. AMADOR, Bueno. BELAS ARTES. O SALÃO DE 1906. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 set. 1906, p.3. - Egba

AMADOR, Bueno. BELAS ARTES. O SALÃO DE 1906. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 set. 1906, p.3.

De Egba

Benno Treidler é o exímio aquarelista que todos aplaudem pela correção de seus desenhos e pela certeza do manejo do pincel. Expõe no presente ano quatro motivos de paisagens e um auto-retrato. Aquarelista, no rigor perfeito da palavra, Treidler é completamente senhor dessa técnica dificílima, e, atualmente, mais familiarizado com a nossa natureza, imprime nos seus quadros a verdade dos tons, com uma leveza de [...], com uma precisão rara, com uma exceção larga, franca, bem lançada, de aguadas suaves, sem reforçar as manchas, sem quase retocar os pontos por onde o pincel passa uma vez.

A princípio, víamos nos seus trabalhos, sempre desenhados com perfeição, a preponderância dos tons violáceos, um cunho alemão no colorido; já não se dá o mesmo nas atuais aquarelas, o tom propriamente nosso, a nossa natureza com todo o seu ambiente tropical, morno e fecundo, aparece nas aquarelas do artista com uma realidade encantadora. Seu gênero predileto é a paisagem, de que nos dá quatro belos quadros, com esplêndidos estudos do céu. O auto-retrato é menos largo na execução; mais cuidadoso andou aí o pincel, mais tímido talvez, por ser o retrato o gênero mais difícil em pintura, principalmente em aquarela. O seu trabalho, porém, tem qualidades apreciáveis e, em valor, não fica longe das suas primorosas aquarelas.

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Duas discípulas, dignas do mestre, são as senhoritas Cunha Vasco [Anna da Cunha Vasco e Maria da Cunha Vasco]. Na aquarela, de ordinário, as amadoras, atiram-se ao cultivo da natureza morta, flores, frutas, legumes... As duas discípulas de Benno Treidler felizmente nunca se deixaram vencer pelo ramerrão da natureza morta, e atiram-se com galhardia à natureza viva, procurando os largos efeitos do ambiente, as luminosas manchas do céu, os horizontes matizados, luz e ar, enfim.

As aquarelas das duas irmãs já constituem, nas exposições gerais, motivos de apreciação elogiosa, pela maneira máscula com que são executadas, pelo vigor do colorido - deixando bem patente o método eficaz de seu mestre. As paisagens expostas pelas duas distintas amadoras poderão ser acoimadas de monótonas pela uniformidade do assunto, pois ambas escolheram para seus estudos efeitos da pitoresca praia do Leme, de manhã e à tarde.

Explica-se, porém, o caso, conhecendo-se as dificuldades enormes para as senhoritas que se dedicam à pintura da natureza, não lhes é possível embrenhar-se nas nossas matas, nos nossos bosques, e, assim sendo, escolhem para as suas obras os pontos mais acessíveis de onde tiram recursos, que são verdadeiros primores de aquarela.

Os motivos apresentados na atual exposição pelas senhoritas Cunha Vasco são dignos de todo elogio.

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De execução leve, suave, de tonalidade provocante, mostrando que o pincel passou pela tela como uma carícia - é o quadro de E. Tournés No toucador.

A macieza aveludada e […] desse palmo de tela dá, de longe, a impressão de um esmalte célebre, trabalhado nos bons tempos em que o esmalte pertencia mais à arte do que à industria. É um canto delicioso de toilette, na meia-luz branda, magistralmente executado.

Bueno Amador


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

AMADOR, Bueno. BELAS ARTES. O SALÃO DE 1906. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 set. 1906, p.3.

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