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BELAS ARTES. O Jornal, Rio de Janeiro, 29 ago. 1923, p.3.

De Egba

Edição feita às 17h39min de 20 de Abril de 2010 por Egba (Discussão | contribs)

O SALÃO DESTE ANO

NOTAS E IMPRESSÕES

A exposição geral deste ano tem despertado bastante interesse, nota muito simpática para os que almejam o desenvolvimento da nossa visa artística.

Continuando no registro das impressões que colhemos nesse certame, cumpre-nos falar, agora, da contribuição a ele levada pelo senhor Augusto Bracet, com a tela intitulada "Direito de asilo". Esse quadro é, ao nosso ver, uma das produções mais fortes e equilibradas do salão. Ele deixou uma impressão duradoura no nosso espírito.

Inspirou-se o artista em episódio histórico da idade média, no direito que tinham os templos e os bosques sagrados do paganismo, de proteger os culpados. Esse direito foi transferido para as igrejas cristãs. O imperador Leão proibia que se arrancasse alguém desses asilos.

O quadro do pintor Augusto Bracet apresenta o interior de um convento, estilo gótico-romano. A meio da escadaria, esgueirada junto à coluna, uma figura de pecadora procura esconder-se da turba que ulula à porta e é contida por um religioso de braços abertos. Essa figura de mulher é a nota dominante do quadro. Ela está em desalinho. O manto que a envolvia, caiu por terra, deixando a descoberta as linhas esculturais das suas formas lindas. No seu rosto estampa-se um misto de pavor e de curiosidade. Foi esse momento que o pintor passou para a tela, e o fez com felicidade e talento; fê-lo de maneira honesta, deixando ali, palpitante de verdade e de sentimento, tudo quanto fora justo exigir dele.

O pintor Fernandes Machado enviou uma composição em que procurou exaltar a bondade e o altruísmo da mulher patrícia, alistando-se na Cruz Vermelha brasileira. É um aspecto do campo de batalha. Onde e em que época se desenrolou aquela cena? Trabalho de ficção? Pura fantasia? o Sr. Fernandes Machado revela com essa obra um espírito hábil e imaginoso.

Representa o quadro em questão, uma dama da Cruz Vermelha, que, no ato de socorrer um oficial do Exército, ferido e já em agonia, reconhece nele seu esposo. Transe de indescritível angústia, em que ao feminino coração acode, apenas, a idéia e o desejo de morte. Eis, senão quando, no ambiente obscurecido de fumo, gazes e poeira, de tantos explosivos de guerra, uma cruz mística surge e avulta, atraindo os olhares dos raros sobreviventes da batalha. "O símbolo da fé mais uma vez repete o milagre da salvação: aos desesperados da terra só o consolo deixado por Cristo..."

A cabeça do oficial moribundo repousa sobre um tambor envolto pelo pavilhão nacional, destinado a servir de mortalha ao herói que o defendeu.

Tem qualidades muito apreciáveis "Os sapatos do netinho", envio do Sr. Cadmo de Souza, que, já no ano passado, teve a sua medalhinha de bronze.

O Sr. Manoel Faria está representado com dois retratos. esperamos melhor oportunidade para um julgamento de seus trabalhos.

Esses retratos mostram que não é ele uma negação para a arte, mas, faltam-lhe ainda conhecimentos de desenho e mais justeza de colorido.

Muito interessantes os estudos e desenhos de Fiuza Guimarães, a fusin [sic], sanguínea e óleo. Destes últimos, que são em número de três, merece destaque, pela sua expressão e relevo, o que ocupa o número 71 do catálogo.

Uma excelente marinha, um aspecto de luz hibernal colhida nas nossas praias, a contribuição do príncipe Paulo Gagarin. A luz é muito meiga, a massa líquida do mar largo está bem apresentada. As ondas têm movimento e morrem, espraiando-se, preguiçosamente por sobre a brancura do imenso areal.

O pintor alemão Sr. Hans Paap, de passagem pela nossa cidade enviou ao salão meia dúzia de telas, com aspectos colhidos na Tijuca e na Gávea. Não conseguiu esse artista interpretar a nossa natureza, com felicidade nem justeza, tão extravagante nos pareceram a técnica e o colorido das mesmas.

É um ótimo retrato de sua esposa o que enviou o Sr. Theodoro Braga, artista, cuja contribuição será objeto de maiores considerações, ao tratarmos da arte aplicada.

Pelo Sr. Edgard Parreiras foi enviada uma paisagem em que domina o tronco de uma velha mangueira, Estão reafirmadas nesse trabalho as qualidades do artista. Não haveria mais encanto e mais poesia se figurasse no quadro, em toda a sua plenitude, a larga copa dessa árvore secular?


Imagem

"Direito de asilo" - Quadro do pintor Augusto Bracet


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

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