. AMADOR, Bueno. BELAS ARTES. O SALÃO DE 1906. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 14 set. 1906, p.3. - Egba

AMADOR, Bueno. BELAS ARTES. O SALÃO DE 1906. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 14 set. 1906, p.3.

De Egba

Gustavo Dall'Ara, se não nos enganamos, veio para o Brasil, a convite de Henrique Stepple que então estava à testa do semanário Vida Fluminense, célebre pelas caricaturas de Arthur Lucas, Jubim e Teixeira da Rocha e pela macaca que vivia às cabriolas no sobrado da redação, na rua do Ouvidor, atraindo a atenção dos transeuntes. Estreou Gustavo Dall'Ara nesse hebdomadário, onde se revelou como um belo retratista à pena, não se tendo atirado a caricatura talvez por desconhecer completamente o meio. Com a morte do hebdomadário Vida Fluminense, Dall'Ara começou a cultivar os retratos a pena, as decorações e de onde em onde exibia pequenos estudos a óleo de nossos pontos principais da cidade.

Constante e pertinaz, conseguiu ir avante e hoje gozam de bela cotação artística as suas pinturas, na maioria locais, trechos apanhados aqui, ali pelas ruas, ao nascer ou ao por do sol. É frequente ver-se o artista, nas horas de sol oblíquo, em um canto de rua, cavalete armado, palheta frisada apanhando impressões aqui e ali.

Suas telas, atualmente expostas, são três pedaços de nossa vida urbana, apanhados com muita felicidade, com toques de luz verdadeira, muito vivos e reais.

E já se vai impondo no nosso meio o pincel observador do antigo caricaturista do Tonin Buonagrazia, jornal italiano, donde o foi tirar Henrique Stepple.

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Lucilio de Albuquerque, atualmente na Europa, como pensionista da Escola das Belas Artes, dá-nos somente um quadro, retrato de Yerecê, que está longe de revelar o seu merecimento de artista.

O quadro, a pastel, é no estilo que os entendidos denominam sujo, pelo emprego dominante dos tons escuros e frios. À maneira de baton é o inexpressivo jogo semelhante ao do fusain escorrido em esbocetos. Como esboço passaria o seu trabalho completamente, mas exposto como retrato é fraco e deixa muito a desejar.

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Auguste Petit foi sóbrio desta vez. Expôs um único trabalho, auto-retrato, rejuvenescido, polido, liso, com felizes toques de luz. Parece-nos que o autor vai-se desligando do antigo feitio que tanto o prejudicava em certos retratos de encomenda. Já nesse autorretrato o pincel é menos escorrido, há alguma coisa de manchado, como se diz em gíria de pintores e se assim continuar, modificando a maneira primitiva, o artista terá a lucrar grandemente, apresentando um estilo mais rasgado, mais próprio, mais sentido, e não o tom de fotografia colorida que imprimia de ordinário aos seus trabalhos.

Bueno, Amador.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

AMADOR, Bueno. BELAS ARTES. O SALÃO DE 1906. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 14 set. 1906, p.3.

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