. ANT. PINTURA O “Salon” de 1913 - A. Baptista da Costa - Arthur Timotheo - Rodolfo Chambelland. O Imparcial, Rio de Janeiro, 10 set. 1913, p.3. - Egba

ANT. PINTURA O “Salon” de 1913 - A. Baptista da Costa - Arthur Timotheo - Rodolfo Chambelland. O Imparcial, Rio de Janeiro, 10 set. 1913, p.3.

De Egba

Flaubert amava tanto e tanto o enterneciam certos lugares, certas paisagens, que comovidamente dizia: “quisera poder apertá-las contra o peito e cobrí-las de beijos e lágrimas”.

A nossa paisagem, louvada com tão grande entusiasmo em período, estrofes e frases de procedências ilustres, tão largamente cantada como sendo o mais generoso gesto da natureza, não é, de certo, capaz de despertar sentimentos iguais àqueles que outros recantos deste mundo inspiravam ao melancólico autor da “Education Sentimentale”... As agigantadas linhas de “décor” que a compõem, e esse fantástico colorido realçado pelo sol do nosso eterno meio-dia, tudo o que há nela, enfim, de imprevisto, de insólito, de arrojado e que se grava para sempre na memória da retina ofuscada - tão indelevelmente se imprime nela que aí mesmo fica, e a sua impressão fortíssima não desce nunca ao fundo da alma e não comove.

À nossa paisagem faustuosa, eminentemente decorativa, maravilha dos olhos, falta melancolia, falta espiritualidade, alma.

Será, talvez, por isso, que Baptista da Costa anda a esquadrinhar pelas montanhas europeizadas de Petrópolis, um recanto velado de bruma e de melancolia que o espiritualize e que o torne, assim, digno do pincel animado pelo frêmito que corre os nervos do artista perpetuador das imagens e dos sentimentos. Será, talvez, por isso, que ele procura para a sua palheta, ora, o verde vário, de tons mais sutis e mais brandos, a desmaiar em reflexos na água tranquila que se esvai em fios longos entre duas colinas, roçando apenas uma ou outra rocha vestida da grama e do musgo que lhe amortecem as arestas; ora, um rebanho que coleia ao fundo de um vale coberto de erva úmida.

Assim, Baptista da Costa sente e anima de uma vida plácida, discreta, a paisagem que pinta e põe nela, no céu claro que a cobre, sobre a água mansa em que ela se debruça, nas franças [sic] a flutuar nas nuvens, sob os ramos e a sombra fresca, profunda como a água, que se derrama nos gramados das clareiras, debaixo das moitas densas, um doce e leve silêncio que é a alma daquelas telas verdes.

Arthur Timotheo e Rodolpho Chambelland combinaram para este “salon” duas telas de gênero que iriam bem em face uma da outra nas duas paredes opostas da mesma sala [Imagem 1 e Imagem2]. Parecem ter as mesmas dimensões e têm um mesmo tipo, uma fatura semelhante, um assunto comum: o Carnaval.

São o que se chama em Paris “des grandes machines”, valentemente pintadas, solidamente construídas, levadas em um arranco brioso até ao fim.

De sorte que não se poderia escolher entre as duas, nem notar numa ou noutra um detalhe mais flagrante do vivo ou um processo mais feliz de técnica, um colorido mais bem achado, mais verdadeiro produzido pela luz artificial que ilumina os dois quadros.

ANT.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

ANT. PINTURA O “Salon” de 1913 - A. Baptista da Costa - Arthur Timotheo - Rodolfo Chambelland. O Imparcial, Rio de Janeiro, 10 set. 1913, p.3.

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