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ARTES E ARTISTAS. O “Vernissage” da exposição geral de 1924. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 12 ago. 1924, p. 4.

De Egba

O 1º CENTENÁRIO DA MISSÃO LE BRETON

Concomitantemente na Escola Nacional de Belas Artes realizaram-se ontem a comemoração do primeiro centenário da missão artística francesa de Le Breton e o vernissage da exposição geral de 1924, cuja inauguração oficial é hoje.

A Sociedade Brasileira de Belas Artes como homenagem aos ilustres franceses a quem devemos a nossa iniciação artística, ofereceu uma placa comemorativa à Escola.

Pouco depois de uma hora da tarde teve lugar esta cerimônia, com a assistência dos Srs. Dr. Alexandre Conty, embaixador de França; Baptista da Costa, diretor daquele estabelecimento de ensino; Dr. José Marianno, pintor Marques Junior, presidente e secretário da S.B.B.A., muitos artistas, jornalistas e convidados especiais, oferecendo a placa, o Dr. José Marianno, disse as seguintes palavras:

“Exmo. Sr. Embaixador da França - Exmo. Sr. professor Baptista da Costa.

Comemorando a inauguração do curso de Belas Artes no Brasil, a Sociedade Brasileira de Belas Artes, presta, nesse momento, um comovido preito de homenagem aos artistas franceses da missão de 1816.

Essa homenagem, tão modestamente expressiva, tem uma alta significação de pura intelectualidade. Ela restabelece e afirma o sentimento de “escola”, isso é, a ligação espiritual das gerações presentes com o espírito de seus mestres.

A missão de 1816, contratada por Marialva, tinha o temerário propósito de implantar num país de raça portuguesa uma escola de arte francesa.

Le Breton organiza sua caravana. Reúne nomes de alta representação artística, na época, como Debret, Taunay, Grandjean, Ferrez. O conde da Barca, impregnado de uma cultura postiça, repele com impertinência a colaboração de elemento artístico nacional na formação da Nova Escola.

A missão tem um grande programa a realizar, desde a pintura de gênero ao fabrico da porcelana, da arte à maneira de Sévres...

Mas ela se insula nas próprias ideias, monopoliza o movimento de arte no país, isola-se da própria nacionalidade como que fugindo-lhe ao contato [...] A preferência marcada de coroa outorga-lhe desde então foros ditatoriais nos domínios da arte. Os velhos decoradores sacros, tão grandes na piedosa sinceridade de suas composições, sentem os primeiros espinhos de despeito. Os artistas franceses, representantes de uma cultura superior, embaixadores da elegância, vivendo na intimidade escandalosa dos potentados da corte, criticam-lhe as falhas, diminuem-lhes o precário prestígio a que eles estavam afeitos.

O público perde de súbito seus ídolos mais preciosos. Surgem as intrigas, formam-se dois partidos. As ordens religiosas que se fizeram detentoras do classicismo artístico do país estabelecem por seu turno a terrível reação pacifica contra os civilizadores gauleses. Sem embargo, a missão progride, estuda. Debret porfia na documentação dos nossos costumes, de nossa indumentária. Mas o seu prestigio não ultrapassa os saraus pantagruélicos da corte. Está fundada a Escola onde vários alunos caboclos e mestiços se instruem na arte acadêmica de David...

Breve, com o despertar da consciência nativista, a alma do povo procura insensivelmente libertar-se das peias acadêmicas para afirmar-se nas suas próprias e inconfundíveis preferências. O caráter da raça estua. Grandjean, que, a meu ver, é a figura central da missão, desdenha a contribuição da arquitetura nacional, a qual Debret rende, todavia, homenagem. Grandjean tem o sentimento nobre da medida dentro dos cânones greco-romanos. Ele não veio aprender no país que o hospedava. Veio construir a sua arte. Grande figura do neoclassicismo napoleônico, suas composições continuam sob o céu luminoso dos trópicos a rota invariável que o artista se traçara. Sua arte não deixa discípulos. Ao contrário, paralelamente com Grandjean, os humildes “mestres do risco”, desdenhosos da grande arte que se nos queria impor, continuam a fazer suas igrejas singelas, com duas torres quadradas panejadas de “coruchéus” massudos, os grandes mestres de talha de Ouro Preto, Sabará, Mariana e São João Del Rei porfiam na sua arte incompreendida, os inspirados “santeiros” da Bahia não deixavam de entalhar carinhosamente seus heróis celestes, olhos em êxtases, as vestes luminosas e coloridas, assopradas pelo vento de borrasca.

Passando em rápida critica os propósitos da missão francesa e a sua atuação no cenário da arte do Brasil colonial, quero reconhecer-lhe, todavia, a grande preponderância na orientação da pintura brasileira.

Sem o advento da missão, não teriam surgido, por certo, nomes como Victor Meirelles, Pedro Américo, Almeida Junior, Zeferino da Costa, Henrique Bernardelli, Visconte, Baptista da Costa e alguns outros.

Meus senhores. Não era meu intento fazer-vos um discurso. Perdoai se me alonguei mais do que eu próprio desejara.

Honra seja aos grandes mestres franceses, cuja lembrança hoje recordamos.

Eles viverão eternamente dentro de todos nós, pobres continuadores do sonho impossível que eles idealizavam.

Falaram ainda os Srs. Baptista da Costa e Alexandre Conty, este, em nome de sua pátria, e aquele, no da Escola de que é presidente.

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O “vernissage” correu interessantíssimo, animado com a presença da maioria de nossos artistas e apresentando o aspecto que lhe é característico, muita fé e expectativa por parte dos expositores, muita alegria por parte de todos.

A exposição, em geral, agrada. Registra um surto magnífico de mocidade.

Oswaldo Teixeira, com um lance escolhido, chama a atenção geral, arrancando exclamações de entusiasmo de muita gente. Numa rápida visita, quase uma corrida pelas glerias [sic] cheias de quadros, vimos bons pedaços de tela, dignos de uma exame mais demorado, acusando os nomes de Marques Junior, Garcia Bento, Guttman Bicho, Fanzeres, Orlando Teruz, Helios Seelinger, Ozorio Belém, Armando Vianna, C. Portinari, Gilda Moreira, F. Machado, Manoel Santiago, Edith Aguiar, Bracet, Manoel Faria, Vicente Leite, Edgard Parreiras, Carollo, Capplonch...

A seção de escultura, [...] tem a contribuição de Antonio Mattos, M. Lopes de Almeida e alguns outros.

Em meio daquele fervilhar de comentários, nas salas exíguas transformadas pela alegria dos expositores em palco de crianças em recreio, obrigamos [sic] ainda alguns trabalhos da arte aplicada devidos ao Sr. Theodoro Braga, quando damos por finda a nossa visita, esperando mais calma para um exame mais descansado a cada tela, do que daremos conta no próximo domingo.


Imagem

Algumas pessoas que assistiram à inauguração da placa comemorativa do primeiro centenário da missão Lebreton, entre os quais os Srs. Alexandre Conty, Baptista da Costa, José Marianno e Marques Junior.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

ARTES E ARTISTAS. O “Vernissage” da exposição geral de 1924. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 12 ago. 1924, p. 4.

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