. CREMONA, Ercole. O Salão de 1923. Illustração Brasileira, ano IV, n. 37, set. 1923, p. 11-16. - Egba

CREMONA, Ercole. O Salão de 1923. Illustração Brasileira, ano IV, n. 37, set. 1923, p. 11-16.

De Egba

Edição feita às 15h02min de 10 de Julho de 2010 por Egba (Discussão | contribs)
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Animador é o aspecto do Salão de Belas Artes do corrente ano, a despeito dos reiterados ataques de um grande grupo de pessimistas. Se há iniciativa que mereça ser julgada com uma dose de filosofia otimista, é precisamente a Exposição geral de Belas Artes, anualmente levada a termo pelo Conselho Superior.

Pouco a pouco evoluímos, já se não vê a "quitanda" de antigamente, o regime do sarrafo e da serapilheira não existe mais e a mocidade já tem uma preocupação de produzir e formar uma individualidade característica. Só a última circunstância deve ser para todos nós um motivo de alegria e de recíprocas congratulações.

Os artistas moços primam pelo trabalho esforçado e pela exibição de talento.

Sejamos, pois, indulgentes e otimistas para os fracos, desejosos de acertar na espinhosa estrada da Arte.

Iniciaremos os nossos comentários pelos moços.

Em todo o turbilhão de cores há uma tela que prende a atenção dos olhos experimentados. É uma cena de atelier, modesto.

Uma figura jovem, muito clara, com tons limpos, predomina no quadro; à esquerda, sobre um cavalete, está um busto de mulher ainda em terra e ao fundo baixos-relevos perdidos em planos mais afastados.

É o retrato do escultor Paulo Mazzucchelli, pintado pelo jovem artista CANDIDO PORTINARI, uma verdadeira promessa de pintor. A tela é possuidora de qualidades verdadeiramente notáveis para a idade do seu autor, o desenho é bom, revelando um grande desembaraço; a pincelada é franca e o ambiente justo. O quadro não é uma obra isenta de erros, porém, é já um documento valioso, uma nota onde se percebem uma certa independência e vontade de individualismo. Outro jovem que se apresenta bem é OSWALDO TEIXEIRA. O moço pintor mandou ao "Salão" um conjunto de seis trabalhos: "Sinite parvulos venire ad me Talium est enine regnum coelorum", "Retrato do Dr. A. M.", "Recostada", "Retrato do Sr. V. L. R.", "Adolescente" e "Fim de missa". Do grupo de telas destacamos os retratos e "Recostada". Nos retratos, o pintor mostra-se seguro do desenho e possuidor de uma técnica digna de registro; no grande quadro de composição, percebe-se uma afoiteza, uma precipitação prejudicial; grandes defeitos são visíveis sem o menor esforço, o próprio desenho tão familiar ao artista acha-se sacrificado.

Apesar de erros incontestáveis, a tela é uma peça de valor, onde o talento do pintor está flagrantemente espelhado. Permita-nos o artista um pouco de franqueza; julgamos poder usar dela, pois acompanhamos a sua vida artística desde o tempo em que vestia calças curtas e frequentava as aulas do Liceu de Artes e Ofícios; falamos como amigo e com a experiência de causa própria: não se fie nos demasiados elogios, eles são a causa da precipitação com que pintou o grande quadro.

A obra de verdadeira Arte deve ser amadurecida e seriamente meditada, assim sendo, não acontecerá como agora acontece ao jovem artista que produziu uma tela onde as falhas existem, não por falta de conhecimentos, mas por falta de meditação, de crítica leal dos que convivem com o pintor e o incitam ao malabarismo de pincel.

A obra de arte pode ser bela sem serem precisas acrobacias e outras condições doentias... Não veja o artista, nas nossas palavras, a pretensão de aconselhá-lo, não temos autoridade para tal fazer, porém temos o direito e o dever de dizer com franqueza e lealdade o que acabamos de declarar! ...

CEZAR TURATTI dá-nos um retrato da "Senhorinha Wanda Bronde" onde há sentimento e condições agradáveis de pintura; o desenho resente-se um pouco, porém o conjunto do trabalho é agradável. MANOEL CONSTANTINO apresenta-se bem com "Edith" e "Retrato"; o primeiro é, entretanto, superior ao retrato, a cabeça de criança é modelada com segurança e muito expressiva. Como composição, [...]


Imagens

BAPTISTA DA COSTA - “EM PLENA NATUREZA"

BAPTISTA DA COSTA - “NÉVOAS DA MANHÔ

PEDRO BRUNO - “YARA”

GEORGINA DE ALBUQUERQUE - “FIM DE PASSEIO”

LEOPOLDO GOTUZZO - “ANTIGO FORTE DO LEME”

MANOEL FARIA - “RETRATO”

ARGEMIRO CUNHA - “SEARA DE ESPINHOS”

CARLOS CHAMBELLAND - “COMUNGANTES”

LUCILIO DE ALBUQUERQUE - “A CURVA DA ESTRADA”

AUGUSTO BRACET - “DIREITO DE ASILO”

FERNANDES MACHADO - “SÍMBOLO DA FÉ”

THEODORO BRAGA - “SENHORA”

EDGARD PARREIRAS - “MANGUEIRA”

AMADEU ZANI - “VERDADE”

ANTONINO MATTOS - “DETALHE DE MONUMENTO”

SARAH VILLELA FIGUEIREDO - “RETRATO DA SENHORITA L. B.”

MEDALHAS DO PROFESSOR AUGUSTO GIRARDET

PAULA FONSECA - “RECANTO DE FAZENDA”

LEOPOLDO CAMPOS - “MARABÁ”

HUMBERTO CAVINA - “S. FRANCISCO DE ASSIS”

VICENTE LAROCA - “RISONHA”


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

CREMONA, Ercole. O Salão de 1923. Illustração Brasileira, ano IV, n. 37, set. 1923, p. 11-16.

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