. AMADOR, Bueno. BELAS ARTES. O SALÃO DE 1906. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 11 set. 1906, p.3. - Egba

AMADOR, Bueno. BELAS ARTES. O SALÃO DE 1906. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 11 set. 1906, p.3.

De Egba

Da exposição que, com êxito completo, realizou José Malhôa ultimamente no Gabinete Português de Leitura, passaram para o Salão atual seis telas suas. Cebolas é um magistral quadro de natureza morta, eximiamente executado, que põe a grande distância os muitos quadros do gênero, que por aí aparecem crivados de abacates, melancias e hortaliças. Compra do voto, [...]. não jantar... [sic], Sardinhas e Soalheiro são quatro estudos de observação de aspectos e costumes portugueses, apanhados em flagrante por seu pincel seguro e firme, vivamente [...], em uma largueza de [...] empolgante. O seu quadro maior, Cócegas, hoje pertencente à pinacoteca nacional, é também um bom estudo calcado sobre costumes portugueses, mas perdeu muitíssimo agora, com o confronto que naturalmente ressalta, junto dos quadros do Salão.

Assim, nas Cócegas, as figuras desenhadas e coloridas com maestria, não encontram jogo semelhante nas outras telas, mas o cenário em que se desenrola o [...] campônio, não tem luz, falta-lhe ar; todo aquele extenso trigal monótono e esbranquiçado, sem os toques louros, quase uniforme no tom, dá a impressão natural de uma vasta região maneira de caulim. As medas, os peixes [sic] não brilham ao sol, há em todo o horizonte um tom de frio, quase polar. E isto ressalta ainda mais, depois de ser vista a tela de Rigolot, também exposta no Salão, onde os moios de trigo brilham, tem a vida característica, com as violências do sol entre nuvens; a técnica de Malhôa é diferente da de Rigolot, mas não é tão verdadeira nem tão expressiva na paisagem das Cócegas.

E é essa uma das vantagens dos Salões de pintura, fazendo nascer a comparação entre os autores e daí estabelecer a prioridade, - o que não se dá nas exposições isoladas de um autor. O vulgo muito prosaicamente explica o caso quando diz que “é no frigir dos ovos que se vê a gordura”.

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Do pintor maranhense Franco de Sá, recentemente falecido, há um retrato, em tamanho natural, de Augusto Severo, na maneira lisa e escorreita dos trabalhos já clássicos no nosso meio, como necessários à simpatia da encomenda. Apesar disso, a tela tem predicados bons de colorido, a semelhança do retratado é agradável e o conjunto satisfaz pela singeleza.

Bueno Amador.

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A Exposição, que tem sido muito visitada, continua aberta, todos os dias, das 10 horas da manhã às 3 da tarde.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

AMADOR, Bueno. BELAS ARTES. O SALÃO DE 1906. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 11 set. 1906, p.3.

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