. BELAS ARTES. O SALÃO DE 1922. O Jornal, Rio de Janeiro, 28 nov. 1922, p. 3. - Egba

BELAS ARTES. O SALÃO DE 1922. O Jornal, Rio de Janeiro, 28 nov. 1922, p. 3.

De Egba

NOTAS E IMPRESSÕES

Vamos encerrar as notas que vimos registrando sobre a seção de pintura do salão deste ano, a fim de passarmos à seção de escultura e à de arquitetura, seguindo-se o salão dos artistas belgas e a exposição de arte retrospectiva.

Os próprios expositores serão os primeiros a compreender quão pesada é a tarefa de percorrer aquelas enormes galerias e, à vista das impressões recebidas, ir colocando em relevo este ou aquele trabalho que mais nos fale ao espirito. Haverá, por isso, deficiências no que se tem escrito aqui em torno do salão, mas isso é perfeitamente perdoável em face da boa vontade que nos anima, visando movimentar o noticiário artístico, infelizmente tão descurado no nosso meio. .

Ia-nos, por exemplo, passando em despercebido um quadrinho assinado por Luiza de Andrade - “Estudo de interior”. É um trabalho honesto, envolvido em ambiente próprio e com as linhas de perspectiva bem estabelecidas.

Não nos entusiasmaram as telas em que o professor Lucilio de Albuquerque apresenta este ano algumas relíquias arquitetônicas de S. João d'El-Rey. À primeira impressão de desinteresse, acreditamos fosse ela determinada pela natureza do assunto. Mas logo nos lembramos que qualquer assunto bem tratado pelo artista nos há de, fatalmente, falar à alma. Realmente o professor Lucilio de Albuquerque, pelo seu talento e pelo nome que já conquistou, devia estar ali representado com obra de maior fôlego. Não lhe faltam para isso qualidades que somos os primeiros a reconhecer.

Há graça e encanto no “Manacá”, quadro quente na sua tonalidade, deliciosa carnação de mulher ao ar livre, aspirando o perfume das flores. A luz forte coa-se por entre o manacá florido, projetando sobre aquela carne estuante de mocidade e de seiva um colorido cambiante. É isso o que se sente em face do quadro de Georgina de Albuquerque, no qual entra, sem duvida, uma pequena dose de fantasia, o que, aliás, em nada o prejudica.

É uma figura expressiva e em que há [...], graça e relevo, a “Leleta”, de Sarah Figueiredo.

De Manoel Santiago apreciamos a paisagem do “Canto do Rio” - árvores, terra e mar. As telas “Botafogo” e “Flores ao sol” não chegaram a nos impressionar.

O barão Feske de Puttkamer tem uma nota graciosa e agradável na sua paisagem de Paquetá.

Do artista dinamarquês que ora nos visita, Gustav Brock, há no salão uma coleção de retratos, miniaturas sobre marfim, preciosas obras d'arte.

Em tela de grandes dimensões o pintor Levino Fanzeres reproduz o episódio “Partida de Araribóia”. Terra e água tem grandiosidade, mas as figuras, dispostas em linha, guardando quase todas a mesma uniformidade, sem atender a distâncias e situações, apresentam-se com certa dureza e sem movimento. O outro quadro, “Efeito de sol”, é uma paisagem bem lançada e bem sentida.

Justino Migueis deu expressão, relevo e mesmo um certo cunho de nobreza ao retrato de mlle. Branca Falques de Brito.

Ao ver os “Cravos de meu jardim”, enviados por Germano Neves, tivemos a impressão de que eles perfumavam o ambiente.

Interessante a contribuição do caricaturista Raul Pederneiras e magníficas as águas-fortes de Pedro Weingartner. Algumas são mesmo pequenas maravilhas.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Arthur Valle

BELAS ARTES. O SALÃO DE 1922. O Jornal, Rio de Janeiro, 28 nov. 1922, p. 3.

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