. A HORA LITERÁRIA - O que foi a festa de ontem na Escola de Belas Artes. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 9 set. 1913, p.3. - Egba

A HORA LITERÁRIA - O que foi a festa de ontem na Escola de Belas Artes. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 9 set. 1913, p.3.

De Egba

Bastos Tigre fez uma conferência humorística; Goulart de Andrade e Luiz Edmundo recitaram

Bastos Tigre, Goulart de Andrade e Luiz Edmundo inauguraram ontem, e com um sucesso encantador, as palestras literárias organizadas pela comissão da XX Exposição de Belas Artes.

Foi a nota “chic” da tarde de ontem essa inauguração.

Às 4 horas, no terraço interno da Escola de Belas Artes, junto ao templo de “Vesta”, todas as bancas do “bar”, que aí funciona, se achavam ocupadas pelo que a esplêndida “city” tem de intelectual e elegante.

Ao amplo “Salon” contíguo ao terraço, a exposição atraíra inúmeras pessoas, e era soberbo o aspecto do local, a que afluíram vivaces modelos da beleza feminina, numa variedade empolgante e distinta de “toilettes” finíssimas para admirar a eloquência imortal das cores, espiritualizada nas molduras daquela exibição gloriosa da Arte excelsa.

E enquanto a “hora literária” não se fazia ouvir dos lábios de Bastos Tigre, o “five-o’-clock tea” reunia parte da afluência no terraço interno do palácio das Artes, onde um terceto musical executava magníficos trechos.

E o chá musicado, no delicioso “tête-à-tête” que liberalizava o tempo, foi, poucos minutos depois da hora marcada no programa, surpreendido pelas palavras de Bastos Tigre.

Iniciavam-se as palestras literárias, e a ele atribuíram o desempenho de inaugurá-las.

Para corresponder galhardamente ao alto cometimento, informou o humorista, pensara em escrever uma dissertação erudita acerca da evolução das artes, e viria, armado com volumosos tomos, revelar-se entendido nessas dificuldades, conquanto se arriscasse a ser ouvido por um auditório muito atento, sonolentamente atento...

Logo se percebeu que Bastos Tigre iria, mais uma vez, deliciar os que o ouviam com o seu humorismo apurado e irresistível.

E assim sucedeu. Exceção de algumas referências, talvez sisudas, sobre a pintura, a escultura e a poesia, toda a sua palestra literária foi uma “charge” delicada, que arrancou da elegante reunião merecidos aplausos.

Bastos Tigre esperava que todo o Rio comparecesse à bela festa artística, que ele inaugurava, porque não compreendia uma cidade natural e essencialmente artística, com gente que desadore a Arte.

E falando das que “não sabem a arte e por isso não na estimam”, diz:

“São esses os que nos perguntam: qual a utilidade de um quadro, de um soneto, ou de uma estátua? Filisteus, ide perguntar a uma rosa qual a sua utilidade? E ela vos responderá, se tiverdes ouvido para ouvi-la e entendê-la: - tenho a utilidade da minha beleza e do meu perfume! Amanhã, quando eu for murcha e seca e tiver perdido, - ai de mim! o colorido das minas pétalas, o suavíssimo aroma que delas se evola, então sim, serei útil, transformada em chá, serei um drástico excelente...”

Mas os que não na estimam, não podem entender essa eloquência florida. E isso é triste, é lamentavelmente triste. Mas, o orador desiste dessas considerações e muda de assunto.

Em um soneto bucólico, previamente insinuado no espírito da assistência como a produção artística de um poeta pitoresco, ou de um pintor poeta, Bastos Tigre deu, com a extravagância e o inesperado dos dois últimos versos, motivo para incontido risos e aplausos.

Havia também, em sua palestra, sombras terríveis de uma resolução heroica: voltar à primitiva ideia de uma dissertação erudita, acerca da evolução das artes.

E para fingir de tornar efetiva essa ameaça, Bastos Tigre fazia referências aos primórdios da pintura, da escultura...

Essa última encontrou o seu fundador no mais nobre dos artistas, segundo as coisas sagradas. E Adão foi, até hoje, e infelizmente não pode ser reproduzido, a melhor das esculturas que ainda saiu de mãos artistas.

Isso lhe lembrava os bons tempos de “escultor”, quando amassava com as mão bolas de barro, no Recife, para fazer balas de guerra, sem cogitar de mandar moldá-las para o bronze fundido.

Não obstante, molda versos de um humorismo inimitável; e fazendo, em superficial análise, a comparação entre as três artes, desejou evidenciar particularmente a relação conexa entre a pintura e a poesia, terminando por dizer os “Versos a um artista”, de Raymundo Corrêa.

Goulart de Andrade recitou poesias de sua lavra. Organização de poeta, mas poeta de alma e de sentimento para ser o artista consciencioso que é, transformando em cinzel a pena que lhe grava, nas páginas de seus livros, esses soberbos versos que todos admiramos, Goulart de Andrade disse ontem, empolgado talvez pela beleza mesma de suas produções de arte, e empolgando quantos o foram ouvir, “Cinzas”, dois, “vilancetes”, o “Canto real da noite” e uma balada.

O “Pierrot e Columbina”, que o poeta recitou com a dicção comovida, teve, por isso mesmo, se é possível, um efeito magnífico para o auditório, que o aplaudiu prolongadamente.

Luiz Edmundo, o elegante “diseur” de sempre, recitou os seus “Versos à Árvore”, a “Canção da Lágrima”, os dois sonetos “Londres e Veneza” e as quadrinhas “Beijo e Vinho”.

A seleção que Luiz Edmundo fez entre os seus muitos versos, dos que ontem disse, foi esplêndida.

A “Canção da Lágrima” foi interrompida com os aplausos eloquentes da elegante assistência.

Segunda-feira vindoura repetir-se-á a “Hora literária”, e ficam , assim esses dias da semana tendo a sua nota “chic” e absolutamente distinta.


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DOIS ASPECTOS DO “FIVE-O’ -CLOCK-TEA”, ONTEM LEVADO A EFEITO NA ESCOLA DE BELAS ARTES: AO LADO, OS INSTANTÂNEOS DE LUIZ EDMUNDO E GOULART DE ANDRADE, QUANDO RECITAVAM, E BASTOS TIGRE, QUANDO LIA A SUA CONFERÊNCIA


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

A HORA LITERÁRIA - O que foi a festa de ontem na Escola de Belas Artes. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 9 set. 1913, p.3.

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