. A Exposição de Belas Artes - O “VERNISSAGE”. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 1 set. 1905, p. 3. - Egba

A Exposição de Belas Artes - O “VERNISSAGE”. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 1 set. 1905, p. 3.

De Egba

A cerimônia do vernissage. Dia úmido, triste, cheio de nuvens escuras. A chuva ameaça cair a todo instante. Isso não impede que duas galerias da escola estejam repletas de artistas, homens de letras, críticos e da fina flor da nossa sociedade, representada por uma porção de senhoras encantadoras e de cavalheiros distintos.

Na cerimônia do vernissage parece que, em geral, não se enverniza coisa nenhuma. Se não fosse o Sr. Augusto Petit, trepado numa escada, a brosser uma das suas produções, ninguém diria que era vernissage.

As senhoras trocavam impressões, os autores, comovidos, andavam na doce procura do elogio, de resto e como sempre abundante; os críticos mediam distância, punham a mão em pala sobre os olhos (o Sr. Carlos Santos, ilustre crito [sic] do Jornal, faz um óculo com a mão esquerda), no difícil trabalho de julgar; os cavalheiros olhavam, e alguns estudantes, com espalhafato, para mostrar que entendem do riscado, formavam grupos de vez em quando, desfechando o incipiente saber em cima das telas. Uma reunião deliciosa.

A exposição é melhor, ou pior, que a dos anos anteriores? É, naturalmente, melhor, posto que menos abundante. No nosso acanhado meio artístico, nada mais lento que o progresso e a novidade. Na seção de pintura, há uns três ou quatro nomes de mestres respeitados e os nomes de três ou quatro esperanças de futuros mestres.

É o que interessa em primeiro lugar. Os mestres são o Sr. Elyseu Visconti, com um extraordinário retrato da escultora Nicolina Vaz de Assis, admirável de técnica, de vida, de sensibilidade; Henrique Bernardelli, com alguns retratos, um que se revela o psicólogo e o desenhista notável, principalmente nos retratos do Sr. Machado de Assis e do Sr. Carlos Rodrigues; e o Sr. Baptista da Costa, esse paisagista delicioso, cujos quadros são sempre de uma penetrante beleza.

As esperanças são o Sr. Latour, o Sr. Chambellan [sic] [Rodolpho Chambelland] e os Srs. Lucilio e Timotheo [João Timotheo da Costa]. O Sr. Latour, com dois anos de Paris, progrediu extraordinariamente, afinou todas as qualidades superiores que bebera nas lições do mestre, Rodolpho Amoedo. Há uma cena de miséria, a desgraça de um homem bêbado, roncando, num interior miserável, enquanto a mulher chora com os filhos em torno, cheio e empolgante de expressão, assim como a Leitura da carta e uma criaturinha nua, entre crisântemos - são trabalhadas com muita frescura. O Sr. Chambellan [sic] já nos dera, o ano passado, uma sensacional saída de teatro [Imagem]. Desta vez, deu-nos também uma grande tela, representando uma ronda báquica de sátiros e de ninfas pelos montes [Imagem]. Os progressos são evidentes quanto à técnica. O Sr. Chambellan [sic] será dentro de mais alguns anos um artista de nomeada, mas é de crer que o seu temperamento delicado sinta mais as elegâncias discretas, as sedas, o fulgor das luzes artificiais, o brilho das epidermes gemadas de pedras raras...

O Sr. Lucilio , sempre discreto, dá-nos dois retratos, um dos quais, o pastel intitulado Riso, é encantador. O Sr. Timotheo merece todos os elogios pelo seu retrato do poeta J. de Abreu Albano.

Na seção de pintura há ainda a citar os nomes de Malaguti, que nos deu uma tela de uma superior expressão; Fiusa [sic], Macedo [João Araripe de Macedo], Roberto Mendes, com uma paisagem intensa [Imagem]; De Servi, etc.

Dos principiantes, há menos cajus e outros produtos da flora brasileira. O Sr. Petit, que apresenta muitas telas, desta vez atirou-se ao nu, expondo Afrodite, Sileno e, não contente com isso, um Jovem lutador. O Sr. Petit está supimpa.

Nas outras seções, elogiamos o delicado trabalho das medalhas de Girardet. Entre esses primores em bronze e gesso, há um maior primor, a medalha que representa um petiz montado num burrico.

E ainda louvemos a pintura sobre porcelana da Sra. Joanna Brandt, uma dinamarquesa de talento, e os seus couros repoussés.

Esse canto da exposição merece detalhado estudo, assim como os trabalhos da Associação dos Escultores em Madeira e as mobílias do Liceu de Artes e Ofícios, de S. Paulo, uma referência amplamente elogiosa.

Faltavam aos visitantes os indispensáveis catálogos. É provável que nesta notícia desalinhavada e rápida faltem nomes que os noticiaristas tenham de aplaudir. Não terminemos, porém, sem citar, na seção de arquitetura, um magnífico projeto do Sr. Dubugras.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

A Exposição de Belas Artes - O “VERNISSAGE”. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 1 set. 1905, p. 3.

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