. AMADOR, Bueno. BELAS ARTES. O SALÃO DE 1906. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 21 set. 1906, p.3. - Egba

AMADOR, Bueno. BELAS ARTES. O SALÃO DE 1906. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 21 set. 1906, p.3.

De Egba

Interrompemos hoje a nossa série de apreciações sobre a atual Exposição de Belas Artes, para transcrição das seguintes linhas, que nos foram enviadas por um antigo aluno da ex-Academia, hoje arredado do meio, empolgado pela burocracia:

“Caro Bueno Amador - Talvez desconheças a escola clássica dos Júris premiativos das exposições de pintura e escultura na nossa cidade.

Dou-te alguns apontamentos curiosos, para veres como o sistema é gradativo e bem arquitetado. Em regra, dá-se o prêmio de viagem ao que obteve medalha de 1ª ou 2ª classe no ano anterior.

A medalha de ouro de 1ª classe é sempre conferida ao autor de um quadro que o governo tenha adquirido, durante o ano, para assim ser justificado o valor da compra. A medalha de 2ª classe é o último degrau para o prêmio de viagem no ano seguinte.

Este estado é quase sempre seguido por todos os júris premiativos e, - coisa estranhável -, desde os tempos da extinta Academia, existe o inqualificável preconceito da cor, não das telas, mas dos autores...

Ainda me acode à lembrança a ojeriza que, por esse injustificável preconceito, os júris, secundados pelos antigos professores da Academia, votavam aos que, embora possuíssem qualidades recomendáveis de espírito, de talento, e de vocação artística possuíam na pele o pigmento pouco simpatizado e no cabelo a revelação da raça desprezada.

Os do meu tempo recordam-se bem da crua guerra sofrida por Estevam Silva, guerra tão cruel que obrigou a vítima a reagir em plena sessão solene de distribuição de prêmios, quando chamado para receber uma medalha. O talentoso pintor da natureza morta levantou-se, dirigiu-se ao Sr. D. Pedro II, que presidia o ato, e pediu a palavra. Sua Majestade, depois de conferir a medalha de prata, deu-lhe a palavra. Estevam Silva, que era loquaz e bem falante, apostrofou ali mesmo, diante dos medalhões da época, o proceder da maioria da Academia, que premiava por simpatia e parcialidade e conservava enraizado o ódio de raça, aliado ao ignóbil preconceito da cor.

Esta reação, porém, não teve eco, apesar do entusiasmo que causou a apóstrofe de Estevam Silva, pois o ramerrão do preconceito continuou, sendo nele injustamente contemplado o meu contemporâneo Izaltino Barbosa, um negro de talento; meu calouro Martinho Dumiense e muitos outros, hoje arredados das belas-artes.

O preconceito, parece-me, foi legado à nova escola e, sou capaz de apostar dobrado contra singelo, que no júri premiativo atual, ele se deixou manifestar abertamente, fazendo crer que não é tão cedo ou nunca será concedido o prêmio de viagem aos que não tiverem a pele alva...

E assim se vê na distribuição atual, onde os rapazes de cor, de merecimento provado estão em uma escala injusta.

Que dizes a isto?”

-

Dando guarida a estas linhas, é nosso intuito esperar uma resposta para os fatos apontados, certos de que serão acolhidas as réplicas, com o mesmo acato dado às linhas acima. Trata-se de uma questão importante como é a do preconceito de cor e, pelas linhas transcritas, parece-nos que há algum fundamento.

Bueno Amador.

- A exposição continua aberta todos os dias, das 10 horas da manhã às 3 da tarde.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

AMADOR, Bueno. BELAS ARTES. O SALÃO DE 1906. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 21 set. 1906, p.3.

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