. CASTRO E SILVA. NA ESCOLA NACIONAL DE BELAS ARTES - A verdade sobre o “Salão”. O Imparcial, Rio de Janeiro, 16 ago. 1920, p.14. - Egba

CASTRO E SILVA. NA ESCOLA NACIONAL DE BELAS ARTES - A verdade sobre o “Salão”. O Imparcial, Rio de Janeiro, 16 ago. 1920, p.14.

De Egba

Mais uma vez tive a sensação horrível de me encontrar frente a frente com a natureza.

O homem detesta a realidade, e por isso com a imaginação que tem doira-a de múltiplos aspectos subjetivos. Não enaltece a vida porque a morte é mais misteriosa. Sonha em torno de si. E desse sonho de que se consola, cria uma natureza nova: a Arte.

Todos aqueles quadros, um por um, iam-me levando através de um mundo desconhecido. Era um país sem sombras, sem reflexos, sem expressão. A natureza sem o homem.

Deus meu! Que direi, este ano de tudo isso!

Primeiramente, nos “salões” futuros é necessário acabar com aqueles cordões de capinzal, aqueles verdes monótonos que se enroscam em torno das paredes, pelo assoalho, sobem até o teto, descem por cima das molduras, numa simetria burlesca de infinito mau gosto.

Nessa casa de artistas não há decoradores, nessa colmeia de gênios falta o gênio simples da ornamentação. Se minguam os recursos, se escasseiam as verbas, fiquem ao menos, com a pobreza honesta, que é muito mais sincera, mais emotiva, mais interessante.

Desta vez, como que levada por um súbito pudor bem entendido a exposição foi esconder-se lá para o fim da Escola, nos últimos quartos, na cozinha, pelos corredores, deixando vaga, triste e deserta a grande sala de entrada que nos outros anos ostentava um tão grande número de esculturas. É o que primeiro se nota: ou a Escola cresceu ou a exposição diminuiu. E diminuiu de fato. Os escultores tiveram outras coisas a fazer (o que é habitual) ou não deram importância ao “certamen”.

O Sr. Leão Velloso, todavia compareceu firme. “Um sonho” e “Evocando” eis o que mandou.

E é preciso fazer justiça. Este moço está cada vez melhor, a sua técnica muito mais segura a sua inspiração muito mais larga. ”Evocando” é ele mesmo, num auto-retrato a Rodin, quer dizer, pouco parecido... no corpo., mas com infinita harmonia d’alma, uma nebulosidade que encanta, que seduz. “Um sonho” é ainda Rodin ... pelo assunto. Num rochedo, quase deitada, a virgem oferece os lábios à mocidade. Mas o Sr. Leão Velloso, segundo me disse, quis interpretar o beijo ideal, o beijo sentimento, e não o beijo paixão. Doutro modo, como se explicaria a fisionomia do efebo, parada, imóvel, sem uma ruga, um espasmo, um traço que defina a violência da atitude?

O Sr. Leão Velloso, precisa evoluir neste particular. Mas evoluirá. A sua arte é segura, sente-se o contínuo progresso do seu esforço, a sua tenacidade. Retifico, pois, o que disse em 1919: ele é a nossa maior promessa e virá a ser o maior escultor do nosso meio.

Quanto à pintura paremos, para começar, um inquérito muito representativo.

Quais as correntes que nela dominam? Qual o pensamento medular a linha reta que atravessa como uma diretriz, as composições, os temas?

Se não contei errado o gênero preferido foi o retrato. Segue-se logo a paisagem propriamente dita, por fim as marinhas. Dos primeiros há quarenta e dois. Dos segundos vinte e sete, mais ou menos. Dezesseis das terceiras.

Principiemos pelo principio. “Alguns amigos”, do Sr. Guttmann Bicho é muito interessante. Aparecem, na tela, figuras notáveis da geração. O Sr. Ronald de Carvalho, o Sr. Rodrigo Octavio Filho, etc.

Enquanto o Sr. Ronald de Carvalho chora, o Sr. Rodrigo Octavio abre ambos os olhos muito abertos e fita um caixão mortuário onde o talento do Sr. Guttman espera o enterro.

Eu modifico, pois o título do quadro de “Alguns Amigos”, para “A espera do enterro”.

O Sr. Fernandes Machado (Joaquim) é impagável. O “Retrato” que expõem é de um tal realismo! de uma tal simplicidade! Olhai bem para aquele chapéu, para aquela gravata, para o que o retratado tem na lapela. Será a “Legião d’Honra”? Será um abacaxi? Que será?

Depois da burocracia vem o positivismo. Aqui o motivo é mais vasto. O Sr. Eugenio Lateur [sic] mostra-nos um “Dia de audiência”. Analisando filosoficamente os mordedores do estado o artista pinta-os todos microcéfalos, achatadinhos. Que ironia! E que simplicidade! É isso mesmo. Até a bandeira está perfeita. As letras da “Ordem e Progresso” são uma maravilha de ficar pasmo! Mas não lhe está atrás o “Primeiro Pecado”, do Sr. Almeida Junior [Luiz Fernandes de Almeida Júnior]. Mesma dúvida, que com o Sr. Joaquim Fernandes. Não se sabe se aquele Adão e Eva, qual é Eva qual o Adão, apesar de um estar oferecendo a maçã (creio que é a maçã porque parece uma cereja) ao outro.

A cobra que se enrosca na árvore, simbolicamente, só é cobra por simbolismo.

Passemos às paisagens. A natureza, objetivamente, é muito menos prosaica que o homem! Mas, ainda assim, afora o Sr. Baptista da Costa (“Tarde Calma”, “Últimos raios do sol”), que tem o defeito de copiar-se de 12 em 12 meses, um pouco monótono em tudo o que faz, o Sr. Argemiro Cunha (“Caminho do Porto”) discípulo do Sr. Baptista da Costa, mas menos meticuloso, menos efeminado do que ele; afora o Sr. Otto Bunger, o que não é brasileiro, mas sabe distinguir a cor, a tonalidade do céu da sua pátria, do nosso céu de um azul índigo, de um azul tão diferente dos outros azuis; afora o Sr. Edgard Parreiras que também já nos anda a repetir os assuntos; pouco há que se aproveite.

Nas marinhas destaco o Sr. Antonio G. Bento - cujo defeito principal é não ter alma. “Cais do Porto” está tão bem feitinho que não parece uma marinha: parece o próprio Cais do Porto.

Vejamos agora o Sr. Servi: é um pintor de frutas. Tem jeito e algum mérito. Mas por que não retirou dos seus “Estudos” aquela insuportável cerâmica, aquele jarro que está ali como um lobo entre as ovelhas?

-

Não pretendo, porém, porque acho inútil, descrever, um a um todos os trabalhos. Cedo o lugar aos biógrafos da crítica.

E vamos ao que importa. Que nos dá a exposição? Que nos promete? Nada ou muito pouco. Não encontrei em todos aqueles retratos um ser humano, em todas aquelas paisagem [sic] um recanto da vida, em todas aquelas marinhas a poesia, o sentimento, a alma do oceano.

Como um fotógrafo que confia no mecanismo do seu aparelho estes nossos artistas não acrescentam coisa alguma ao que vêm [sic], parece que tudo é banal, inferior aos olhos deles.

Pessoas que nós não teríamos a coragem de tolerar mais de cinco minutos, se isso, são imortalizadas em obras passageiras com uma meticulosidade apavorante. Não há uma ideia, uma extravagância mesmo, mas uma ideia, uma só. Minto. Há uma exceção. Admiremos agora o que ela exprime.

O Sr. Alberto Martins Ribeiro quis expressar, concretamente um grande número de conceitos abstratos “Visão interior”, disse-me o Sr. Martins Ribeiro, é o homem, filho do fogo que é a essência da vida, debatendo-se em contorções, em ânsias, em desejos no entrechoque doloroso do passado e do futuro.

“Quis acentuar disse-me o autor, a luta do espírito e da matéria. Aquele se emaranha em constantes contradições.”

No entanto se a ideia é excelente, digna de qualquer mestre, a execução não está, nem podia estar no mesmo plano.

Faltam às chamas intensidade nervosismo, crispações. Mas o fundo do quadro onde mal despontam esqueletos, mãos, sombras, atesta as qualidades eminentes deste incultivado artista.

O quadro é certo não valerá por si. Mas comparando-o com a “Patrulha” do Sr. Hermogenes Marques onde os cavalos não tem movimento nem perspectivas, comparando-o com a “mesmice” da pintora americana Cecil Clark Davis (que segue o espírito de imitação da sua terra onde só se “pasticha” Velasquez, comparando-o com o Sr. Lucilio de Albuquerque que nos mostra um “Retrato” onde é preciso mudar duas coisas: o tapete feiíssimo e as crianças que empastam o conjunto e desviam a atenção do motivo principal - creio que se pode dizer com certeza que o Sr. Alberto Martins Ribeiro tem muito mais talento embora com muito menos estudo.

O que deve predominar numa obra de arte é o lado interior, o lado subjetivo.

O realismo só existe em teoria. Os próprios holandeses souberam animar as coisas inanimadas, por exemplo, um fim de jantar em que a mesa tem tanta vida que se sentem e quase que se conhecem as pessoas que a deixaram a [sic] pouco. Que poema não há num quadro destes! Toda a poesia burguesa e pacata da Holanda, a existência, a ocupação, a figura, o sexo, tudo isso eternizado, sugerido por um copo, uma simples côdea de pão.

Mas como é desanimador este outro espetáculo da natureza através da arte medíocre! Porque Deus, criando o pensamento, criou um mundo novo (um mundo que não existe na XXVII exposição da nossa “Escola”), um mundo onde a matéria se transforma novamente em espírito, o granito em catedral, onde a natureza não está mais frente a frente conosco em sua brutalidade, em sua insensibilidade, mas sim pairando entre o amor e a fantasia, muito mais perto da (...) e da beleza suprema!

CASTRO E SILVA.


Imagem

“Por mares nunca dantes navegados”


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

CASTRO E SILVA. NA ESCOLA NACIONAL DE BELAS ARTES - A verdade sobre o “Salão”. O Imparcial, Rio de Janeiro, 16 ago. 1920, p.14.

Ferramentas pessoais
sites relacionados