. BELAS-ARTES. O "vernissage" da XXXIII Exposição Geral - Sua inauguração oficial hoje. O Jornal, Rio de Janeiro, 12 ago. 1926, p. 3. - Egba

BELAS-ARTES. O "vernissage" da XXXIII Exposição Geral - Sua inauguração oficial hoje. O Jornal, Rio de Janeiro, 12 ago. 1926, p. 3.

De Egba

O salão anual de pintura da Escola de Belas Artes continua a ser a nota mais viva do nosso meio artístico, por isso que oferece a grande atração do prêmio de viagem, sem os percalços do curso seriado a que o programa da Escola obriga.

Não oferecesse essa amostra de valores outro interesse e só este asseguraria à velha Instituição, que já conta trinta e seis anos, atrativo suficiente para movimentar o meio artístico, pondo-lhe em evidência as figuras de representação e prestígio.

E não é exagerado que isto ocorra. O salão, muito embora seja acusado de desviar dos cursos regulares da Escola os rapazes do melhor merecimento, tomando-lhes todo tempo na confecção dos quadros com que se atiram à disputa das medalhas de bronze e de prata, sem a qual, esta última, não poderão concorrer ao prêmio de viagem, ainda é uma eficiente escola onde se apuram qualidades, por isso que, à cata das vantagens que ela proporciona, os moços trabalham e progridem, estimulam-se e melhoram, na certeza de que poderão vir a fazer a cobiçada viagem que não é apenas um desejo do artista, mas uma preocupação de quase todos os homens de inteligência e boa vontade.

Sim, viajar à Europa ainda é uma maneira mais fácil de aprender alguma coisa, muita coisa, com a menor preocupação de esforço e tempo. Tudo lá está feito, as artes desenvolvidas, a literatura opulentada. Para o artista, então, o trabalho limita-se a ver, a olhar, a examinar ou a perquirir dos detalhes, porque tudo que ele possa conceber, dentro das exigências da sua arte, encontra organizado, catalogado, não oferecendo outra dificuldade que não seja a de olhar, assimilar ou reproduzir.

Mesmo assim, entretanto, por vários anos o salão de Belas Artes não correspondeu à expectativa. Havia desânimo, parece que os moços não confiavam muito na justiça dos mais velhos e daí se formar uma enlaçante onda de indiferença que refletia diretamente no salão, espelho onde se reproduzem com nitidez os diversos estados d'alma do nosso emotivo meio artístico.

O salão de 1922 afastou-se desses moldes deploráveis de desânimo a que nos vimos referindo e ofereceu naquela data festiva da pátria uma vigorosa prova de que o nosso esforço quando bem conduzido é capaz de produzir grandes coisas.

Mais tarde os salões subsequentes estiveram mais ou menos na altura do conceito adquirido por aquele, notando-se o mesmo interesse na disputa das recompensas que o salão, por força do Regulamento, confere. Vários nomes foram aparecendo para pleitear o prêmio de viagem, sendo que, este ano, os nomes apontados se medem em aproximada igualdade de forças, notando-se certo equilíbrio que criará dificuldades ao júri para a escolha do prêmio final.

Manoel Constantino, Manoel Santiago, Armando Vianna e Candido Portinari, aparecem com trabalhos que denotam vivo esforço e pertinácia, o mesmo podendo dizer-se de outros artistas que se batem pela conquista de prêmios mais modestos, mas tão dignos como prova de esforço, quanto aquele.

No salão deste ano há representações de todas as escolas, de todas as tendências pinturais modernas. Lá estão, ao lado de telas fortes quadros de somenos valor, junto de mestres como o Sr. Visconti, nomes bisonhos, que só agora começam a aparecer, e ainda outros, que melhor fora nunca chegassem a surgir.

Puro ecletismo, que recomenda a atividade do meio artístico e mostra o fervor com que se trabalha em busca de uma constante perfeição das artes plásticas no país.

O que se pode dizer de pintura, amplia-se facilmente às outras seções, especialmente à da escultura. Aí há vários trabalhos de acentuado merecimento, copiosa amostra do esforço da presente geração. São muitos os expositores, sendo fácil gravar os nomes de Antonino Mattos, Francisco Andrade, Magalhães Corrêa, Laurindo Ramos, Paes Leme, alguns mais.

A sala de arquitetura não desmerece no conjunto da dos últimos anos, de 1922 para cá.

Há excelentes estudos, planos de edifícios públicos, obras monumentais. Os projetos do Palácio do Congresso de Minas Gerais e do grande balneário de Araxá são composições em que as massas estão bem calculadas e o conjunto geral empolga.

Outros trabalhos, como o Banco de Comércio e Indústria de Belo Horizonte, já em construção, e várias plantas de residências particulares, afirmam o cuidado e o carinho com que se prepara neste momento a arte da construção.

A seção de gravuras apresenta poucos, mas excelentes modelos.

A inauguração do salão, com a presença do mundo oficial e de pessoas gradas, será realizada hoje, às 13 horas, tendo ontem se efetuado o “vernissage”.

Na cerimônia de ontem notou-se a viva animação e entusiasmo dos anos passados.


Imagens

O Sr. José Marianno Filho, diretor da Escola, ladeado pelos concorrentes ao prêmio de Viagem: gravador F. Marinho e pintores Armando Vianna, Candido Portinari, Manoel Constantino e Manoel Santiago

Envernizando um dos trabalhos


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

BELAS-ARTES. O "vernissage" da XXXIII Exposição Geral - Sua inauguração oficial hoje. O Jornal, Rio de Janeiro, 12 ago. 1926, p. 3.

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