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BONESCHI, Paulo. A XXXIII Exposição Geral de Belas Artes. IMPRESSÕES RÁPIDAS. O Globo, Rio de Janeiro, 16 ago. 1926, p. 8.

De Egba

(Conclusão da edição extraordinária de hoje)

telas duma maneira fiel, honesta e sincera. Foge aos fáceis e rendoso processos dos malabaristas do pincel e se a sua visão artística é prevalentemente objetiva, a sua pintura não deixa de ter um cunho caracteristicamente pessoal.

O corte suas paisagens é geralmente agradável, justa a perspectiva, definidos os planos, exata a cor.

Duas coisas aconselhamos a Manuel Farias: maior ousadia e menor preocupação dos detalhes, em vantagem das massas.

CANDIDO PORTINARI

Se não me engano, o jovem pintor paulista, que concorre este ano ao prêmio de viagem, alcançou já o máximo grau de sua evolução artística, e dificilmente poderá produzir obras melhores que as pintadas até hoje.

Os dois retratos do “Poeta Olegario Marianno” e do “Pintor Roberto Rodrigues”, bem desenhados e bem compostos, simples e sintéticos, são pintados com técnica moderna, faltando-lhes, entretanto limpeza de cor e vibração. Conseguiu, porém, Portinari fixar na tela, duma maneira feliz, a psicologia dos retratados.

ARMANDO VIANNA

Também concorrente ao prêmio de viagem, Armando Vianna apresenta quatro trabalhos: “Primavera em flor” ótima composição de ar livre; são cinco figuras de mulheres banhadas de luz, impecavelmente desenhadas e bem ambientadas. Vê-se claramente que o quadro foi conscientemente estudado nos detalhes e no conjunto.

As figuras são movimentadas, o colorido quente, bem compreendido o jogo complicado da luz e das sombras no ar livre. Parabéns.

“Meu pai” é um retrato bem construído e valorizado.

“Antes da festa” é um estudo de metais e cristais interessante.

Menos feliz foi Aramando Vianna em “Travessura”, ar livre representando crianças banhando-se no mar.

Faltaram-lhe os recursos técnicos para representar os reflexos da epiderme molhada.

MANOEL CONSTANTINO

Concorre ao prêmio de viagem com cinco trabalhos: “Infância de Giotto”, “Retrato de Corbiniano Villaça”, “A rosa branca”, “Sta. H. M. S.”, “Dr. Tapajoz Gomes”.

O temperamento artístico fino e aristocrático do jovem pintor revela-se na atitude das figuras, na escolha e na disposição dos objetos secundários na composição dos quadros, na elegância e na graça do desenho, na harmonia do colorido e na expressão dos vultos.

Manoel Constantino é o pintor das elegâncias.

Espírito observador, sua técnica é segura, sua pincelada certa.

Formamos votos, porém, que Manoel Constantino apurando melhor ainda a sua técnica, consiga dar à sua pintura maior solidez, maior volume às suas figuras, definir melhor massas e planos das suas paisagens.

SARAH VILLELA

Outra concorrente ao prêmio de viagem. Apresenta-se com três retratos: “Prof. Henrique Bernardelli”, “Dr. Amaury Medeiros”, “Sra. Fonseca Costa”. O primeiro dos três retratos tem qualidades técnicas apreciáveis.

MANOEL SANTIAGO

Concorre ao prêmio de viagem com cinco óleos e dois carvões.

“O curupira”, é composição original e equilibrada; o assunto puramente brasileiro da lenda amazônica empolgou o jovem artista que conseguiu criar com bastante felicidade o símbolo plástico da divindade indígena.

“A cabocla”, outra tela puramente brasileira; a figura de adolescente do primeiro plano bem lançada e bem construída destaca-se sobre a linda paisagem do fundo, representando um rio caudaloso.

“A carta” é um lindo estudo de nu, otimamente ambientado com escorços bem resolvidos.

Notamos, porém, dois ligeiros senões: os reflexos verdes da almofada sobre a carne parecem ser demasiadamente, fortes, e o braço esquerdo parece ser um tanto desproporcionado.

Notáveis os progressos técnicos realizados por Manoel Santiago.

JORDÃO DE OLIVEIRA

Esse jovem sergipano é uma promessa que está se tornando uma realidade.

Jordão de Oliveira é um desses temperamentos artísticos preocupados mais com o espírito de que com a matéria; com a expressão de que com a forma. A técnica deles é instintivamente torturada.

Gostamos sobremaneira da “Sanguínea”.

O óleo “Auto-retrato” é bastante interessante, e tem “caráter”. A indumentária deveria ser tratada com uma técnica melhor.

Jordão de Oliveira expõe mais duas telas: “Retrato do Dr. Neves Manta” e “Depois do trabalho”.

HAYDÉA SANTIAGO

Haydéa Lopes Santiago apresenta-se esse ano com um conjunto de trabalhos muito forte.

“Hora da missa” (Igreja de Santo Antonio) é um quadro histórico composto e pintado com mão de mestre.

Desenho e perspectiva impecáveis, colorido justo e muito movimento nas figuras, também nas que se perdem no último plano e que foram admiravelmente esboçadas.

“O romance” é um ar livre bem composto, com lindos efeitos de luz.

Haydéa Santiago expõe mais “O portão da chácara”, “Galinheiro”, “Os pombos”, e a “Tarde de verão”.

A técnica de Haydéa é bastante larga e vigorosa; seus verdes, limpos, mas um tanto crus e uniformes; seu sol amarelo de mais.

ANDRÉ VENTO

“Adoração ao sol” e “Adormecida”, são as duas telas expostas por esse talentoso pintor.

“Adormecida” é um lindo nu de mulher bem desenhado e ambientado.

“Adoração ao sol” é um painel decorativo duma composição simples, original equilibrada, notável pelo contraste da tonalidade azul predominante com a luz quente e avermelhada do sol poente. Mas por que colocá-lo no recanto mais escuro do salão?

OROZIO BELÉM

É com a maior simpatia que acompanho a carreira artística deste jovem pintor mineiro ainda adolescente e que já demonstra possuir qualidades técnicas raras de forte desenhista e de iluminado colorista.

Orozio Belem possui por natureza uma felicidade extrema em aprender e praticar os segredos da técnica pictórica e tem por instinto a noção das proporções, dos valores, das massas.

Com isso não quero nem posso dizer que ele seja um artista formado. Sua visão, até hoje exclusivamente objetiva e materialista, deve evoluir para abranger novos horizontes além das barreiras impostas pela natureza.

Orozio Belem deve cultivar o próprio espírito e apurar cada vez mais o próprio gosto; não procure, porém, espiritualizar a sua arte; seria um erro fatal; procure dar-lhe novas formas de vida de acordo com o seu temperamento fantástico e sensual.

Está em poder dele tornar-se um dos melhores artistas do Brasil.

“Yáyá” e o “Retrato” meu e de minha mãe são duas pinturas ao ar livre justas de cor e de valores.

O meu retrato é, sem embargo, a tela mais luminosa do atual salão, e é este talvez o seu merecimento principal. A paisagem que constitui o fundo do retrato podia ser tratada duma maneira mais sintética. Mas quem conhece as inúmeras dificuldades que oferece a paisagem reproduzida por Orozio Belém, avalia o merecimento desse jovem pintor em tê-las quase totalmente superadas.

Além disso, os dois retratos têm muito “caráter”.

HELIOS SEELINGER

“Pedro Malazarte” é o título e o assunto da tela exposta por Helios Seelinger.

Como composição é entre as mais felizes das produzidas pela fantasia inventiva, inesgotável do genial artista.

Assunto caracteristicamente brasileiro é desenvolvido por Helios com os elementos principais da nossa flora e da nossa fauna, harmonizados num conjunto homogêneo e ao mesmo tempo variado.

Lindas e originais as figuras simbólicas das mães d'água.

O quadro de Helios por sua natureza é prevalentemente decorativo pois nele entram elementos fantásticos, simbólicos e uma certa tendência estilizadora; falta-lhe, porém, um dos característicos principais da pintura decorativa: o contraste vivo das cores, e maior luz.

Apesar disso, a tela de Helios representa uma excelente produção do festejado artista.

GUTTMAN BICHO

Guttman Bicho pode ser hoje considerado um dos mestres da pintura brasileira.

Os seus quadros, eminentemente realísticos, são limpos de cor, cheios de luz, justos de perspectiva e de valores. São inconfundíveis.

No “Ar livre” prefiro a paisagem ao conjunto da composição.

O meu “Retrato”, bem composto e bem ambientado, muito fino de cor parece-me reproduzir com perfeição os traços característicos da minha fisionomia.

J. B. PAULA FONSECA

De volta do Velho Mundo nos apresenta duas paisagens: “Mercado de Florença” e “Recanto do Jardim de Luxemburgo”, pintado com uma certa largueza e preocupação moderna de limpeza de cor.

TU ES PETRUS...

Não se trata de Petrus bíblico, mas tão somente do Petrus Verdié, professor de “ornato” na E. N. B. A .

Tem ele de comum com o santo apóstolo as veneráveis barbas decorativas e o pendor por tudo quanto é barca.

E do conde da Barca é o medalhão-retrato que o nosso Petrus conseguiu impingir o ano passado ao governo federal, realizando a pesca milagrosa de dez contos de réis.

Petrus Verdié, “hors-concours” da seção de escultura, viu-se - sem maiores formalidades - abertas também as portas da seção de pintura.

Valeu-lhe a proteção do chaveiro celeste.

Brasileiro (naturalizado), despreza ele o vulgar idioma português; fala e escreve na língua dos deuses: fala e escreve em francês.

De “místico”, as pinturas de Petrus não têm nada, nem as “verduras” (Fruits), nem os fotográficos casebres (“maison”, “maisons” de “blanchisseuses”), que, sobrepondo-se uns aos outros, parecem querer escalar o céu numa louca corrida de Babel.

Serenamente mística (isso, sim...) é a falta de pudor com que alguns figurões do nosso Olimpo artístico, valendo-se de sua posição privilegiada, expõem, sem cerimônias, à apreciação do público suas próprias “botas”.

SEÇÃO DE ESCULTURA

A seção de escultura em seu conjunto apresenta-se mais fraca do que a de pintura.

Falta a grande composição onde pelo jogo das massas e pelas linhas gerais da composição mede-se o pulso do artista.

Abundam nessa seção, estudos de cabeças e estatuetas.

Salientamos entretanto: “Espontâneo” (gesso patinado, representando uma onça), notável pelo movimento, de Magalhães Corrêa; “Gaúcho” (gesso patinado) de Orestes Acquarone: e talvez a peça mais interessante e a cabeça mais expressiva da seção: “Calabar” e “Melancolia”, dois gessos bem modelados e singularmente expressivos (o segundo executado com alguma preocupação sintética) do jovem escultor Paes Leme; “Miquimby” e “Mestiço”, duas cabeças, também muito expressivas, de Armando Braga.

Na gravura salienta-se só um nome: Adalberto de Mattos, o mestre genuinamente nacional. Serenamente místico o seu “perfil em baixo relevo” “Virgo-Virginum”; bem compostas e buriladas as suas “Paquette” [sic] [1, 2] e “Medalhas do Tiro de Imprensa”.

Paulo Boneschi.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

BONESCHI, Paulo. A XXXIII Exposição Geral de Belas Artes. IMPRESSÕES RÁPIDAS. O Globo, Rio de Janeiro, 16 ago. 1926, p. 8.

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