. AMADOR, Bueno. BELAS ARTES. O SALÃO DE 1906. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 26 set. 1906, p.2. - Egba

AMADOR, Bueno. BELAS ARTES. O SALÃO DE 1906. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 26 set. 1906, p.2.

De Egba

Discípulo de H. Bernardelli, Eduardo Bevilacqua apresenta-se este ano com dois bons trabalhos.

Uma das tendências do jovem pintor é a procura dos assuntos mitológicos para os seus quadros de composição e fantasia. Infância de Orpheu é uma tela leve, impressionante, de ambiente bem iluminado, com bastantes promessas de segurança futura. Onde, porém, o jovem artista mais se esmerou, foi nesse bem tratado Retrato [Imagem], onde procurou, e conseguiu, vencer muitas dificuldades do gênero, que é difícil. O estilo aproxima-se muito da maneira do mestre, notando-se largueza nas marcações vigor próprio nas tonalidades.

Com este trabalho, Eduardo Bevilacqua mereceu do Júri o prêmio de viagem, justa recompensa de seus esforços leais.

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Carlos Chambelland, discípulo de Rodolpho Amoedo, expõe também duas telas de fatura larga e promissora.

Olhares curiosos é um quadro bem tratado, com simpática feição, havendo um que de sentimento, além da observação real. O quadro faz pensar. As três raparigas, no primeiro plano, olhando, curiosas, para um casal que passeia na paria, manifestam um certo ar de inveja, um certo timbre de despeito. É um bom quadro, e bom também o seu Retrato, tocado com precisão.

O Júri conferiu-lhe a medalha de 2ª classe, último degrau para o prêmio de viagem, no ano próximo.

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Francisco Manna é um artista nascido do seu próprio esforço. Discípulo do grande Romualdo Prati, que o desencantou em Porto Alegre, em uma condição modesta, Manna progrediu e veio para a nossa escola, estudar com Henrique Bernardelli. Em pouco tempo deu ótima conta de seu merecimento. Expondo pela primeira vez, este ano, as suas telas revelam quanto é esforçado e tenaz. Como Chambelland e Timotheo não se limitou a reprodução banal, tentando imprimir na tela trecho de [...] e de análise social, de [...] boas provas o Claro-escuro social e a Luta pela vida, dois trabalhos promissores de um pincel seguro. Ao ar livre e Estudo são também composições que merecem referências. O artista obteve menção honrosa de 1º grau.

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Arthur Timotheo da Costa, é um mestiço de talento. Quem o vê, não dá nada por ele. Entretanto, seus quadros revelam que, além do cenógrafo já conhecido o artista é um prometedor na tela. Livre de preconceitos é um trabalho feliz de concepção e fatura, iluminado e altraente [sic] onde o autor procurou imprimir sentimento psicológico, com bastante largueza de execução. É o seu melhor trabalho e com ele fez jus a menção de 1º grau. Seus Retratos e o seu Estudo também merecem menção honrosa dos entendidos, por bem feitos e verdadeiros, principalmente a cabeça de negro fielmente tratada.

Seu irmão J. Timotheo da Costa expõe também três Retratos de fatura apreciável, com que obteve menção honrosa de 2º grau. Esperamos vê-lo em trabalhos mais fortes, pois tem queda manifesta para isso e há de atingir o seu fim.

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Carlos Oswaldo, de uma família de artistas,discípulo de Gelli dá no salão a “maneira” diferente, aproximando-se do estilo alemão; moderno, lembrando em algumas telas a feitura rija de Helios Seelinger, educado na mesma escola. Para nós, Magdalena é o seu melhor trabalho sóbrio de colorido, vigoroso de desenho e firme de execução - o seu Retrato e o seu Violinista são de desenho rigoroso, aliado ao colorido simples, com uma tonalidade máscula, se assim nós podemos exprimir. No gênero paisagem, o autor apresenta primores de fatura e de execução, obtendo com justiça a medalha de 2ª classe que o Júri lhe conferiu.

Bueno Amador.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

AMADOR, Bueno. BELAS ARTES. O SALÃO DE 1906. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 26 set. 1906, p.2.

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