. AMADOR, Bueno. O SALÃO DE 1904 (IMPRESSÕES RÁPIDAS). A Noticia, Rio de Janeiro, 7-8 set. 1904, p. 2. - Egba

AMADOR, Bueno. O SALÃO DE 1904 (IMPRESSÕES RÁPIDAS). A Noticia, Rio de Janeiro, 7-8 set. 1904, p. 2.

De Egba

Salão, é um modo de dizer. O nome não diz com a coisa. Os pequenos corredores de barbearia usam do mesmo título pomposo e nobre. Digamos salão. Acompanhamos assim a onda do exagero. Passemos para as tiras de almaço as nossas impressões que irão para a impressão como expressão sincera de um juízo escancarado e franco. Tão escancarado e franco como a oratória do Erico Coelho.

Saltemos pelo egoísmo feroz dos mestres consagrados. São uns sovinas confessos.

Poucos quadros, muitos estudos, muitíssimos retratos e quase nada de criação.

- Vejamos os neófitos, os insipientes.

Aí sim. Há muito que ver e comentar. Avulta o número de artistas de saias. Mal ensaiadas pelos mestres. O pincel feminino atira-se ao ramerrão da natureza morta e artes correlativas. Temos o clássico trecho do fundo do quintal e o honroso e serôdio vaso com flores mal-ajambradas. - Condescendência dos organizadores do salão. Recebem tudo que cai na rede da exposição como legítimo peixe artístico. Toda a hortulânia, toda a sociedade nacional de agricultura lá está, propagada por mãos femininas. Que saudades do Pedro Alexandrino e do Estevão Silva! - Vamos adiante. Helios Seelinger expõe uma dúzia de coisas engraçadas. Dez com a mesma cara e quase a mesma postura. Ou impostura de modelo metediço que não deixou o artista pintar outra coisa.

- Chambelland [Rodolpho Chambelland] dá-nos um saboroso pastel em retrato e Uma noite de espetáculo muito curiosa. A cena representa o final da Zazá, obrigado a foguetório e artifício cambiantes, no momento em que o fogueteiro, todo triques à beirinha, sopra convencido uma bicha de rabear...

- Esteves apresenta um pastelão narigudo como campônia mineira, - Evencio brilha com o seu teatrinho João Minhoca e Fiuza dá-nos uma fábrica de gelo sob o título de paisagem tirolesa - O Sr. França [José Monteiro da França] mostra na Cena domestica, que o seu pincel inda não está domesticado. - Raphael Frederico expõe um pimpolho a cavalo, com o título alto! Disparamos logo, sem apetite pelos cajus do autor. - A. Freitas com duas aquarelas muito bem lavadas deu-nos vontade de mandar-lhe a nossa roupa suja. - Lucilio com o seu pimpolho chupado, quase o enforca na tesoura do casebre, ao fundo. - J. Macedo expõe uma soberba Porangaba, não sabemos o que é isso de Porangaba, mas o quadro é bonitinho e bem feito; se os outros dele fossem assim... J. F. Machado pespega 17 telas. Destacamos como execução O Dr. Passos reprimindo a mendicidade. Destacamos como simbolismo Constelações, onde um perfil, tomando um banho de fumaça, fica a ver estrelas. - Não vimos a Ode Sáfica os [sic] Maluguti. Se for da mesma forma e medida do seu soneto da Rosa-Cruz... pode fazer outra. - Luiz Ribeiro, professor impressionista, deu-nos a Aléa das Mangueiras. Uma verdadeira mangação.

- O Sr. Thu-Ceu-Han, natural de Pequim, fez um negócio da China com o retrato do Dr. Seabra. Nem assim S. Ex. sai... parecido! - Virgilio Rodrigues enterrou-se na paisagem do Caju. Os mais continuam a prometer muito. Uma particularidade que não escapou à nossa observação: há cajus na exposição a dar com um pau! E pêssegos! - A escultura aparece com o Rodolpho [Rodolpho Bernardelli], o Correia Lima e Zani, somente. Girardet continua magistral na concorrência à Academia de Letras, fabricando medalhões. Os seus são maus apreciados. Henrique [Henrique Bernardelli], Baptista, Amoedo, Treidler e os mais não precisam comentários.

Talvez continuemos as notas impressionistas. Ça depend... Queremos ver primeiro a impressão destas notas cheias de franqueza e vazias de competência... - Bueno Amador.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

AMADOR, Bueno. O SALÃO DE 1904 (IMPRESSÕES RÁPIDAS). A Noticia, Rio de Janeiro, 7-8 set. 1904, p. 2.

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