. BARATA, Frederico. A XXXV EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. O Jornal, Rio de Janeiro, 24 ago. 1928, p. 3. - Egba

BARATA, Frederico. A XXXV EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. O Jornal, Rio de Janeiro, 24 ago. 1928, p. 3.

De Egba

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Uma concorrente também apreciável é a senhorita Edith de Aguiar. Há anos que a vimos acompanhando e sempre nela temos encontrado progressos a assinalar. Sua contribuição deste ano é boa, destacando-se o retrato de “Mlle. E. S.” e uma paisagem feliz não só pelo corte como pela interpretação (nº 84). E se é certo, como se propala nas rodas dos artistas que a senhorita Edith de Aguiar não poderá nunca obter o prêmio de viagem por ter seus estudos em parte no estrangeiro, não se lhe pode recusar a outorga de uma outra recompensa.
Uma concorrente também apreciável é a senhorita Edith de Aguiar. Há anos que a vimos acompanhando e sempre nela temos encontrado progressos a assinalar. Sua contribuição deste ano é boa, destacando-se o retrato de “Mlle. E. S.” e uma paisagem feliz não só pelo corte como pela interpretação (nº 84). E se é certo, como se propala nas rodas dos artistas que a senhorita Edith de Aguiar não poderá nunca obter o prêmio de viagem por ter seus estudos em parte no estrangeiro, não se lhe pode recusar a outorga de uma outra recompensa.
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Também não podem passar sem uma referência o sr. Orlando Teruz e a senhora Sarah Villela Figueiredo, cuja contribuição é inferior, todavia, a outras que dela temos visto. Aquele revela ousadia de concepção, mas se descuida das figuras que em um dos quadros - o do barco - chegam a ser disformes, aproximando-se quase daqueles “Prime vos” que [[Antonio Parreiras]] expôs em “Salon” anterior.
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Também não podem passar sem uma referência o sr. Orlando Teruz e a senhora Sarah Villela Figueiredo, cuja contribuição é inferior, todavia, a outras que dela temos visto. Aquele revela ousadia de concepção, mas se descuida das figuras que em um dos quadros - o do barco - chegam a ser disformes, aproximando-se quase daqueles “Primevos” que [[Antonio Parreiras]] expôs em “Salon” anterior.
Em resumo, e a rigor, o prêmio de viagem não poderia caber este ano à seção de pintura.
Em resumo, e a rigor, o prêmio de viagem não poderia caber este ano à seção de pintura.
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Edição de 03h48min de 30 de Setembro de 2010

Os doze concorrentes ao prêmio de viagem à Europa, na seção de pintura

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Os mestres: Elyseu Visconti, Henrique Bernardelli e Rodolpho Amoedo

Frederico BARATA

(Para O JORNAL)

Não se pode negar que a época atual da pintura brasileira oferece muito maior interesse à critica do que essa outra que viu nascerem Almeida Junior, Pedro Américo, Victor Meirelles ou Zeferino da Costa. Menos estável, mais movimentada nas suas variadas tendências técnicas, a nossa época é por isso mesmo muito mais interessante. Imaginamos o que deveria ser um “Salon” ao findar o século passado, monótono, meticuloso, dogmático, escuro. Hoje, pelo menos, há liberdade, há luz, há contrastes... E, curiosidade a assinalar, quando parece declinar em todo o mundo o culto das extravagâncias é que ele começa a surgir aqui, atrasado de quase meio século. François Fosca, fazendo a critica do “Salon des Indépendants”, assinalava recentemente o quanto essa exposição perdera o seu poder outrora enorme de excitar a indignação e o desprezo, e explica o fenômeno dizendo que vivemos uma época de democratização estética, como se os tumultos artísticos destes últimos quarenta anos tivessem gerado o receio das aventuras ousadas. A verdade, porém, é que elas existem ainda. O que diminuiu foi a capacidade emotiva do público e não a audácia dos pintores. Raros são os que ainda sabem negar e mais raros os que se escandalizam. Quem vê Lindberg atravessar em avião, sozinho e diretamente, a formidável distancia que separa Nova York de Paris, quem fala pelo telefone de um continente para outro não se acha com o direito de recusar nada. O que parece absurdo bem pode ser a verdade... O regime é de grande, enorme tolerância. E os absurdos aí estão idênticos aos que os antecederam, só parecendo mais fracos porque desapareceu a reação que contra eles erguiam as convenções, os cânones e os dogmas do velho academismo intransigente. Para muitos, essa tolerância é uma característica de desordem estética, de verdadeira anarquia. Já era essa a opinião dos que combatiam Manet, Cézanne, Dégas, Monet, Picasso... Vale mais, pois, que sejamos tolerantes e possamos ver a beleza em um Rembrandt ou em um Matisse, em um Miguel Angelo, em um Rodin ou em um Bourdelle. A beleza, em arte, não se pode evidentemente medir pela fórmula de que se serve o artista para transmiti-la. Não julgariam os gregos, ao tempo das xoanas, que essas esculturas rudimentares eram a suprema conquista da arte? E depois que esses mesmos gregos aos nossos olhos mais se aproximaram da perfeição graças aos Phidias, aos Scopas e Praxitelles, não vamos nos voltando ao culto do primitivismo, denominando simplicidade, poder de síntese, ao que ontem chamávamos ignorância? Quantos sorrisos de piedade não nos dirigirão ainda os pósteros julgando a nossa incapacidade de sentir a beleza, pela qual muita vez [sic] passamos indiferentes para celebrarmos, possivelmente, o horrível como se o belo fora! Será o mesmo sorriso que hoje destinamos aos que num passado não distante recusaram beleza à obra dos impressionistas ou, mais longinquamente, tiveram a audácia de combater Franz Halls...

EM TORNO DA VIAGEM À EUROPA

Acompanharemos a época. Com infinita tolerância vamos penetrar na XXXV Exposição Geral, ora franqueada ao publico na Escola de Belas Artes. Como sempre, todas as atenções convergem em primeiro lugar para a sala em que se alinham os candidatos ao prêmio de viagem à Europa.

Só na seção de pintura, por culpa da facilidade em conceder medalhas de prata, eles são este ano em número de doze: Cadmo Fausto, Candido Portinari, Edith de Aguiar, Euclydes Fonseca, Gastão Formenti, Gilda Moreira, João de Azevedo, Manoel Constantino, Manoel Faria, Orlando Teruz, Orozio Belém e Sarah Villela de Figueiredo. Pouco trabalho, porém, vai ter o júri para julgá-los, visto como alguns se apresentam tão fracos que não resistirão sequer a uma benévola eliminatória inicial. Os srs. Cadmo Fausto, Candido Portinari e Manoel Constantino são os favoritos. O primeiro já no ano passado, disputando o mesmo prêmio, perdeu apenas por um voto para o sr. Manoel Santiago, que já se encontra em Paris. É um disputante que se apresenta com qualidades apreciáveis, se bem que ainda um pouco hesitante. Abordando um gênero difícil - o ar livre - conserva a mesma monotonia de colorido da exposição antecedente e até mesmo os motivos escolhidos são idênticos aos do ano passado. Dir-se-ia que teve receio de pintar assunto diferente, se bem que revele condições ótimas para fazê-lo.

O sr. Candido Portinari assina um magnífico [retrato do sr. Olegário Marianno]. Não se poderia discutir o seu direito à premiação se só com esse trabalho a ela se tivesse candidatado. Com muito caráter, bom colorido e sólida construção é ele digno da cobiça recompensa.

O sr. Portinari, entretanto, que desde 1926 disputa com retratos a viagem à Europa, apresenta também, e pela primeira vez, uma composição que muito deixa a desejar. Por onde se orientará a comissão julgadora? Pelo mérito excepcional do retrato ou pelo conjunto grandemente prejudicado pela composição em que cada figura constitui um quadro isolado, sem ambientação alguma?

A QUESTÃO DO AMBIENTE DE TRABALHO

O sr. Manoel Constantino apresenta-se com duas composições: “Morte de Mimi” e [“Dama das Camélias”]. Ambas dão-nos a impressão de terem sido executadas no interior de um quarto escuro e talvez não nos enganemos. Os nossos artistas lutam, em sua maioria, com grandes dificuldades de ateliers e não raro são forçados a trabalhar em ambientes impróprios, sem luz e sem espaço. Ainda no ano passado vimos um dos nossos bons pintores, aliás, hoje professor da Escola, ser vitima de uma partida que lhe pregou o diminuto quarto que lhe servia de atelier. Nele fez posar o modelo, para um nu, quase sem distancia para apreciar os efeitos da distribuição de tintas. Habituou-se, porém ao trabalho naquele ambiente e acabou por não sentir mais nem essas deficiências, nem as de luz. Dado o quadro por terminado, mandou-o para o “Salon” e só aí, depois de exposto, quando não havia mais remédio, descobriu os inúmeros defeitos que não vira antes e nos quais incorrera unicamente por culpa do ambiente em que trabalhara. Essa questão do mau ambiente em que trabalha o artista tem maior importância do que a primeira vista pode parecer e dela deve ter sofrido as consequências o sr. Manoel Constantino, tanto quanto no ano passado o sr. Marques Junior que é o pintor ao qual acima nos referimos. E leva-nos a essa conclusão o conhecimento perfeito que temos das suas possibilidades que não estão de modo nenhum representadas pelas duas telas “Morte de Mimi” e “Dama das Camélias”, com um colorido peculiar a cartazes de cinema. Esta última dir-se-ia que acabara de levar um repelão mais violento do enciumado Armando Duval, resultando da queda machucar uma das mãos que, inchando, tornou-se maior do que a outra...

Uma concorrente também apreciável é a senhorita Edith de Aguiar. Há anos que a vimos acompanhando e sempre nela temos encontrado progressos a assinalar. Sua contribuição deste ano é boa, destacando-se o retrato de “Mlle. E. S.” e uma paisagem feliz não só pelo corte como pela interpretação (nº 84). E se é certo, como se propala nas rodas dos artistas que a senhorita Edith de Aguiar não poderá nunca obter o prêmio de viagem por ter seus estudos em parte no estrangeiro, não se lhe pode recusar a outorga de uma outra recompensa.

Também não podem passar sem uma referência o sr. Orlando Teruz e a senhora Sarah Villela Figueiredo, cuja contribuição é inferior, todavia, a outras que dela temos visto. Aquele revela ousadia de concepção, mas se descuida das figuras que em um dos quadros - o do barco - chegam a ser disformes, aproximando-se quase daqueles “Primevos” que Antonio Parreiras expôs em “Salon” anterior.

Em resumo, e a rigor, o prêmio de viagem não poderia caber este ano à seção de pintura.

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Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

BARATA, Frederico. A XXXV EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. O Jornal, Rio de Janeiro, 24 ago. 1928, p. 3.

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