. BARATA, Frederico. A XXXIV EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS-ARTES - Os disputantes do prêmio de viagem à Europa. O Jornal, Rio de Janeiro, 21 ago. 1927, p. 3. - Egba

BARATA, Frederico. A XXXIV EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS-ARTES - Os disputantes do prêmio de viagem à Europa. O Jornal, Rio de Janeiro, 21 ago. 1927, p. 3.

De Egba

Frederico BARATA

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(Para O JORNAL)

A XXXIV Exposição Geral de Belas Artes, com seu meio milheiro de trabalhos, é das maiores demonstrações de esforço que conhecemos no nosso meio artístico. Por isso mesmo a sua análise deve ser feita com grande benevolência, procurando qualidades com otimismo e não rebuscando com pessimismo falhas e defeitos.

De todas as salas em que se subdivide o “Salon”, desperta maior atenção pública a que abriga os candidatos ao prêmio de viagem da seção de pintura, os quais nunca se apresentaram em tão elevado número.

O júri terá de decidir entre nove concorrentes, que são as senhoras Haydéa Lopes Santiago e Sarah Villela de Figueiredo, as senhorinhas Gilda Moreira e Edith de Aguiar e os srs. Manoel Santiago, Cadmo Fausto, Candido Portinari, Orlando Teruz, Manoel Faria e Gastão Formenti. Como o fará? Obedecendo a um critério técnico ou artístico?

É esse um ponto ainda não resolvido na concessão da mais importante das premiações do “Salon” e sobre o qual agora se vai firmar doutrina. Até aqui eram sempre poucos os disputantes (um ano houve com um só, o sr. Almeida Junior [Luiz Fernandes de Almeida Júnior]), e fácil era ao júri pronunciar-se, tanto mais quanto desde o “Salon” anterior, por um critério de antiguidade, já se ficava sabendo mais ou menos qual seria o premiado no ano seguinte. Agora, não. O júri terá de proceder a uma análise sincera e refletida e, mesmo realizando o julgamento por eliminatórias, chegará a um ponto de seleção em que se defrontará com quatro candidatos apreciáveis.

Desses quatros um há que não revela personalidade mas mostra justeza acadêmica, com boas qualidades de desenho, colorido, distribuição de luz e regular ambientação da tela.

Um outro, com personalidade fortemente marcada, descuida-se um pouco dos rigores acadêmicos para beneficiar o sentimento de que se impregnaram os seus trabalhos nacionalistas: é mais artista.

Outro ainda, destaca-se por uma exibição maior ainda dessas qualidades íntimas que transformam as telas em verdadeiros poemas de doçura, altamente emotivos, de uma emotividade romântica a lembrar Musset ou Lamartine.

E, finalmente, o último dos quatro a que nos referimos, apresenta uma contribuição mais fraca pela facilidade dos assuntos abordados, tendo tido muito menores dificuldades a resolver, mas indiscutivelmente forte pelas qualidades que encerra na sua simplicidade de técnica, que chega a ser quase uma síntese, pesquisada com carinho e sentimento moderno.

Esses candidatos - era quase inútil nomeá-los - são os srs. Cadmo Fausto e Manoel Santiago, a senhora Haydéa Lopes Santiago e o sr. Candido Portinari.

Dentre eles terá o júri de escolher um, cuja vitória depende exclusivamente do critério da comissão.

Se a viagem à Europa for encarada não como recompensa a um trabalho exposto, mas como prêmio a toda a [sic] uma obra e a todo um esforço, tendo em vista o mérito artístico, a personalidade revelada e, sobretudo, as possibilidades que tenha o candidato de aproveitar a estadia no Velho Mundo, não há como negar ao sr. Manoel Santiago a dianteira na grande corrida.

Já no ano passado sua obra era digna da elevada recompensa e o júri, por maioria de um voto apenas, negou-a para não quebrar a praxe de antiguidade que beneficiou o sr. Armando Vianna como forçara anteriormente o sr. Oswaldo Teixeira a dois anos de espera...

Não há, porém, prognóstico possível quanto ao julgamento dos disputantes do prêmio de viagem.

Em 1926, quando o sr. Manoel Santiago superava esmagadoramente os demais concorrentes pelo conjunto de qualidades da obra exposta, isto é, da obra imediata, foi concedido o prêmio a outro. Como assegurar, pois, que ele seja o vitorioso deste ano quando tem, dentro desse mesmo imediatismo de análise, concorrentes da força de Haydéa Lopes, Candido Portinari e Cadmo Fausto?

É verdade que a sua exclusão novamente seria uma injustiça. Não representaria, porém, absurdo da força de outros que tem sido praticados em anos anteriores e dos quais nos dá comovido exemplo um quadro exposto no “Salon” atual por um premiado que regressou da Europa. Regressou e regrediu, por culpa dos que o julgaram não pelo mérito do seu talento estudado em todo o desenvolvimento da sua obra, mas unicamente pela habilidade revelada em um trabalho menos infeliz.

Essas as considerações que nos parecem oportunas antes do “veredictum” da comissão julgadora, que é constituída pelos professores Elysêo Visconti e Rodolpho Amoedo e pintores Guttman Bilho [sic] e Almeida Junior. Mais tarde havemos de examinar minuciosamente a obra dos disputantes do prêmio de viagem que - é esse o único ponto indiscutível - será na seção de pintura “por droit de qualité”.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

BARATA, Frederico. A XXXIV EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS-ARTES - Os disputantes do prêmio de viagem à Europa. O Jornal, Rio de Janeiro, 21 ago. 1927, p. 3.

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