. ANT. PINTURA - O “salon” de 1913 – Guttman Bicho – Pons Arnau. O Imparcial, Rio de Janeiro, 11 set. 1913, p.6. - Egba

ANT. PINTURA - O “salon” de 1913 – Guttman Bicho – Pons Arnau. O Imparcial, Rio de Janeiro, 11 set. 1913, p.6.

De Egba

Guttman Bicho (Galdino) é um novo dos últimos aparecidos, pois a sua revelação data apenas de um ano atrás, e, entre os da sua geração, certamente um dos melhores dotados.

Boêmio intransigente, desses boêmios excêntricos como os há na Europa, nos bairros-artistas das capitais, no “Quartier Latin”, em “Montmartre”, em “Montparnasse”, formando uma espécie de casta pitoresca nos hábitos, no exterior bizarro, na linguagem e nas ideias, raça de demagogos formidáveis, apóstolos de filosofias e de estéticas truculentas, de doutrinas que eles anunciam entre duas fumaças fleumáticas do “bruyére”. Paradoxalatras [sic] - como se diz por lá mesmo.

O certo é que esses rapins conseguem invariavelmente o seu fim: espantar e irritar. Que tem isso de mal? A sua vida aventureira, a sua generosidade magnífica, a sua altivez e o seu sentimento foram a assunto de excelentes versos e de ótima prosa, de boa música, até, assim que, ainda que para mais não servissem, já tinham imensamente contribuído para a arte. Mas a verdade e que em muitos deles o talento e ainda mais abundante do que os cabelos, as gravatas e as abas frondosas dos sombreiros: Willette, Delacroix, Manet, Millet, foram deles.

No Brasil, porém, eles se fazem cada vez mais raros: Guttman Bicho é um dos últimos e um dos que tem talento.

Acontece com ele um fenômeno raríssimo na sociedade dos rapins: é um trabalhador. Prova-o a sua bagagem artística que se avoluma prodigiosamente cada ano, e, agora mesmo, no salon aberto, há três ou quatro telas espaçosas que ele assina, com o seu nome, e, sobretudo, com o seu estilo já bastante pessoal para se não expor a confusões.

Um desses quadros merece menção especial, o maior deles [Imagem]. Guttman Bicho gosta de espaço, se bem que pinta detalhadamente e não carregue nunca a sua tela, uma larga construção onde há apenas duas figuras, mas em tamanho natural – dois retratos evidentemente que parecem irmãs.

Tipos acentuados de carioca, de pele dourada, cabelos escuros e pesados, olhos verdes, talhe fragílimo, sentadas uma ao lado da outra em um sofá, junto de uma porta velada, na “pose” clássica de quem se faz retratar.

Sobre o tapete, no primeiro plano, um desastrado vaso de vidro cheio d’água onde sobrevivem penosas açucenas!

Há lá também um irritante bandolim, tão irritante como se estivesse a verrumar os ouvidos de quem o vê com desgosto.

Afora isso, e umas incorreções de desenho na figura que fica mais longe, um escorço de mão infelicíssimo, mas possível de conserto - o quadro é bom.

Bom claro-escuro, colorido sincero e agradável aos olhos, boa composição.

Sem contar que Guttman Bicho, como já se disse, é muito novo, concorre pela segunda vez apenas, ainda não foi estudar nos museus e nos bons “atelier” [sic] da outra banda do mar - o que afinal, hão de convir, é imprescindível.

O que se lhe pode pedir por enquanto, ele dá generosamente, e são as qualidades essenciais para fazer [...] dele um belo artista daqui a um par de anos.

Senão, deem-lhe o prêmio e verão.

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O Sr. Pons Arnau, um espanhol: atravanca um bom pedaço de parede cm o seus ínvios Retratos.

Um deles, uma família inteira vítima da sua palheta, [...] o que se pode exigir de medíocre, de apagado, de inexpressivo e revela uma penúria de talento verdadeiramente lamentável.

O sr. Pons Arnau, juramos! aprendeu a pintar nas receitas que vem dentro das caixas de de […] da casa Bourgevis.

Em toda a extensão de tela rebocada e envernizada que esse cavalheiro regalou ao “salon”, não há uma polegada que preste, nenhuma em que, por descuido, esse senhor pintor tivesse deixado escapar uma centelha de vida - apreendida em pinturas de algum mestre dos que a sua terra foi sempre tão fecunda!

ANT.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

ANT. PINTURA - O “salon” de 1913 – Guttman Bicho – Pons Arnau. O Imparcial, Rio de Janeiro, 11 set. 1913, p.6.

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