. BELAS ARTES. O SALÃO DE 1922. O Jornal, Rio de Janeiro, 23 nov. 1922, p. 3. - Egba

BELAS ARTES. O SALÃO DE 1922. O Jornal, Rio de Janeiro, 23 nov. 1922, p. 3.

De Egba

Notas e impressões

Há, no salão deste ano, diversos quadros de assunto histórico. Realizando-se esse certame na época em que o Brasil comemora o Centenário da sua Independência política, era de esperar tal contribuição. O gênero reclama qualidades especiais e intrínsecas. Verdade é que pululam em torno do grande acontecimento nacional episódios os mais interessantes, oferecendo à inspiração do artista motivo para as mais variadas composições.

Assim é que lá estão grandes telas de Georgina de Albuquerque, Augusto Bracet, Pedro Bruno e Carlos Oswaldo.

Georgina de Albuquerque reproduziu a sessão do Conselho de Estado que decidiu da Independência. Estão presentes todos os ministros, nos seus fardões verdes. A princesa Leopoldina está sentada. José Bonifácio, de pé, faz a exposição verbal da situação: não era possível permanecer naquela indecisão. Para salvar o Brasil, cumpria que se proclamasse imediatamente a independência. A figura da princesa apresenta-se magnífica, na pureza de suas linhas e na nobreza da sua atitude. Desejaríamos mais carácter para a figura de José Bonifácio. O fundo do quadro não se apresenta plenamente resolvido, mas o conjunto se equilibra de maneira muito apreciável. Há vida e movimento nesse quadro que recebe luz direta do exterior por uma janela abrindo para o parque. A tonalidade é quente e muito agradável.

Augusto Bracet reviveu com felicidade a cena do momento histórico em que se fizeram ouvir os “primeiros sons do hino da Independência”. Inspirou-se, para isso, no trecho das memórias de Francisco de Canto e Mello: “chegando a [sic] palácio, fez imediatamente o príncipe d. Pedro, em papel, um molde da legenda - “Independência ou Morte” - a qual, sendo levada por mim ao ourives Lessa, à rua Boa-vista, serviu para que às seis horas dessa mesma tarde estivessem prontas as duas legendas com que o príncipe e eu nos apresentamos no teatro. Neste ínterim, compôs sua alteza o Hino da Independência, que na mesma noite deveria ser, como foi, executado no teatro”.

D. Pedro está sentado ao cravo, parecendo tirar do instrumento os primeiros sons do hino que compôs. Colocado de perfil, a sua figura parece algo recortada, mas quem olha para o quadro diz logo: lá está Pedro I! É uma prova de que a figura tem carácter.

Aliás, não faremos favor ao pintor Augusto Bracet, dizendo das excelentes qualidades desse seu trabalho. Talvez o ambiente se apresentasse mais atraente sem o grande agrupamento de móveis e de pessoas. Mas o interior foi bem definido e todas as figuras se apresentam resolvidas, mostrando que o artista, enfrentou sem hesitações as situações que criou na sua composição.

Não entendemos bem o “Viva a Independência”, de Carlos Oswaldo. Como alegoria ao grande feito nacional, se é isso, parece-nos trabalho de fraca concepção.

O quadro de Pedro Bruno apresenta a figura de Tiradentes no momento em que o carrasco lhe veste a alva. Numa atitude resignada e triste o precursos [sic]' olha para o alto. O carrasco está de costas para o espectador e no primeiro plano, um frade, de joelhos, empunha um crucifixo.

Não há nesse quadro, a nosso ver, um justo equilíbrio de conjunto nem proporcionalidade de distâncias e tamanhos.

O carrasco está muito sobre o precursor e o religioso deixa a impressão de ocupar a maior parte da tela. Entretanto, a figura de Tiradentes tem expressão e está bem lançada. Ela deixaria melhor impressão se repousasse sobre uma trama de perspectiva estabelecida com mais precisão e cuidado.

TELAS ADQUIRIDAS PELA SOCIEDADE BRASILEIRA DE BELAS ARTES

Além da tela do professor Baptista da Costa “Dia de ressaca em Copacabana”, a Sociedade Brasileira de Belas Artes, adquiriu para a sua coleção mais as seguintes telas: “Barco”, de Garcia Bento, “Estudo em verde”, Marques Júnior e “D. Juan Tenorio”, pastel de Oswaldo Teixeira.


Imagem

“Os primeiros sons do hino da independência” - Tela histórica de Augusto Bracet


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Arthur Valle

BELAS ARTES. O SALÃO DE 1922. O Jornal, Rio de Janeiro, 23 nov. 1922, p. 3.

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