. ANTONIO. Belas-Artes. A Noticia, Rio de Janeiro, 2-3 set. 1912, p.1. - Egba

ANTONIO. Belas-Artes. A Noticia, Rio de Janeiro, 2-3 set. 1912, p.1.

De Egba

Está inaugurada a exposição de Belas Artes.

Quatro ou cinco rapazes de talento disputam o sempre ambicionado prêmio de viagem. Quem se lembra ainda das coisas trágicas que desse prêmio resultaram o ano passado, calcula a melindrosa condição do júri que tem de concedê-lo este ano. Como todos se lembram ainda, o laureado em 1911 foi aquele delicado e meigo Puga Garcia. Puga era noivo. Vitorioso, amado, laureado, aclamado, com a viagem à Europa subsidiada pelo governo, o moço artista ia casar e partir.

Oito dias antes do casamento, uma noite em que ele vinha de visitar a noiva, com a alma cheia de carinho e meiguice, respirando um ambiente todo de meiguice, carinho e ternura - nessa noite, no bonde, cai-lhe um jornal na mão e Puga Garcia lê que é acusado de um plágio. Aí se dizia que o seu quadro não era seu, que a sua vitoria não era sua.

Espírito fraco, delicado e meigo, desaparelhado para a luta, sentindo-se mortalmente ferido com essa suspeita brutal - Puga Garcia chega a casa e enforca-se.

Ao outro dia, lendo a acusação e lendo o suicídio, quase toda a gente acreditou no plágio. O suicídio equivalia por uma confissão.

Depois, visto o outro quadro, aquele de que se dizia tinha ele copiado o seu. Os jornais publicaram mesmo reproduções fotográficas de ambos. Não tinha havido plágio nenhum. Os dois artistas haviam pintado um pastor. Apenas, como os pastores são dados simbolicamente com uma flauta, ambos tinham a flauta. Tudo mais era diferente: a figura, o ambiente, a luz, tudo! Só de comum, a flauta. E como o pastor de Puga não era canhoto, tinha a flauta do mesmo lado. A figura do primeiro quadro era a de um sátiro; a de Puga é a de um adolescente formoso.

Os profissionais, os artistas, os críticos, os competentes afirmaram que não tinha havido plágio.

Não foi possível restituir a vida ao artista morto. Ao menos era justo que fosse reabilitada oficialmente a sua memória, pelo Júri que lhe havia concedido o prêmio.

Agora, temos outra exposição, outro Júri, outro prêmio de viagem, quatro ou cinco moços de talento, disputando... Que Deus ilumine a comissão julgadora! Que do seu veredicto não saia uma tragédia! - e si sair outra tragédia, que ao menos não seja desamparada oficialmente a memória de um artista! ... - Antonio.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

ANTONIO. Belas-Artes. A Noticia, Rio de Janeiro, 2-3 set. 1912, p.1.

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