam a externar semelhantes conceitos “passadistas”, mas sinceros; duas formosas inclinações perderam-se pelo modernismo: Dias Junior e Henrique Costa. Talento não lhes faltava, faltou-lhes envergadura para lutar as mesmas correntes que ainda hoje procuram perder os que realmente tem valor.

Siga Oswaldo Teixeira a estrada de seus mestres e verá daqui há alguns anos que nossas palavras são amigas e o nosso desejo e vê-lo triunfante, representam mais alguma coisa do que vontade de elogiar.

A secção de escultura, desta vez apresenta-se com um belo número de trabalhos.

A maioria deles é possuidora de reais qualidades. Uma figuras de destaque da secção, é, sem dúvida, LEOPOLDO E SILVA; já estudamos a sua individualidade, mostramos com franqueza o valor de sua obra: “Os trabalhos que enviou ao são atestados flagrantes de que a benevolência não tem sido a mola impulsora de apreciações elogiosas à sua obra.

Leopoldo e silva é dotado de uma percepção justa das massas; o empastamento da escultura é feito de uma forma encantadora, principalmente nos mármores”.

FRANCISCO DE ANDRADA enviou um retrato, um busto perfeitamente executado, possuidor de qualidades magníficas.

ANTONINO MATTOS mandou uma cabeça de mármore, onde há muito sentimento.

BIBIANO SILVA expõe o original em gesso patinado do Monumento comemorativo do Centenário, para o Estado do Rio Grande do Norte. HUMBERTO CAVINA mandou um conjunto digno de registro, onde se destaca Aná-Retã, uma estátua com qualidades de expressão e muito movimento. CORRÊA LIMA fundiu em bronze a sua fonte Juventude e Menina e Moça, e mandou-as novamente ao Salão; em ambos os trabalhos, o artista mostra bem o que é. Outras obras mandou ainda o escultor, obras perfeitas como o Busto de Flexa Ribeiro e Cabeça de Menino. LAURINDO RAMOS, ENZO ORSINI, FINTA DI ABA e MARGARIDA L. DE ALMEIDA, mandaram trabalhos que se recomendam. LEÃO VELLOSO e SAMUEL M. RIBEIRO concorreram com belos trabalhos portadores de grande talento escultórico. PINTO DO COUTO contribuiu com um bom conjunto. Na secção de gravura de Medalhas e Pedras Preciosas, brilha o nome de LEOPOLDO CAMPOS; apresentaram trabalhos também os artistas: D. DINORAH DE SIMAS ENÉAS, ARLINDO BASTOS, BARACHO, FRANCISCO MARINHO, HERMINIO PEREIRA e JORGE SOUBRE.

ERCOLE CREMONA


Imagens

BUSTO DE EPITÁCIO PESSOA, EXECUTADO POR CORRÊA LIMA

“À BEIRA DO AÇUDE” (FRIBURGO), POR JOÃO BAPTISTA DA COSTA

“O LAR”, TRÍPTICO DE ELISEU VISCONTI

“PRIMEIROS SONS DO HINO DA INDEPENDÊNCIA”, POR AUGUSTO BRACET

“ANUNCIAÇÃO”, POR PEDRO BRUNO

“MANACÁ”, POR GEORGINA DE ALBUQUERQUE

“BARCO”, POR GARCIA BENTO

“AUTO-RETRATO” DE SARAH VILLELA FIGUEIREDO

“RETRATO DE MME. B. E”, POR LUIZ KATEMBACH

“SOLAR AVOENGO”, POR EDGARD PARREIRAS

RETRATO DA “SENHORA R. G. E SEU FILHO”, POR M. CONSTANTINO GOMES RIBEIRO

“RETRATO”, POR GASPAR COELHO DE MAGALHÃES

“POSE UN REGARD PROFONDE QUI COUVE ET QUE PROTÉGE”, DE JOSÉ MARQUES CAMPÃO

“A QUEDA DO GIGANTE”, POR ARTHUR LUCAS

“AVÓ”, POR OSWALDO TEIXEIRA

ASPECTO DA SEÇÃO DE ESCULTURA E ARQUITETURA

“ANÁ-RETÔ, BRONZE DE HUMBERTO CAVINA

“A ESPOSA DA MORTE” (JANDYRA), MÁRMORE DE LEOPOLDO E SILVA

“RETRATO DO ARQUITETO FRANCISCO SANTOS”, BRONZE DE FRANCISCO DE ANDRADE

“MENINA E MOÇA”, BRONZE DE CORRÊA LIMA

RETRATO-MÁRMORE DE H. LEÃO VELLOSO

“AFFONSO LOPES DE ALMEIDA”, GESSO DE SAMUEL R. RIBEIRO

MEDALHA DE FRANCISCO MARINHO – (PUNÇÃO DE AÇO)


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Ana Beatriz Domingues, Caio Paz, Marcela Moraes e Marcele Frossard

CREMONA, Ercole. O Salão do Centenário. Illustração Brasileira, ano IV, n. 29, jan. 1923, n/p.

Ferramentas pessoais
sites relacionados