. AMADOR, Bueno. BELAS ARTES. O SALÃO DE 1906. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 8 out. 1906, p.2. - Egba

AMADOR, Bueno. BELAS ARTES. O SALÃO DE 1906. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 8 out. 1906, p.2.

De Egba

Treplicando contra a resposta do pintor Belmiro de Almeida, escreve-nos o autor da missiva, que levantara a questão sobre o mecanismo íntimo das coisas gestoras da Escola:

“Li a resposta do meu antigo colega Belmiro de Almeida, que infelizmente entendeu mal os meus comentários a respeito do clássico mecanismo premiativo da Escola de Belas-Artes, aliando ao preconceito da cor, esquecendo-se dos versos de Tolentino, que cabem otimamente no meu caso:

Eu dou golpe nos costumes

E cuidam que é nas pessoas...

Ninguém contesta nem contestará que Belmiro, dentro ou fora de qualquer júri de Belas Artes, seja sempre o mesmo coração atento às grandes causas e, por isso mesmo, inimigo acérrimo do abominável preconceito da cor.

Mas posso afirmar, com as mãos sobre o fogo, que no assunto por mim relatado, Belmiro é positivamente um voto vencido.

Eu, ele e o finado Estevam Silva, éramos companheiros de classe, e ele sabe perfeitamente a guerra que sofreu o nosso pintor de natureza morta, pelo fato de ter o pigmento escuro impresso na epiderme.

Ele sabe perfeitamente, tão bem ou melhor do que eu, que, desde os tempos da academia, nem um só dos rapazes de cor, com provas bastantes de aproveitamento, com classificações de primeira plana, obteve o consolo do prêmio de viagem de estudo na Europa. Ele sabe que muitos esmoreceram no melhor da luta por verem o seu esforço perdido, não porque lhes faltassem predicados, mas porque não possuíam a pele alva dos privilegiados de raça...

Ele sabe ainda que não pode apontar para exemplo, um só mestiço que tenha ido à Europa, premiado pelos júris acadêmicos. E esse preconceito existiu longos anos, na vida da ex-Academia e parece estar bem encaixado na engrenagem do mecanismo atual, pois desde muito observo que só obtém tal prêmio quem pertence à casa, e os prêmios são dados em uma certa ordem reveladora do movimento futuro. E tanto assim é que eu posso garantir desde já quem abiscoitará o prêmio de viagem no ano vindouro...

Não o faço agora, porque estou ainda a narrar os milagres sem tocar nos milagrosos, mas sinto umas cócegas de explanar tudo, tim-tim por tim-tim, para que me contrariem, com provas esmagadoras, afim de ficar eu calado com tantas catilinárias...”

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Publicando a tréplica, damos a palavra a quem o caso tocar, garantindo que a olharemos toda a resposta que for enviada, nos devidos termos da praxe.

Bueno Amador.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

AMADOR, Bueno. BELAS ARTES. O SALÃO DE 1906. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 8 out. 1906, p.2.

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