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BELAS ARTES. NA ESCOLA NACIONAL DE BELAS ARTES. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 12 ago. 1923, p.3.

De Egba

O salão de 1923

Realizou-se ontem, na Escola de Belas Artes, o "vernissage" da XXX Exposição Geral de Belas Artes.

A comissão diretora é composta dos Srs. Rodolpho Chambelland, Raul Lessa Saldanha da Gama e Petrus Verdié. São membros do juri os Srs. J. Baptista da Costa, Rodolpho Amoêdo, Marques Junior e Helios Seelinger, sendo que estes últimos eleitos pelos expositores. Andaram acertados os artistas brasileiros.

Helios Seelinger é um pintor de grande talento e que possui originalidade, e sendo moderno sabe marcar com certa precisão. Os seus recursos são admiráveis e cremos que se o jovem artista quisesse ter um pouco mais de cuidado com as suas telas, nos ofereceria trabalhos perfeitos, porquanto tem aptidões e estudos para isto.

Marques Junior é um nome. Sua exposição foi uma grande revelação entre nós - o pensionista da Escola trazia algo de novo para o nosso meio - vinha portador de uma nota inédita e senhor de uma técnica admirável e de um colorido rico e vibrante.

O Salão deste ano traz muitas surpresas. Dos novos ocupa o primeiro plano o Sr. Oswaldo Teixeira, nome dos mais admirados entre nós, e que apesar de sua juventude, já se impôs como um artista de raras aptidões e de soberba técnica. Naturalmente, o prêmio de viagem deste ano lhe será conferido.

A senhora Aurea Vianna Palmeira, expõe pela primeira vez, no "salão". São três as paisagens que assina - dois aspectos do Rio e um interior de jardim. A jovem pintora é aluna do Sr. Virgilio Mauricio e executou as suas telas sob a direção do pintor. É de esperar que novos triunfos coroem a estreia da artista que se revela possuidora de uma técnica larga e segura, servida por um belo desenho e uma compreensão de valores admirável.

A jovem pintora inicia sua carreira brilhantemente e desde já o seu nome figura na lista dos artistas nacionais.

O Sr. Portinari é também muito jovem. Figura com brilho no atual certame. Um outro juvenil artista é o Sr. Osorio Belém [sic], que também dá opiniões sobre pintura e o que é mais sério, discute pintura. Vi os trabalhos que enviou à Escola. Não posso compreender como foi admitida a sua pintura de uma mediocridade e de uma incorreção de desenho que pasmam.

Qual é o critério do júri? Em que se baseia a comissão julgadora? Que é um "salão"?

Um salão é o certame dos pintores e não uma exposição de alunos; - um salão é um lugar onde se presume serem encontrados trabalhos que afirmem um nome ou revelem um temperamento. Reunir telas só pelo prazer do número, ou para cobrirem as paredes das galerias, é um critério dos mais perigosos e que põe em jogo a comissão julgadora, no ponto de vista de conhecimentos técnicos e de apreciação artística. Como o trabalho do Sr. Belém existem vários outros. O desenho, entretanto, que o jovem estreante assina, tem qualidade recomendáveis e sua admissão serve de estímulo ao juvenil pintor. Ao demais é um péssimo critério este de aceitar no "Salão" trabalhos de principiantes.

Surpreende-nos, sobretudo, porque sendo membros do júri dois jovens de real valor e de visão própria, modernos, que seguem a nossa época, como Helios Seelinger e Marques Junior, não se explica a admissão de uma série de estudos abaixo do medíocre, os quais merecerão, no próximo domingo, crítica justa e sincera. Não sabemos se o Sr. Lucilio de Albuquerque faz parte do júri. Esse distinto pintor é um batalhador e que tem apresentado, ultimamente uma série de paisagens que o sagram um grande e inconfundível artista. Quanto ao Sr. Rodolpho Amoêdo, o seu julgamento não nos interessa. O homem que assina pomposamente as decorações das duas rotundas do Teatro Municipal não pode ter opinião sobre pintura. Deve aceitar tudo que foi enviado à Escola e premiar tudo, porque se alguma coisa tivesse a recusar seria os mostrengos que desfiguram as duas pequenas saletas contíguas ao "foyer" do Municipal onde, no "plafond", se irradia fulgurantemente, a obra do Sr. Elyseu Visconti.

Somos grande admiradores do Sr. Rodolpho Amoêdo, desse artista que se imortalizou com a "Partida de Jacob" - do mestre que pincelou "O último Tamoyo", do pintor que marcou o magnífico "Jesus em Capharnaum", do brasileiro que enternece com a "Narração de Philetas", do homem que traduziu "Desdemona" e "Más notícias" - telas de pulso e afirmadoras de um nome, de um temperamento. Este é o Rodolpho Amoêdo, o nosso grande pintor - o que decorou o Municipal e vários outros edifícios públicos, é a sombra confusa do verdadeiro, cujo nome é para nós consagrado, mas cuja obra está sujeita à crítica, ao reparo - o que lhe deve ser útil e sobretudo porque é de nosso dever.

Sim, o dever do crítico, daquele que procura orientar é o de ser sincro [sic] e justo. Não temos em se tratando de arte preferência, não conhecemos amigos, não nos interessam as nossas amizades. Julgamos a obra como ela se nos apresenta.

Procuramos ser justos.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

BELAS ARTES. NA ESCOLA NACIONAL DE BELAS ARTES. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 12 ago. 1923, p.3.

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