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ARTES E ARTISTAS. BELAS ARTES - O Salão de 1923. O Paiz, Rio de Janeiro, 30 ago. 1923, p.2.

De Egba

Quando se lêem no catálogo da exposição oficial deste ano dizeres solenes, como estes:: "XXX Exposição Geral de Belas Artes - Pintura - Escultura - Gravura - Arquitetura - Litografia - Arte aplicada" - julga-se que se vai encontrar no belo edifício da Escola Nacional alguma coisa de elevado e de surpreendente.

Entra-se, porém, atravessa-se as galerias, olha-se de um lado e de outro, e o que se sente é que não se sente nada. Tem-se a impressão de que são os mesmos quadros incipientes, os mesmos efeitos, a mesma concepção pobre de todos os anos.

Como que a exposição é a mesma.

Entretanto, anda por ali, demora-se um pouco a ver, e vê-se finalmente que é apenas o conjunto que impressiona mal, porque, infelizmente, a maioria das telas, dos gessos, dos desenhos, dos cunhos vazados é de uma infinita falta de caráter.

Na verdade, descobre-se algo nuevo, como dizia o imortal ironista.

Tratemos, porém, ainda que: ligeiramente, dos mestres - para guardar, a hierarquia.

Dos mestres da pintura brasileira poucos restam, e ainda muito menos mandam à grande mostra anual os seus trabalhos.

Apenas Visconti, Parreiras [Antonio Parreiras], Baptista da Costa, Chambelland (Carlos) [Carlos Chambelland], Levino Fanzeres, Georgina e Lucilio de Albuquerque.

Será preciso dizer que uma paisagem de Baptista é fina, luminosa, de ambiente doce como as paisagens dos mestres escoceses? Não.

Citaremos apenas - Em plena natureza, onde suas qualidades de velho bucolista estão muito bem acentuadas.

Chambelland mandou As comungantes. Não é um interior de capela, como a esplêndida tela de Carlos Reis, mas criaturinhas que vão à comunhão.

Aí estão, na auréola espiritual que lhes envolve as cabecinhas, todo o sentimento religioso, a superstição ingênua e doce que o pincel não vinca em traços rudes de preocupação interior, mas que deixam adivinhar.

Visconti, artista amorável, dono de um poder de realização exuberante, autor de plafonds célebres, decorador insigne, exumando assuntos e tipos clássicos com que se firmou nas grandes obras públicas - Visconti, no lavor espontâneo, é simplesmente o afetivo. Tudo nele é surpreender a natureza nos seus momentos de maior beleza e trazer à tela, mostrando a sua preocupação primacial, a família.

Sempre Visconti, que adora a mulher e os filhos, os pinta e os mostra ao público, como a dizer que não precisa buscar modelos de linha nobre fora do seu ambiente.

A aquarela O chá (32 do cat.) é uma prova disto.

Levino Fanzeres é ainda e sempre o vigoroso fixador dos momentos de luz fugace nos montes e vales de sua terra.

Colocou no salão 12 quadros.

Valerá citar? Unicamente assinalaremos, pela espiritualidade de paz suave na paisagem, Terra virgem - Manhã de sol - Caminho da fazenda. São quadros tratados com absoluta honestidade, com perfeita técnica, com a consciência de quem não necessita ficelles de efeito para mostrar-se um pintor capaz de resistir ao tempo e aos costumes.

Georgina de Albuquerque, que estudou em Paris, que foi premiada quatro vezes nas exposições gerais do Rio de Janeiro, mandou ao salão três telas - Fim de passeio - Balcão florido - Na praia.

Conhece-se o modus da ilustre artista. A riqueza do seu colorido, a largueza de sua fatura, a felicidade com que compõe os seus trechos, a graça nova que dá ao arranjo geral daquilo que deseja expor - são-lhe predicados que ninguém ousa negar.

Outro velho mestre que se apresentou, largamente subsidiado por enorme produção, foi Antonio Parreiras.

E mais de 100 quadros pôs Parreiras em mostra este ano.

Parreiras é um consagrado. Como destacar alguns trabalhos?

Depois de atingir as maiores recompensas, a obra de certos artistas não deve ser discutida.

Mas Parreiras, que raramente nos dava a ver as telas de sua impressão colhida nas viagens à Europa, colocou na galeria que lhe destinaram pequenas obras primas, que evidentemente não foram executadas para um determinado efeito-falso, mas exprimem o sentimento verdadeiro do artista.

Elas contrastam com o verde selvagem e os grande troncos da sinfonia florestal de nossa terra, que Parreiras levou mais de 20 anos pintando em todos os tons. Mas são de uma sinceridade magnífica.

Edgard Parreiras, sobrinho do velho paisagista, é um digno continuador do nome ilustre.

Nunca se repete.

Seus temas são nobres. O que o atrai não são futilidades bonitas da mata ou do casario das cidades em ruínas.

Edgard Parreiras pinta quadros que serão sempre expressões ilustres da arte de saber ver e traduzir a natureza.

Sua tela Mangueira é uma obra definitiva.

O pintor Augusto Bracet fez uma composição visando um estudo de movimento anatômico e linhas de fina extasia. É o nu denominado Direito de asilo.

A figura é excelente, tratada com mestria - e pode-se alegar que o artista pôs ali todo o seu esforço artístico e merece louvores.

Outros planos do quadro estão, porém, mal expostos, e, a não ser por uma explicação detalhada do local, não se compreende, bem a posição da escada do templo em relação à nave, onde se percebe o assunto que dá motivo ao título.

Este nu, porém, sem os detalhes de emolduração que não nos agradaram, é digno de qualquer galeria de arte.

Outros mestres figuram no salão. Mas, preferimos fechar esta crônica, citando a obra de uma ilustre senhora, discípula de Carlos Reis e da Academia Julien, de Paris. É a senhora Babo de Andrade. Brasileira, mas fora do Brasil há longos anos, a senhora Andrade só o ano passado expôs pela primeira vez - e teve menção honrosa.

Este ano, a senhora Andrade mandou ao salão três pequenas telas que merecem ser assinaladas com absoluta justiça. Porque não se trata de uma principiante esperançosa. É uma verdadeira artista.

Dessas três telas só não gostamos de Cravos e frutas, que parecem tratados com grande despreocupação. No salão azul, porém, revela já a segurança de quem joga com as proporções com facilidade. E os tons vivos dos estofos, que um pincel inexperiente sempre torna duros e recortados, estão excelentemente ambientados.

A sua melhor tela exposta, porém, é No atelier do mestre (Lisboa).

Sabe-se muito bem a dificuldade que há em colocar contornos na meia tinta de um interior de pouca luz. Pois a senhora Andrade, revelando um canto do atelier de Carlos Reis, fê-lo como não o faria melhor o ilustre mestre.

O tom suave que envolve todas as coisas dissimula-se na própria atmosfera do lugar, fazendo destacar um dos outros objetos sem que a sombra perdesse seu ambiente.

Estas coisas, não podem ser tratadas por principiantes, sem que logo resulte uma impropriedade ou uma confusão de claro-escuro.

Entretanto, no quadro da senhora Andrade estes senões não aparecem.

Não queremos atirar à responsabilidade da ilustre senhora o fardo pesado de uma consagração definitiva. Mas, seu temperamento, sua intuição, estão perfeitamente revelados na expressão adquirida ao contato de verdadeiros mestres e formados num meio evidentemente superior ao comum das escolas incipientes de pintura.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

ARTES E ARTISTAS. BELAS ARTES - O Salão de 1923. O Paiz, Rio de Janeiro, 30 ago. 1923, p.2.

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