. BELAS ARTES. O SALÃO DE 1922. O Jornal, Rio de Janeiro, 26 nov. 1922, p. 3. - Egba

BELAS ARTES. O SALÃO DE 1922. O Jornal, Rio de Janeiro, 26 nov. 1922, p. 3.

De Egba

NOTAS E IMPRESSÕES

Ao prosseguirmos no registro destas impressões sobre o salão deste ano, grato nos é assinalar o júbilo com que as rodas artísticas receberam a noticia de que o professor Baptista da Costa, por merecer a confiança do governo, continuará, a dirigir a Escola de Belas Artes. Não será, pois, interrompida a ação administrativa que ali se vem desenvolvendo, com reclamos e com real proveito para a nossa cultura artística.

O interesse despertado pelo certame dos artistas brasileiros tem sido grande. Conforta dizê-lo. O nosso público já não é indiferente às coisas de arte nem à sorte dos nossos artistas. É muito animador o movimento observado diariamente naquelas galerias, e mais animador ainda saber-se que muitos dos visitantes procuram consultar a lista dos preços na portaria.

Entre os quadros de assunto histórico, devemos incluir o painel simbólico e decorativo de Helios Seelinger. O artista desdobrou-o em três partes: a primeira recorda a época das caravelas, os revezes dos navegadores com as surpresas bravias do oceano; a segunda evoca a luta das raças, o surgimento do tipo brasileiro como símbolo da nacionalidade emancipada e pairando no alto a figura da pátria augurando um Brasil fecundo de paz e de trabalho; a terceira parte é consagrada ao período republicano até aos dias presentes, envolvendo numa alegoria o Exército e a Bandeira.

A concepção é imaginosa. Quiséramos, na execução, mais movimento nas águas do oceano revolto. O fato de ter o artista dado às ondas uma direção oposta à posição do observador, estabelece no espirito deste certa confusão, e na tela uma espécie de desequilíbrio. A segunda parte não é intuitiva e pareceu-nos multo brusca a transição da luta das raças para o período republicano.

Helios Seelinger consagrou-se à arte decorativa, fez dela a sua especialidade, e ela está realmente no seu temperamento e no seu feitio. O meio tem sido ingrato para o aproveitamento de suas aptidões e do seu espirito emancipado.

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Já fizemos referência ao contingente de Theodoro Braga, no salão. Essa referência foi ao que ele expõe na seção de pintura. Há ainda, do operoso artista, o contingente que ele levou à seção de artes aplicadas, contribuição interessante, valiosa e original. Versa a mesma sobre motivos da flora e da fauna brasileiras, aplicadas à decoração. Fruto de demorada pesquisa e de muita observação, esses estudos demonstram que a nossa natureza é uma fonte perene de inspiração.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Arthur Valle

BELAS ARTES. O SALÃO DE 1922. O Jornal, Rio de Janeiro, 26 nov. 1922, p. 3.

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