. BELAS ARTES. O SALÃO DE 1922. O Jornal, Rio de Janeiro, 21 nov. 1922, p. 3. - Egba

BELAS ARTES. O SALÃO DE 1922. O Jornal, Rio de Janeiro, 21 nov. 1922, p. 3.

De Egba

Notas e impressões

Vamos registrar, numa série de notícias, algumas impressões sobre o salão deste ano, retardado por circunstâncias especiais e já perfeitamente justificadas. Pode-se dizer que, pela primeira vez, o salão dos artistas brasileiros é apresentado com instalação condigna e distinta. À primeira vista, essa particularidade poderá parecer de importância secundária. Mas não o é. As condições de ambiente para a apresentação de uma obra de arte exercem grande influencia no julgamento da mesma, dependendo ela, como depende, de uma boa colocação e de perfeita distribuição de luz.

Dito isto, ao entrarmos no registro do muito que foi exposto, comecemos pelo mestre da paisagem no Brasil, o professor Baptista da Costa. E é justo que se observe aqui o “ab Jove principium”, não porque o diretor da Escola de Belas Artes tenha, ao fim de tantos anos de aspiração, realizado tão grandes melhoramentos materiais no edifício daquele importante instituto, mas, porque ele é, no certame deste ano, a figura culminante da nossa arte no ramo da pintura. Quem o afirma é a sua própria obra, é sua arte: grande na “Sapucaieiras em flôr”, à claridade rútila da luz do dia; pura no “Remanso Itaipava”, tão cheio de calma na doçura da tarde; grandiosa e magnifica na lenda da “Marabá”, onde a floresta majestosa convida ao êxtase, a água que corre leva-nos ao espirito a sugestão de que há em torno de nós aquele frescor da mata e o musgo que recobre a penedia parece transpirar umidade. Pela primeira vez vimos, desse artista, um nu ao ar livre. Foi para nós, confessemo-lo, uma surpresa, pois, apesar de não ter sido feliz na escolha do modelo, a carnação é perfeita, a figura bem lançada e há uma equilibrada harmonia entre a sua atitude e o cenário que a envolve. Baptista da Costa inspirou-se, para a execução desse quadro, na expressão de Escragnolle Doria, quando disse, ao traçar o perfil da Marabá: “... e queda-se melancólica, seios órfãos de amor, alma dolorida, sem consolo, sem um ninho ...”

A natureza morta tem lugar de honra no salão deste ano. Trabalhada por mão de mestre, ela sorri dos que a depreciam, para brilhar com fulgor e relevo ao lado dos outros gêneros. Assim cultivada, ela deixa de ser propriamente natureza morta e apresenta-se animada por isso a que se pode chamar “a vida das coisas”, tal como as pinta o sr. Pedro Alexandrino, artista que se consagrou nessa especialidade, no brilho dos metais, em cerejas que, “de tão rosadas e doces, evocam lábios e beijos”...

As garrafas de vinho velho, os marmelos maduros ao lado dos já “tocados” e os metais reluzentes, falam-nos do pouco que conhecemos da arte do grande Joseph Bail. O sr. Pedro Alexandrino é uma figura que honra a nossa cultura artística.

O PRÊMIO DE VIAGEM

Como concorrente ao prêmio de viagem pelo salão deste ano, inscreveu-se apenas o sr. Almeida Júnior [Luiz Fernandes de Almeida Júnior], segundo nos informou a comissão organizadora. O quadro com que ele se apresenta foi inspirado num trecho do romance de Alencar. Iracema segue, na areia da praia, as pegadas do guerreiro branco...

A figura da índia, que uma lenda de amor imortalizou, está tratada com carinho; a elegância de linhas, a desenvoltura do porte, as carnes rijas, aquela expressão de dúvida, impressionam agradavelmente e atraem para o quadro uma grande simpatia. A paisagem é ampla e o ambiente rarefeito. A vegetação escassa e rasteira, da beira da praia, denota observação. Não se pode contestar que esse conjunto de qualidades dá ao quadro do sr. Almeida Júnior harmonia e unidade.

Agradável nos seria reconhecê-las nos demais trabalhos com que ele está representado.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Arthur Valle

BELAS ARTES. O SALÃO DE 1922. O Jornal, Rio de Janeiro, 21 nov. 1922, p. 3.

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