. COSME, Peixoto. O SALÃO DE 1894 III. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 26 nov. 1894, p. 1. - Egba

COSME, Peixoto. O SALÃO DE 1894 III. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 26 nov. 1894, p. 1.

De Egba

Edição feita às 22h45min de 19 de Fevereiro de 2016 por Egba (Discussão | contribs)

O que se vai ler não é a continuação da crítica das obras d’arte expostas no Salão; é, num entre parentêsis, que procurarei limitar o mais possível a contestação exigida pelo artigo de Marial, na Gazeta de Noticias de 23 do corrente.

Já o disse em carta dirigia à redação desta folha: congratulo-me comigo mesmo por ter fornecido ensejo ao defensor do sr. Bernardelli [Rodolpho Bernardelli] para escrever qualquer coisa sobre o seu ídolo; e, como remuneração deste pequeno serviço, apenas quero que o leitor, com alguma paciência, me acompanhe nas observações prévias que vou fazer a respeito de Marial.

Notemos em primeiro lugar que ele é homem linfático, e em sumo grau. Viu o artista de sua predileção, o seu Canova, o seu Fídias, subir ao pináculo da glória, realizar a mais sublime concepção da estatuária moderna, atingir ao zénite no firmamento da arte nacional - e não se mexeu nem sequer para saudá-lo com um daqueles artiguetes que são a papa mais fina dos leitores da Gazeta. “Faltava-lhe oportunidade”- diz Marial friamente.

Que fleuma! Que linfatismo!

Depois, num belo dia, aparece o meu pobre folhetim; e Marial, molia! O meu artigo apareceu no dia 17; e apenas seis dias depois é que Marial sai a campo, e assim já meio fatigado, como quem dá um recado de encomendar, sem convicção na causa que defende, limitando-se a dar como provado o ponto em discussão, e invocando falsos argumentos ad hominem para terminar o debate…

Que deduzir de tudo isso, leitor sagacíssimo? Sem dúvida já o adivinhaste. Marial somente deu de si aquilo muito constrangido e para satisfazer ao amigo. Parece-me que os estou ouvindo:

- Ó Marial, então não há quem me defenda? Fica sem resposta o canalha do Cosme?

[…], o melhor é não fazer […] aquele debaixo da barriga da estátua, de que falava o Lulu Senior no folhetim da Noticia de 10 de novembro? (*)

- Almoços não hão de faltar, com a graça do orçamento, aos bons amigos, compadres e críticos imparciais; mas não se trata disto; é preciso bater o Cosme.

- Melhor seria entregá-lo ao desprezo, ou pedir ao público que suspenda o juízo; mas, enfim, se fazes gosto, sempre mandarei ao Parlagrecco que diga qualquer coisa. Ele é tão cientista!

- Não; deves ser tu mesmo, com a tua verve inimitável, o teu estilo diamantino, o teu apetite… diabo! O teu talento inexcedível.

- Está dito: hoje é 19… Em quatro dias fica pronto.

- E que seja de escacha; sim?

- Não tem dúvida; quando eu pego, é deveras. O Cosme está desmoralizado.

- E não te esqueças de dizer que é por inveja.

- Não; direi primeiro que dói por despeito. O mais forte fica para o fim.

E ora ali está como se explica a argumentação mole do notável escritor. Não é de fundo o seu artigo, mas literalmente a pedido. Não se vê ali a vitória da convicção servida pelo amor de uma causa: é simplesmente uma por conta, ao escapar e para satisfazer indiscreta rogativa.

***

Marial labuta em grave engano quando me atribui despeito. Despeito por quê? Acredita que, ainda quando fosse eu amigo de algum dos antigos mestres da Academia, haja entre estes quem se repute infeliz por ter deixado a cruz do ensino artístico, entendido como eles o entendiam, com labor assíduo e fatigante, porque então ainda não se tinha inventado o modo de ensinar e dirigir Chicago uma escola e uma aula no Rio de Janeiro? Não; os velhos mestres da antiga Academia devem estar satisfeitos com o que fizeram no seu pardieiro (como delicadamente diz Marial) e decerto não desejam voltar a ele.

Pedro Americo (um dos do pardieiro) pode morrer sossegado, na certeza de que por ele ficam falando a Batalha de Avahy e a de Campo Grande, cuja contemplação recomendo aos escultores que não saibam fazer cavalos; Victor Meirelles, com a sua Primeira Missa, os seus Guararapes e o seu Riachuelo desafia o confronto das botas geniais do Bernardelli (Henrique) e das pastelarias do Amoedo, seus ingratos e degenerados discípulos; Chaves Pinheiro, se vivo fosse, poderia responder a Marial que, quando o Vasques pediu ao Bernardelli (Rodolpho) uma estátua para eternizar no bronze a memória de João Caetano, o brilhantíssimo estatuário nada julgou melhor do que tirar do pardieiro a obra do mestre, a qual hoje figura em frente da escola Nacional; e Bettencourt da Silva limitar-se-ia a apontar silencioso todos os edifícios em que imprimiu cunho arquitetónico cujos encômios fácil seria desentranhar das coleções da Gazeta, sendo talvez produtos da mesma pena de Marial.

Mas não enveredemos por ai, que seria inútil. Eu não defendo a antiga Academia, que, como todas as instituições trucidadas, aguarda, na imobilidade da morte, um julgamento mais sereno que o dos contemporâneos… Eu pergunto o que se pôs em lugar da assassinada. Olho, e só vejo aleijões artísticos ou produtos insignificantes e nulos. Em torno diviso meia dúzia de jornalistas, comensais e compadres dos artistas madraços e vaidosos, a rufar desesperadamente no Zé Pereira do engrossamento.

Protesto, e estou no meio [sic] direito. Não entro na vida íntima, não injurio os homens. Demonstro os erros, aponto os ridículos, evidencio o grotesco das reputações colossais e das obras liliputianas. É natural que isto incomode; paciência! Marial que se resigne a ler-me, e, no fim, o seu bom senso, algum tanto lerdo e bonacheirão, talvez o induza a reconhecer que eu digo muitas verdades.

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