. BELAS-ARTES - Impressões sobre o salão deste ano - A sessão de pintura. O Jornal, Rio de Janeiro, 14 ago. 1920, p. 3. - Egba

BELAS-ARTES - Impressões sobre o salão deste ano - A sessão de pintura. O Jornal, Rio de Janeiro, 14 ago. 1920, p. 3.

De Egba

Está em foco o “salão”. A exposição geral domina e absorve o noticiário artístico. Mais do que isso: o “salão” anual consegue interessar o nosso meio social, atraindo-o para o palácio das artes belas. Registremos com simpatia esse movimento salutar e magnífico. Que ele se desenvolva sempre e cada vez mais, são os votos que formulamos. Mas, para que a arte culmine dominando todos os atos da nossa vida, não basta a boa vontade deste ou daquele elemento. Mister se faz que os artistas e o público, animados pelo mesmo ideal e por um objetivo comum, tenham convívio mais intimo, fácil de alcançar com a realização de exposições individuais. À administração publica, tanto a federal como a municipal, bem podia caber a tarefa de dar maior realce ao certame anual, não só instituindo prêmios, mas também que esses prêmios tivessem significação material capaz de levar a emulação ao espírito dos que trabalham.

A prova de que não nos faltam artistas de talento, está aí bem patente e com um relevo capaz de se impor mesmo aos olhos dos que não queiram ver. Comecemos por um nome feminino, a sra. Georgina de Albuquerque. A sua “Manhã de sol” é um forte trabalho de pleno ar e plena luz. Um tipo esbelto de mulher chegou à varanda desviou ligeiramente a cortina e contempla a paisagem. O seu corpo interceptou o jorro de uma luz intensa que lhe banha o dorso. É uma tela vibrante em que se desejaria talvez, um pouco de calor na folhagem verde que forma o fundo do quadro. É ainda do pincel da sra. Georgina de Albuquerque a “Faceira”, executada com finura de toque e uma soberba expressão fisionômica. Não há ali só a harmonia daqueles cabelos loiros com os olhos azuis e meigos, os lábios polpudos e róseos; há também a irradiar da tela, na expressão daquela figura, toda a faceirice da mulher linda, como que a exclamar: “olhem-me, que eu sou mesmo bela!”

Sente-se em “Chagrin d’amour” que a figura do primeiro plano tem a alma despedaçada por uma desilusão, mas a figura de azul não satisfaz, nem está na altura daquele delicado ambiente de interior.

A menina e o cão justifica [sic] bem o título “Meiguice”.

O nome do professor Baptista da Costa está representado por duas grandes telas: “Últimos raios de sol” e “Tarde calma”. Aquela é uma paisagem petropolitana, um trecho de floresta banhado pela frescura da água corrente. Está ali, na pureza de suas linhas, na verdade do colorido e naqueles suaves efeitos de sol e sombra, a técnica do mestre. A “Tarde calma” é um aspecto da Lagoa Rodrigo de Freitas. Os planos desdobram-se num cenário maravilhoso pela sua grandeza e pela sua admirável perspectiva. Contempla-se o quadro e o próprio espírito se acalma diante daquela serena quietude em que está mergulhada a natureza. Baptista da Costa impõe-se aí com o pintor magnífico das águas tranquilas.

Das cinco telas enviadas pelo Sr. Lucilio de Albuquerque, todas trabalhadas com largueza, destacaremos o retrato de alguém cuja alma ele, mais do que ninguém, poderia interpretar com segurança e conhecimento. Mas não é só a particularidade dessa psicologia tão bem definida pelo artista quanto aos traços fisionômicos da retratada, Tudo ali está feito com arte e carinho. O tecido branco do casaco Jersey é perfeito e oferece agradável contraste sobre a “toilette” escura. As extremidades também estão muito bem acabadas. O retrato é em tamanho completo.

Entre os trabalhos com que se apresenta o Sr. Arthur Thimoteo, interessou-nos particularmente um aspecto da “Praia da Boa Viagem”, pintura larga e feita com vigor. O artista tirou das tintas acumuladas efeitos seguros. O mar tem vida e movimento; a água, cheia de transparência, resplende em luminosa claridade.

Duas arrojadas marinhas do Sr. Helios Seelinger, falam vivamente do espírito imaginoso do artista: “Nossa esquadra na guerra” e “Por mares nunca dantes navegados”.

O velho médico do Sr. João Thimoteo, auscultando o pequeno enfermo [Imagem], tem na fisionomia uma expressão concentrada, uma atitude de médico desejoso de fazer diagnóstico certo.

O assunto religioso na pintura, está representado por uma tela de Carlos Oswaldo, “Jesus entre os doutores”. Muito boas as figuras dos velhos sábios e o meigo Jesus está feito com doçura e num ambiente místico.

O sr. [Augusto Petit], talvez o mais velho dos artistas que figuram no salão deste ano, apresenta uma tela em que ressumbra mocidade e frescura. É a “Primavera”, simbolizada por um lindo meio corpo de mulher linda e moça, peitos túmidos e de bicos róseos, aninhados na gaze como dois meigos pombos brancos...

A tela do sr. Almeida Júnior [Luiz Fernandes de Almeida Júnior], “Primeiro pecado”, não impressiona bem e claudica mesmo no desenho.

Formando um grupo de retratos com “Alguns amigos”, o sr. Guttman Bicho não foi feliz.

Com a sua “Cleópatra”, o sr. André Vento está bem representado. Há nessa tela harmonia de conjunto e sentimento decorativo. Talvez lhe falte perspectiva e expressão nas figuras. Mas a roupagem, panejamento e acessórios, são de colorido agradável e bizarramente equilibrado.

Nos três quadros que enviou o sr. Paulo Fonseca [sic], revela qualidades de paisagista; o sr. Assumpção Santiago fez um bom auto-retrato; o sr. Porciuncula Moraes, no “Último beijo”, ficou muito longe da meta desejada, e a sra. Julia Ferreira Pinto apresentou um trabalho de cores justas na sua “Tzigana”.

E ficamos por aqui na seção de pintura, da qual continuaremos a registrar impressões. Depois seguir-se-á a seção de escultura e a de gravura.

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A exposição geral de belas artes está franqueada ao público diariamente, das 11 às 17 horas, e à noite das 19 às 22 horas, no Palácio das Belas Artes.


Imagem

"Tarde calma" - Quadro do Professor Baptista da Costa


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

BELAS-ARTES - Impressões sobre o salão deste ano - A sessão de pintura. O Jornal, Rio de Janeiro, 14 ago. 1920, p. 3.

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