. BARATA, Frederico. A XXXV EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. O Jornal, Rio de Janeiro, 24 ago. 1928, p. 3. - Egba

BARATA, Frederico. A XXXV EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. O Jornal, Rio de Janeiro, 24 ago. 1928, p. 3.

De Egba

(Diferença entre revisões)
Revisão atual (14h12min de 22 de Novembro de 2010) (ver código)
 
(8 edições intermediárias não estão sendo exibidas.)
Linha 1: Linha 1:
-
'''A XXXV EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES'''
 
-
 
-
<nowiki>-</nowiki>
 
-
 
'''Os doze concorrentes ao prêmio de viagem à Europa, na seção de pintura'''
'''Os doze concorrentes ao prêmio de viagem à Europa, na seção de pintura'''
Linha 13: Linha 9:
'''(Para O JORNAL)'''
'''(Para O JORNAL)'''
-
Não se pode negar que a época atual da pintura brasileira oferece muito maior interesse à critica do que essa outra que viu nascerem Almeida Junior, Pedro Américo, Victor Meirelles ou Zeferino da Costa. Menos estável, mais movimentada nas suas variadas tendências técnicas, a nossa época é por isso mesmo muito mais interessante. Imaginamos o que deveria ser um “Salon” ao findar o século passado, monótono, meticuloso, dogmático, escuro. Hoje, pelo menos, há liberdade, há luz, há contrastes... E, curiosidade a assinalar, quando parece declinar em todo o mundo o culto das extravagâncias é que ele começa a surgir aqui, atrasado de quase meio século. François Fosca, fazendo a critica do “Salon des Indépendants”, assinalava recentemente o quanto essa exposição perdera o seu poder outrora enorme de excitar a indignação e o desprezo, e explica o fenômeno dizendo que vivemos uma época de democratização estética, como se os tumultos artísticos destes últimos quarenta anos tivessem gerado o receio das aventuras ousadas. A verdade, porém, é que elas existem ainda. O que diminuiu foi a capacidade emotiva do público e não a audácia dos pintores. Raros são os que ainda sabem negar e mais raros os que se escandalizam. Quem vê Lindberg atravessar em avião, sozinho e diretamente, a formidável distancia que separa Nova York de Paris, quem fala pelo telefone de um continente para outro não se acha com o direito de recusar nada. O que parece absurdo bem pode ser a verdade... O regime é de grande, enorme tolerância. E os absurdos aí estão idênticos aos que os antecederam, só parecendo mais fracos porque desapareceu a reação que contra eles erguiam as convenções, os cânones e os dogmas do velho academismo intransigente. Para muitos, essa tolerância é uma característica de desordem estética, de verdadeira anarquia. Já era essa a opinião dos que combatiam Manet, Cézanne, Dégas, Monet, Picasso... Vale mais, pois, que sejamos tolerantes e possamos ver a beleza em um Rembrandt ou em um Matisse, em um Miguel Angelo, em um Rodin ou em um Bourdelle. A beleza, em arte, não se pode evidentemente medir pela fórmula de que se serve o artista para transmiti-la. Não julgariam os gregos, ao tempo das xoanas, que essas esculturas rudimentares eram a suprema conquista da arte? E depois que esses mesmos gregos aos nossos olhos mais se aproximaram da perfeição graças aos Phidias, aos Scopas e Praxitelles, não vamos nos voltando ao culto do primitivismo, denominando simplicidade, poder de síntese, ao que ontem chamávamos ignorância? Quantos sorrisos de piedade não nos dirigirão ainda os pósteros julgando a nossa incapacidade de sentir a beleza, pela qual muita vez [sic] passamos indiferentes para celebrarmos, possivelmente, o horrível como se o belo fora! Será o mesmo sorriso que hoje destinamos aos que num passado não distante recusaram beleza à obra dos impressionistas ou, mais longinquamente, tiveram a audácia de combater Franz Halls...
+
Não se pode negar que a época atual da pintura brasileira oferece muito maior interesse à critica do que essa outra que viu nascerem Almeida Junior, Pedro Américo, Victor Meirelles ou Zeferino da Costa. Menos estável, mais movimentada nas suas variadas tendências técnicas, a nossa época é por isso mesmo muito mais interessante. Imaginamos o que deveria ser um “Salon” ao findar o século passado, monótono, meticuloso, dogmático, escuro. Hoje, pelo menos, há liberdade, há luz, há contrastes... E, curiosidade a assinalar, quando parece declinar em todo o mundo o culto das extravagâncias é que ele começa a surgir aqui, atrasado de quase meio século. François Fosca, fazendo a critica do “Salon des Indépendants”, assinalava recentemente o quanto essa exposição perdera o seu poder outrora enorme de excitar a indignação e o desprezo, e explica o fenômeno dizendo que vivemos uma época de democratização estética, como se os tumultos artísticos destes últimos quarenta anos tivessem gerado o receio das aventuras ousadas. A verdade, porém, é que elas existem ainda. O que diminuiu foi a capacidade emotiva do público e não a audácia dos pintores. Raros são os que ainda sabem negar e mais raros os que se escandalizam. Quem vê Lindberg atravessar em avião, sozinho e diretamente, a formidável distância que separa Nova York de Paris, quem fala pelo telefone de um continente para outro não se acha com o direito de recusar nada. O que parece absurdo bem pode ser a verdade... O regime é de grande, enorme tolerância. E os absurdos aí estão idênticos aos que os antecederam, só parecendo mais fracos porque desapareceu a reação que contra eles erguiam as convenções, os cânones e os dogmas do velho academismo intransigente. Para muitos, essa tolerância é uma característica de desordem estética, de verdadeira anarquia. Já era essa a opinião dos que combatiam Manet, Cézanne, Dégas, Monet, Picasso... Vale mais, pois, que sejamos tolerantes e possamos ver a beleza em um Rembrandt ou em um Matisse, em um Miguel Angelo, em um Rodin ou em um Bourdelle. A beleza, em arte, não se pode evidentemente medir pela fórmula de que se serve o artista para transmiti-la. Não julgariam os gregos, ao tempo das xoanas, que essas esculturas rudimentares eram a suprema conquista da arte? E depois que esses mesmos gregos aos nossos olhos mais se aproximaram da perfeição graças aos Phidias, aos Scopas e Praxitelles, não vamos nos voltando ao culto do primitivismo, denominando simplicidade, poder de síntese, ao que ontem chamávamos ignorância? Quantos sorrisos de piedade não nos dirigirão ainda os pósteros julgando a nossa incapacidade de sentir a beleza, pela qual muita vez [sic] passamos indiferentes para celebrarmos, possivelmente, o horrível como se o belo fora! Será o mesmo sorriso que hoje destinamos aos que num passado não distante recusaram beleza à obra dos impressionistas ou, mais longinquamente, tiveram a audácia de combater Franz Halls...
'''EM TORNO DA VIAGEM À EUROPA'''
'''EM TORNO DA VIAGEM À EUROPA'''
-
Acompanharemos a época. Com infinita tolerância vamos penetrar na XXXV Exposição Geral, ora franqueada ao publico na Escola de Belas Artes. Como sempre, todas as atenções convergem em primeiro lugar para a sala em que se alinham os candidatos ao prêmio de viagem à Europa.
+
Acompanharemos a época. Com infinita tolerância vamos penetrar na XXXV Exposição Geral, ora franqueada ao público na Escola de Belas Artes. Como sempre, todas as atenções convergem em primeiro lugar para a sala em que se alinham os candidatos ao prêmio de viagem à Europa.
Só na seção de pintura, por culpa da facilidade em conceder medalhas de prata, eles são este ano em número de doze: [[Cadmo Fausto]], [[Candido Portinari]], [[Edith de Aguiar]], [[Euclydes Fonseca]], [[Gastão Formenti]], [[Gilda Moreira]], [[João de Azevedo]], [[Manoel Constantino]], [[Manoel Faria]], [[Orlando Teruz]], [[Orozio Belém]] e [[Sarah Villela de Figueiredo]]. Pouco trabalho, porém, vai ter o júri para julgá-los, visto como alguns se apresentam tão fracos que não resistirão sequer a uma benévola eliminatória inicial. Os srs. Cadmo Fausto, Candido Portinari e Manoel Constantino são os favoritos. O primeiro já no ano passado, disputando o mesmo prêmio, perdeu apenas por um voto para o sr. Manoel Santiago, que já se encontra em Paris. É um disputante que se apresenta com qualidades apreciáveis, se bem que ainda um pouco hesitante. Abordando um gênero difícil - o ar livre - conserva a mesma monotonia de colorido da exposição antecedente e até mesmo os motivos escolhidos são idênticos aos do ano passado. Dir-se-ia que teve receio de pintar assunto diferente, se bem que revele condições ótimas para fazê-lo.  
Só na seção de pintura, por culpa da facilidade em conceder medalhas de prata, eles são este ano em número de doze: [[Cadmo Fausto]], [[Candido Portinari]], [[Edith de Aguiar]], [[Euclydes Fonseca]], [[Gastão Formenti]], [[Gilda Moreira]], [[João de Azevedo]], [[Manoel Constantino]], [[Manoel Faria]], [[Orlando Teruz]], [[Orozio Belém]] e [[Sarah Villela de Figueiredo]]. Pouco trabalho, porém, vai ter o júri para julgá-los, visto como alguns se apresentam tão fracos que não resistirão sequer a uma benévola eliminatória inicial. Os srs. Cadmo Fausto, Candido Portinari e Manoel Constantino são os favoritos. O primeiro já no ano passado, disputando o mesmo prêmio, perdeu apenas por um voto para o sr. Manoel Santiago, que já se encontra em Paris. É um disputante que se apresenta com qualidades apreciáveis, se bem que ainda um pouco hesitante. Abordando um gênero difícil - o ar livre - conserva a mesma monotonia de colorido da exposição antecedente e até mesmo os motivos escolhidos são idênticos aos do ano passado. Dir-se-ia que teve receio de pintar assunto diferente, se bem que revele condições ótimas para fazê-lo.  
-
O sr. Candido Portinari assina um magnífico [retrato do sr. Olegário Marianno]. Não se poderia discutir o seu direito à premiação se só com esse trabalho a ela se tivesse candidatado. Com muito caráter, bom colorido e sólida construção é ele digno da cobiça recompensa.
+
O sr. Candido Portinari assina um magnífico [http://www.dezenovevinte.net/egba/index.php?title=Imagem:O_Paiz_1928.08.10_cportinari.jpg retrato do sr. Olegário Marianno]. Não se poderia discutir o seu direito à premiação se só com esse trabalho a ela se tivesse candidatado. Com muito caráter, bom colorido e sólida construção é ele digno da cobiça recompensa.
O sr. Portinari, entretanto, que desde 1926 disputa com retratos a viagem à Europa, apresenta também, e pela primeira vez, uma composição que muito deixa a desejar. Por onde se orientará a comissão julgadora? Pelo mérito excepcional do retrato ou pelo conjunto grandemente prejudicado pela composição em que cada figura constitui um quadro isolado, sem ambientação alguma?
O sr. Portinari, entretanto, que desde 1926 disputa com retratos a viagem à Europa, apresenta também, e pela primeira vez, uma composição que muito deixa a desejar. Por onde se orientará a comissão julgadora? Pelo mérito excepcional do retrato ou pelo conjunto grandemente prejudicado pela composição em que cada figura constitui um quadro isolado, sem ambientação alguma?
-
''A QUESTÃO DO AMBIENTE DE TRABALHO''
+
'''A QUESTÃO DO AMBIENTE DE TRABALHO'''
-
O sr. Manoel Constantino apresenta-se com duas composições: “Morte de Mimi” e [“Dama das Camélias”]. Ambas dão-nos a impressão de terem sido executadas no interior de um quarto escuro e talvez não nos enganemos. Os nossos artistas lutam, em sua maioria, com grandes dificuldades de ateliers e não raro são forçados a trabalhar em ambientes impróprios, sem luz e sem espaço. Ainda no ano passado vimos um dos nossos bons pintores, aliás, hoje professor da Escola, ser vitima de uma partida que lhe pregou o diminuto quarto que lhe servia de atelier. Nele fez posar o modelo, para um nu, quase sem distancia para apreciar os efeitos da distribuição de tintas. Habituou-se, porém ao trabalho naquele ambiente e acabou por não sentir mais nem essas deficiências, nem as de luz. Dado o quadro por terminado, mandou-o para o “Salon” e só aí, depois de exposto, quando não havia mais remédio, descobriu os inúmeros defeitos que não vira antes e nos quais incorrera unicamente por culpa do ambiente em que trabalhara. Essa questão do mau ambiente em que trabalha o artista tem maior importância do que a primeira vista pode parecer e dela deve ter sofrido as consequências o sr. Manoel Constantino, tanto quanto no ano passado o sr. [[Marques Junior]] que é o pintor ao qual acima nos referimos. E leva-nos a essa conclusão o conhecimento perfeito que temos das suas possibilidades que não estão de modo nenhum representadas pelas duas telas “Morte de Mimi” e “Dama das Camélias”, com um colorido peculiar a cartazes de cinema. Esta última dir-se-ia que acabara de levar um repelão mais violento do enciumado Armando Duval, resultando da queda machucar uma das mãos que, inchando, tornou-se maior do que a outra...
+
O sr. Manoel Constantino apresenta-se com duas composições: “Morte de Mimi” e [http://www.dezenovevinte.net/egba/index.php?title=Imagem:O_Globo_1928.08.11_mconstantino.jpg “Dama das Camélias”]. Ambas dão-nos a impressão de terem sido executadas no interior de um quarto escuro e talvez não nos enganemos. Os nossos artistas lutam, em sua maioria, com grandes dificuldades de ateliers e não raro são forçados a trabalhar em ambientes impróprios, sem luz e sem espaço. Ainda no ano passado vimos um dos nossos bons pintores, aliás, hoje professor da Escola, ser vítima de uma partida que lhe pregou o diminuto quarto que lhe servia de atelier. Nele fez posar o modelo, para um nu, quase sem distância para apreciar os efeitos da distribuição de tintas. Habituou-se, porém ao trabalho naquele ambiente e acabou por não sentir mais nem essas deficiências, nem as de luz. Dado o quadro por terminado, mandou-o para o “Salon” e só aí, depois de exposto, quando não havia mais remédio, descobriu os inúmeros defeitos que não vira antes e nos quais incorrera unicamente por culpa do ambiente em que trabalhara. Essa questão do mau ambiente em que trabalha o artista tem maior importância do que a primeira vista pode parecer e dela deve ter sofrido as consequências o sr. Manoel Constantino, tanto quanto no ano passado o sr. [[Marques Junior]] que é o pintor ao qual acima nos referimos. E leva-nos a essa conclusão o conhecimento perfeito que temos das suas possibilidades que não estão de modo nenhum representadas pelas duas telas “Morte de Mimi” e “Dama das Camélias”, com um colorido peculiar a cartazes de cinema. Esta última dir-se-ia que acabara de levar um repelão mais violento do enciumado Armando Duval, resultando da queda machucar uma das mãos que, inchando, tornou-se maior do que a outra...
-
Uma concorrente também apreciável é a senhorita Edith de Aguiar. Há anos que a vimos acompanhando e sempre nela temos encontrado progressos a assinalar. Sua contribuição deste ano é boa, destacando-se o retrato de “Mlle. E. S.” e uma paisagem feliz não só pelo corte como pela interpretação (nº 84). E se é certo, como se propala nas rodas dos artistas que a senhorita Edith de Aguiar não poderá nunca obter o prêmio de viagem por ter seus estudos em parte no estrangeiro, não se lhe pode recusar a outorga de uma outra recompensa.
+
Uma concorrente também apreciável é a senhorita Edith de Aguiar. Há anos que a vimos acompanhando e sempre nela temos encontrado progressos a assinalar. Sua contribuição deste ano é boa, destacando-se o retrato de “Mlle. E. S.” e uma [http://www.dezenovevinte.net/egba/images/0/04/O_Paiz_1928.08.12.jpg paisagem] feliz não só pelo corte como pela interpretação (nº 84). E se é certo, como se propala nas rodas dos artistas que a senhorita Edith de Aguiar não poderá nunca obter o prêmio de viagem por ter seus estudos em parte no estrangeiro, não se lhe pode recusar a outorga de uma outra recompensa.
-
Também não podem passar sem uma referência o sr. Orlando Teruz e a senhora Sarah Villela Figueiredo, cuja contribuição é inferior, todavia, a outras que dela temos visto. Aquele revela ousadia de concepção, mas se descuida das figuras que em um dos quadros - o do barco - chegam a ser disformes, aproximando-se quase daqueles “Prime vos” que [[Antonio Parreiras]] expôs em “Salon” anterior.
+
Também não podem passar sem uma referência o sr. Orlando Teruz e a senhora Sarah Villela Figueiredo, cuja contribuição é inferior, todavia, a outras que dela temos visto. Aquele revela ousadia de concepção, mas se descuida das figuras que em um dos quadros - o do barco - chegam a ser disformes, aproximando-se quase daqueles “Primevos” que [[Antonio Parreiras]] expôs em “Salon” anterior.
Em resumo, e a rigor, o prêmio de viagem não poderia caber este ano à seção de pintura.
Em resumo, e a rigor, o prêmio de viagem não poderia caber este ano à seção de pintura.
 +
 +
'''OS DA VELHA GUARDA'''
 +
 +
Passemos agora à velha guarda, Elyseu D’Angelo Visconti, Rodolpho Amoedo e Henrique Bernardelli são os únicos que a representam.
 +
 +
Elyseu Visconti constitui, ele só, uma série de capítulos da história da evolução da nossa pintura. Numa ânsia de se aperfeiçoar, pesquisando sempre, não para nunca esse espírito infatigável e eternamente moço. Carlos Malheiro Dias contava-nos outro dia, maravilhado, o espanto de que se deixara possuir ao entrar em princípios deste ano no atelier do grande Malhôa, em Portugal. Vira um artista novo, até então desconhecido, mais ardente, mais luminoso, mais vivo, diferente do Malhôa anterior que se habituara a amar, mas sempre grande e cada vez mais forte e mais admirável. Com Visconti se passa o mesmo. Cada vez que o vemos é novo e sempre grande, sempre forte. Quão diferente é o Visconti que produziu “S. Sebastião” e “Oreades”, do que produziu “Cura de Sol” e “Samothrace” e do que agora apresenta “Os deserdados”, [http://www.dezenovevinte.net/egba/index.php?title=Imagem:O_Paiz_1928.08.10_ev.jpg “Para a Escola”], “Retrato” (91), e “Igreja de Santa Tereza”! Mas que belo artista é em qualquer dessas fases, tão distantes uma da outra! Em “Retrato” um magnífico retrato de sua senhora, conseguiu Elyseu Visconti efeitos de luz ao ar livre de surpreendente beleza, mas com doçura, sem cores berrantes e sem artifícios, e mais uma vez nos apresenta aí uma feliz amostra do que poderíamos chamar um “primeiro plano atmosférico” que se interpõe entre a figura - primeiro plano real - e o observador, pesquisa a qual se vem devotando com ardor de certo tempo para cá.
 +
 +
'''H. BERNARDELLI'''
 +
 +
Henrique Bernardelli, o velho mestre de “Bandeirantes”, da Pinacoteca Nacional, oferece-nos este ano nada menos de 28 trabalhos. Dentre eles vinte são retratos das alunas que estudam no seu atelier, à Avenida Atlântica. Em conjunto, essa série de retratos não causa boa impressão. Tratados com o mesmo colorido, sem a mínima variação e todos apanhados em rigoroso perfil, ficam monótonos e prejudicados, dando a ilusão de que foram posados por um único modelo. São retratos para serem vistos isolada e espaçadamente. De todos os trabalhos expostos pelo professor Bernardelli é talvez o melhor o “Retrato do professor Bernardelli”, seu irmão, que nos agradou imensamente, tanto quanto nos desagradou “Na varanda”, onde se vê em primeiro plano uma figura de moça que cruza as pernas em atitude forçada e quase incompreensível, como se as tivesse de madeira ou ferro. Idêntica dureza se nota no movimento do pescoço. “Manton de Manilla” é um belo quadro e, em verdade, um ótimo retrato da senhora Sarah Villela de Figueiredo, discípula do pintor.
 +
 +
'''R. AMOEDO'''
 +
 +
O sr. Rodolpho Amoedo, outro artista consagrado é um dos que mais notáveis obras possuem na Pinacoteca nacional, apresenta um único trabalho: “Jesus descendo o Monte das Oliveiras”. É um quadro que não é novo. O professor Rodolpho Amoedo, quando há pouco visitamos o seu atelier, terminava para o “Salon” uma grande tela que, entretanto não enviou. Lamentamo-lo, porque “Jesus descendo o Monte das Oliveiras” é trabalho inexpressivo que não dá margem a que por ele se possa julgar da evolução ou da decadência de um mestre da estrutura do seu autor.
 +
 +
Em outro artigo prosseguiremos na análise da atual Exposição Geral de Belas Artes. E estudaremos, para encerrá-la, os trabalhos enviados pelos srs. [[Nelson Netto]] e [[Theodoro Braga]] - nos quais nos queremos deter um pouco mais - assim como os que remeteram os srs. [[A. Bracet]], [[Carlos Oswaldo]], [[Cesar Turatti]], [[F. Manna]], [[Georgina de Albuquerque]], [[Genesco Murta]], [[Henrique Cavalleiro]], [[Hernani de Irajá]], [[João Thimotheo da Costa]], [[João Zacco Paraná]], [[Jordão de Oliveira]], [[Lucílio de Albuquerque]], Almeida Junior <nowiki>[</nowiki>[[Luiz Fernandes de Almeida Júnior]]<nowiki>]</nowiki>, [[Marques Junior]], [[Oswaldo Teixeira]], [[Padua Dutra]], [[Pedro Bruno]], [[Porciuncula de Moraes]], [[Paulo Gagarin]], [[Suzanna de Mesquita]] e [[Yvone Visconti]]
----
----
Linha 41: Linha 53:
'''Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz'''
'''Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz'''
-
[[BARATA, Frederico]]. A XXXV EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. [[O Jornal]], Rio de Janeiro, 24 ago. [[1928]], p. 3.
+
BARATA, Frederico. A XXXV EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. [[O Jornal]], Rio de Janeiro, 24 ago. [[1928]], p. 3.

Revisão atual

Os doze concorrentes ao prêmio de viagem à Europa, na seção de pintura

-

Os mestres: Elyseu Visconti, Henrique Bernardelli e Rodolpho Amoedo

Frederico BARATA

(Para O JORNAL)

Não se pode negar que a época atual da pintura brasileira oferece muito maior interesse à critica do que essa outra que viu nascerem Almeida Junior, Pedro Américo, Victor Meirelles ou Zeferino da Costa. Menos estável, mais movimentada nas suas variadas tendências técnicas, a nossa época é por isso mesmo muito mais interessante. Imaginamos o que deveria ser um “Salon” ao findar o século passado, monótono, meticuloso, dogmático, escuro. Hoje, pelo menos, há liberdade, há luz, há contrastes... E, curiosidade a assinalar, quando parece declinar em todo o mundo o culto das extravagâncias é que ele começa a surgir aqui, atrasado de quase meio século. François Fosca, fazendo a critica do “Salon des Indépendants”, assinalava recentemente o quanto essa exposição perdera o seu poder outrora enorme de excitar a indignação e o desprezo, e explica o fenômeno dizendo que vivemos uma época de democratização estética, como se os tumultos artísticos destes últimos quarenta anos tivessem gerado o receio das aventuras ousadas. A verdade, porém, é que elas existem ainda. O que diminuiu foi a capacidade emotiva do público e não a audácia dos pintores. Raros são os que ainda sabem negar e mais raros os que se escandalizam. Quem vê Lindberg atravessar em avião, sozinho e diretamente, a formidável distância que separa Nova York de Paris, quem fala pelo telefone de um continente para outro não se acha com o direito de recusar nada. O que parece absurdo bem pode ser a verdade... O regime é de grande, enorme tolerância. E os absurdos aí estão idênticos aos que os antecederam, só parecendo mais fracos porque desapareceu a reação que contra eles erguiam as convenções, os cânones e os dogmas do velho academismo intransigente. Para muitos, essa tolerância é uma característica de desordem estética, de verdadeira anarquia. Já era essa a opinião dos que combatiam Manet, Cézanne, Dégas, Monet, Picasso... Vale mais, pois, que sejamos tolerantes e possamos ver a beleza em um Rembrandt ou em um Matisse, em um Miguel Angelo, em um Rodin ou em um Bourdelle. A beleza, em arte, não se pode evidentemente medir pela fórmula de que se serve o artista para transmiti-la. Não julgariam os gregos, ao tempo das xoanas, que essas esculturas rudimentares eram a suprema conquista da arte? E depois que esses mesmos gregos aos nossos olhos mais se aproximaram da perfeição graças aos Phidias, aos Scopas e Praxitelles, não vamos nos voltando ao culto do primitivismo, denominando simplicidade, poder de síntese, ao que ontem chamávamos ignorância? Quantos sorrisos de piedade não nos dirigirão ainda os pósteros julgando a nossa incapacidade de sentir a beleza, pela qual muita vez [sic] passamos indiferentes para celebrarmos, possivelmente, o horrível como se o belo fora! Será o mesmo sorriso que hoje destinamos aos que num passado não distante recusaram beleza à obra dos impressionistas ou, mais longinquamente, tiveram a audácia de combater Franz Halls...

EM TORNO DA VIAGEM À EUROPA

Acompanharemos a época. Com infinita tolerância vamos penetrar na XXXV Exposição Geral, ora franqueada ao público na Escola de Belas Artes. Como sempre, todas as atenções convergem em primeiro lugar para a sala em que se alinham os candidatos ao prêmio de viagem à Europa.

Só na seção de pintura, por culpa da facilidade em conceder medalhas de prata, eles são este ano em número de doze: Cadmo Fausto, Candido Portinari, Edith de Aguiar, Euclydes Fonseca, Gastão Formenti, Gilda Moreira, João de Azevedo, Manoel Constantino, Manoel Faria, Orlando Teruz, Orozio Belém e Sarah Villela de Figueiredo. Pouco trabalho, porém, vai ter o júri para julgá-los, visto como alguns se apresentam tão fracos que não resistirão sequer a uma benévola eliminatória inicial. Os srs. Cadmo Fausto, Candido Portinari e Manoel Constantino são os favoritos. O primeiro já no ano passado, disputando o mesmo prêmio, perdeu apenas por um voto para o sr. Manoel Santiago, que já se encontra em Paris. É um disputante que se apresenta com qualidades apreciáveis, se bem que ainda um pouco hesitante. Abordando um gênero difícil - o ar livre - conserva a mesma monotonia de colorido da exposição antecedente e até mesmo os motivos escolhidos são idênticos aos do ano passado. Dir-se-ia que teve receio de pintar assunto diferente, se bem que revele condições ótimas para fazê-lo.

O sr. Candido Portinari assina um magnífico retrato do sr. Olegário Marianno. Não se poderia discutir o seu direito à premiação se só com esse trabalho a ela se tivesse candidatado. Com muito caráter, bom colorido e sólida construção é ele digno da cobiça recompensa.

O sr. Portinari, entretanto, que desde 1926 disputa com retratos a viagem à Europa, apresenta também, e pela primeira vez, uma composição que muito deixa a desejar. Por onde se orientará a comissão julgadora? Pelo mérito excepcional do retrato ou pelo conjunto grandemente prejudicado pela composição em que cada figura constitui um quadro isolado, sem ambientação alguma?

A QUESTÃO DO AMBIENTE DE TRABALHO

O sr. Manoel Constantino apresenta-se com duas composições: “Morte de Mimi” e “Dama das Camélias”. Ambas dão-nos a impressão de terem sido executadas no interior de um quarto escuro e talvez não nos enganemos. Os nossos artistas lutam, em sua maioria, com grandes dificuldades de ateliers e não raro são forçados a trabalhar em ambientes impróprios, sem luz e sem espaço. Ainda no ano passado vimos um dos nossos bons pintores, aliás, hoje professor da Escola, ser vítima de uma partida que lhe pregou o diminuto quarto que lhe servia de atelier. Nele fez posar o modelo, para um nu, quase sem distância para apreciar os efeitos da distribuição de tintas. Habituou-se, porém ao trabalho naquele ambiente e acabou por não sentir mais nem essas deficiências, nem as de luz. Dado o quadro por terminado, mandou-o para o “Salon” e só aí, depois de exposto, quando não havia mais remédio, descobriu os inúmeros defeitos que não vira antes e nos quais incorrera unicamente por culpa do ambiente em que trabalhara. Essa questão do mau ambiente em que trabalha o artista tem maior importância do que a primeira vista pode parecer e dela deve ter sofrido as consequências o sr. Manoel Constantino, tanto quanto no ano passado o sr. Marques Junior que é o pintor ao qual acima nos referimos. E leva-nos a essa conclusão o conhecimento perfeito que temos das suas possibilidades que não estão de modo nenhum representadas pelas duas telas “Morte de Mimi” e “Dama das Camélias”, com um colorido peculiar a cartazes de cinema. Esta última dir-se-ia que acabara de levar um repelão mais violento do enciumado Armando Duval, resultando da queda machucar uma das mãos que, inchando, tornou-se maior do que a outra...

Uma concorrente também apreciável é a senhorita Edith de Aguiar. Há anos que a vimos acompanhando e sempre nela temos encontrado progressos a assinalar. Sua contribuição deste ano é boa, destacando-se o retrato de “Mlle. E. S.” e uma paisagem feliz não só pelo corte como pela interpretação (nº 84). E se é certo, como se propala nas rodas dos artistas que a senhorita Edith de Aguiar não poderá nunca obter o prêmio de viagem por ter seus estudos em parte no estrangeiro, não se lhe pode recusar a outorga de uma outra recompensa.

Também não podem passar sem uma referência o sr. Orlando Teruz e a senhora Sarah Villela Figueiredo, cuja contribuição é inferior, todavia, a outras que dela temos visto. Aquele revela ousadia de concepção, mas se descuida das figuras que em um dos quadros - o do barco - chegam a ser disformes, aproximando-se quase daqueles “Primevos” que Antonio Parreiras expôs em “Salon” anterior.

Em resumo, e a rigor, o prêmio de viagem não poderia caber este ano à seção de pintura.

OS DA VELHA GUARDA

Passemos agora à velha guarda, Elyseu D’Angelo Visconti, Rodolpho Amoedo e Henrique Bernardelli são os únicos que a representam.

Elyseu Visconti constitui, ele só, uma série de capítulos da história da evolução da nossa pintura. Numa ânsia de se aperfeiçoar, pesquisando sempre, não para nunca esse espírito infatigável e eternamente moço. Carlos Malheiro Dias contava-nos outro dia, maravilhado, o espanto de que se deixara possuir ao entrar em princípios deste ano no atelier do grande Malhôa, em Portugal. Vira um artista novo, até então desconhecido, mais ardente, mais luminoso, mais vivo, diferente do Malhôa anterior que se habituara a amar, mas sempre grande e cada vez mais forte e mais admirável. Com Visconti se passa o mesmo. Cada vez que o vemos é novo e sempre grande, sempre forte. Quão diferente é o Visconti que produziu “S. Sebastião” e “Oreades”, do que produziu “Cura de Sol” e “Samothrace” e do que agora apresenta “Os deserdados”, “Para a Escola”, “Retrato” (91), e “Igreja de Santa Tereza”! Mas que belo artista é em qualquer dessas fases, tão distantes uma da outra! Em “Retrato” um magnífico retrato de sua senhora, conseguiu Elyseu Visconti efeitos de luz ao ar livre de surpreendente beleza, mas com doçura, sem cores berrantes e sem artifícios, e mais uma vez nos apresenta aí uma feliz amostra do que poderíamos chamar um “primeiro plano atmosférico” que se interpõe entre a figura - primeiro plano real - e o observador, pesquisa a qual se vem devotando com ardor de certo tempo para cá.

H. BERNARDELLI

Henrique Bernardelli, o velho mestre de “Bandeirantes”, da Pinacoteca Nacional, oferece-nos este ano nada menos de 28 trabalhos. Dentre eles vinte são retratos das alunas que estudam no seu atelier, à Avenida Atlântica. Em conjunto, essa série de retratos não causa boa impressão. Tratados com o mesmo colorido, sem a mínima variação e todos apanhados em rigoroso perfil, ficam monótonos e prejudicados, dando a ilusão de que foram posados por um único modelo. São retratos para serem vistos isolada e espaçadamente. De todos os trabalhos expostos pelo professor Bernardelli é talvez o melhor o “Retrato do professor Bernardelli”, seu irmão, que nos agradou imensamente, tanto quanto nos desagradou “Na varanda”, onde se vê em primeiro plano uma figura de moça que cruza as pernas em atitude forçada e quase incompreensível, como se as tivesse de madeira ou ferro. Idêntica dureza se nota no movimento do pescoço. “Manton de Manilla” é um belo quadro e, em verdade, um ótimo retrato da senhora Sarah Villela de Figueiredo, discípula do pintor.

R. AMOEDO

O sr. Rodolpho Amoedo, outro artista consagrado é um dos que mais notáveis obras possuem na Pinacoteca nacional, apresenta um único trabalho: “Jesus descendo o Monte das Oliveiras”. É um quadro que não é novo. O professor Rodolpho Amoedo, quando há pouco visitamos o seu atelier, terminava para o “Salon” uma grande tela que, entretanto não enviou. Lamentamo-lo, porque “Jesus descendo o Monte das Oliveiras” é trabalho inexpressivo que não dá margem a que por ele se possa julgar da evolução ou da decadência de um mestre da estrutura do seu autor.

Em outro artigo prosseguiremos na análise da atual Exposição Geral de Belas Artes. E estudaremos, para encerrá-la, os trabalhos enviados pelos srs. Nelson Netto e Theodoro Braga - nos quais nos queremos deter um pouco mais - assim como os que remeteram os srs. A. Bracet, Carlos Oswaldo, Cesar Turatti, F. Manna, Georgina de Albuquerque, Genesco Murta, Henrique Cavalleiro, Hernani de Irajá, João Thimotheo da Costa, João Zacco Paraná, Jordão de Oliveira, Lucílio de Albuquerque, Almeida Junior [Luiz Fernandes de Almeida Júnior], Marques Junior, Oswaldo Teixeira, Padua Dutra, Pedro Bruno, Porciuncula de Moraes, Paulo Gagarin, Suzanna de Mesquita e Yvone Visconti


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

BARATA, Frederico. A XXXV EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. O Jornal, Rio de Janeiro, 24 ago. 1928, p. 3.

Ferramentas pessoais
sites relacionados