. BELAS-ARTES - Impressões do salão deste ano - AINDA A SEÇÃO DE PINTURA. O Jornal, Rio de Janeiro, 15 ago. 1920, p. 3. - Egba

BELAS-ARTES - Impressões do salão deste ano - AINDA A SEÇÃO DE PINTURA. O Jornal, Rio de Janeiro, 15 ago. 1920, p. 3.

De Egba

Antes de continuarmos a registrar impressões sobre a exposição geral deste ano, devemos assinalar a entrada, na seção de pintura, das três telas do sr. Elyseu Visconti, trabalhos esses que figuraram no “salon” de Paris. São, pois, três peças magníficas, três quadros prejulgados, dado o meio em que surgiram e onde receberam referencias muito lisonjeiras. Nelas as figuras harmonizam-se com o ambiente em que foram colocadas, seja em “Samothrace”, na “Família” ou na “Cura do sol”.

Desenhadas com maestria, essas figuras, envolvidas numa suave tonalidade, têm expressão, naturalidade e movimento. Aquele velado tão característico da técnica do pintor Visconti toma relevo extraordinário visto à noite sob a luz artificial.

O sr. Rodolpho Amoedo mantêm as suas qualidades de mestre num retrato e no “Chá das cinco horas”.

O sr. Augusto Bracet tem na exposição geral dois trabalhos fortes. Em ambos o panejamento e o colorido da carnação são executados com honestidade. O nu da mulher que hesita na escolha da fazenda, está desenhado com firmeza, mas a “Ânfora” é quadro mais sólido. Colocado de dorso para o observador, o oleiro grego vê criar-se no seu espírito, ante a atitude de mulher que desperta e se espreguiça, a forma da ânfora. Esta surge ao fundo com o tom suave e luminoso de objeto criado pelo espírito do artífice. É, como se vê, um quadro de concepção e de ideia.

Não parecem telas do mesmo pincel, a “Manhã de sol” e o “Outono”, do sr. Pedro Bruno: aquela, um luminoso aspecto de praia e esta umas dançarinas muito mal amanhadas.

O trabalho de “guache” do sr. De Servi intitulado “Depois da tempestade”, é um belo pedaço de mar, com movimento e as ondas espumantes a quebrarem-se sobre os rochedos. Não achamos muito justo o seu retrato do sr. Alfredo de Souza.

O sr. Gaspar de Magalhães, atualmente em Paris, lembrou-se do salão anual antes de partir e deixou dois trabalhos sérios: um touro e uma cabeça de carneiro. Diz-nos o coração que o sr. Gaspar de Magalhães vai ser um grande animalista brasileiro. O seu touro tem boa anatomia e está colocado de escorço, deixando o lombo médio e o pelo luzidio.

Tem muita vida, muita luz e muito movimento a paisagem “Sol da tarde”, tela do professor Rodolpho Chambelland também representado com dois retratos apreciáveis.

A sra. Cecil Clark Davis, que há pouco expôs na “Galeria Jorge” uma coleção de retratos feitos com admirável solidez, enviou ao salão dois trabalhos executados aqui, os retratos da sra. Stewart e da condessa Maude de Provana. São esses dois retratos mais um atestado do valor dessa artista de real merecimento. Há na sua maneira de pintar vigor de técnica e uma certa facilidade de transmitir à tela um pouco da alma e do caráter de suas retratadas, dando além disso muito relevo às figuras, qualidades que poucos pintores logram possuir.

No vale do Paraíba o sr. Levino Fanzeres apanhou rico “Efeito de sol”. É uma paisagem de efeitos justos e com tonalidade muito agradável. Também merece registro especial a sua “Agonia da tarde”, um ambiente torturado pela noite que vem longe. Na linha do horizonte o sol desaparece deixando ainda a terra afogueada.

Distinguido em 1910 com um prêmio de viagem, o sr. Francisco Massa [sic] não o pode gozar. A inveja e a perfídia alvejaram- no. Mas o artista ferido pela injustiça e pela deslealdade continuou a trabalhar.

Recaia sobre a consciência dos que o perseguiram o remorso da maldade praticada. No salão deste ano está ele representado por seis trabalhos: “Recreio matinal”, “Ócio de estudante”, “Pescadores de águas turvas”, “Recanto iluminado”, “Tarde de sol” e “Crivos de luz”. São telas honestas e em que há unidade da maneira de pintar.

O sr. Navarro da Costa está, a nosso ver num período de evolução na sua maneira de pintar. Ele não é, positivamente, o mesmo pintor de anos passados, antes de ter convivido com os grandes mestres da Europa. O estudo de luz que ele fez da janela de seu atelier sobre a cidade de Lisboa, é uma nota de fatura honesta e de muita solidez. Há nessa pequena tela uma sucessão de planos delineados com muita habilidade.

Apenas um trabalho levou o sr. Edgard Parreiras à exposição geral deste ano, mas a sua “Manhã de sol” representa-o muito condignamente. Tem claridade, alegria e boa perspectiva. No primeiro plano um verde “flamboyant” estende os galhos sobre o caminho para lhe dar sombra amiga.

Com um retrato e uma paisagem, o sr. Argemiro Cunha atrai a atenção para o seu nome, pois o retrato tem qualidade excelentes e a paisagem, bem iluminada, transborda de vida e de alegria.

Dos trabalhos expostos pelo sr. Otto Bungner, destacaremos a “Paisagem da Gávea”, feita com grande delicadeza de toque.

Aparece este ano, pela primeira vez, no salão da exposição geral, o sr. Albano Lopes de Almeida. É um novo que surge, cheio de esperanças e com talento. As suas duas paisagens “Beijos de sol” e “Vegetação”, tem originalidade e desenho. O vácuo, aquela impressão de vazio que não é fácil de alcançar, o jovem artista a obteve de maneira apreciável.

Com três assuntos da guerra, o sr. Hermogenes Marques apresenta-se com brilho na exposição geral. Os seus cavalos têm nobreza e são lançados com largueza.

As manchas do sr. Mario Tullio falam um pouco da exuberância do seu temperamento cenográfico.

A “Interrogação”, da sra. Maria Elisa de Frontin Werneck, uma jovem desfolhando malmequeres, faz acreditar numa promissora esperança. Olhamos com simpatia muito espontânea para o seu trabalho.

É um espírito imaginoso e criador, o sr. Martins Ribeiro. A sua “Visão interior” é disso prova frisante. O homem que surge dentre as sarças de fogo e revendo o próprio íntimo, tem anatomia e muita expressão.

O sr. Eugenio Latour foi de infelicidade flagrante com o seu “Dia de audiência”.

Tem muito sentimento e poesia o “Crepúsculo”, do sr. Francisco Cucolilo, uma linda paisagem à beira-mar.

A sra. Regina Veiga está representada com três trabalhos apreciáveis e nos quais se acentuam os seus progressos; do sr. Gastão Formenti, destacaremos o “Rochedo do arpoador”. A citar ainda, na seção de pintura, os nomes dos srs. Fernandes Machado, Americo Giusti, Antonio Esposito, Antonio G. Bento, B. Pinto, Lopes de Leão, Cesare Colossuonno, A. Delfino [sic], Manoel Domenech, João Dutra, Hedwiges Witte, Irene França, Joaquim Rocha Ferreira, John Graz, Laudelino Aguiar, Luiz Kattenback, Manoel Faria, Maria Lisboa, Reis Junior, Solange Hess e Zina Aita.

A seguir registraremos impressões sobre as seções de escultura, gravura e arquitetura.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

BELAS-ARTES - Impressões do salão deste ano - AINDA A SEÇÃO DE PINTURA. O Jornal, Rio de Janeiro, 15 ago. 1920, p. 3.

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